Um pouco de Donetsk em Kiev – Análise tática de Shakhtar Donetsk 1 x 3 Dynamo Kyiv

Por Juliano Rangel

A rivalidade histórica entre Shakhtar Donetsk e Dynamo Kyiv ganhou um novo capítulo na última terça-feira (25), com a equipe da capital ucraniana levando o título da Supercopa da Ucrânia, após bater o clube de Donetsk por 3 a 1, tendo em seu banco um dos principais mentores do atual modelo de jogo do Shakhtar, o romeno Mircea Lucescu. 

O duelo, que foi disputado no Estádio Olímpico de Kiev, apresentou um Shakhtar fiel as ideias do português Luís Casto, que levaram o time ao 13º título ucraniano e a semifinal da última UEFA Europa League, na temporada 2019/2020. Do outro lado, o Dynamo, que só estava disputando seu segundo jogo oficial sob o comando de Lucescu, já apresentava alguns conceitos muito cultuados pelo romeno.

Enquanto Castro colocou a equipe de Donetsk em seu habitual 4-1-4-1, Lucescu montou um Dynamo no 4-2-3-1, mas que se comportava mais num 4-4-2 nos momentos sem a bola, com um trabalho forte dos extremos pelos lados e uma pressão ao portador da bola desde o campo de ataque.

Disposição tática inicial das duas equipes (Edição: Juliano Rangel/Tacticalpad)

Apostando na saída em 3 + 2, com Stepanenko atuando próximo a dupla de zaga formada por Kryvtsov e Bondar, e tendo Alan Patrick e Marcos Antônio na base, Luís Castro deixava os laterais Dodô e Matviyenko (atuando a vaga do machucado Ismaily) mais abertos pelos lados. Em contraproposta e para neutralizar essa saída de bola, a equipe de Kiev, mesmo em bloco médio, fazia pressões ao portador da bola e bloqueava a saída de bola pelo meio, com Sydorchuk e Shaparenko encaixados na marcação de Alan Patrick e Marcos Antônio.  

Encaixes de Shaparenko e Sydorchuk em Alan Patrick e Marcos Antônio (Imagem: Instat/Edição: Juliano Rangel)

Pressão ao portador da bola (Imagem: Instat/Edição: Juliano Rangel)

Dando sequência a marcação por encaixes, pelos lados e para neutralizar as investidas dos laterais de Dodô e Matviyenko, os extremos Gerson Rodrigues e Carlos de Pena duplicavam a marcação com os laterais Tymchyk e Karavaev, que já buscavam neutralizar Tetê e Taison na direita e esquerda, respectivamente.

Usando da velocidade, o Shakhtar só conseguia furar esse bloqueio pelo lado direito, com Tetê abrindo espaço e entrando em diagonal, e Dodô indo até o fundo para cruzar.

Do outro lado, a saída de bola era num 2 + 2, com os zagueiros Kedziora e Syrota contando com apoio de Sydorchuk e Shaparenko, enquanto que os laterais Tymchyk e Karavaev tinham liberdade para avançar, e Buyalskyy se movia mais à frente. Depois dos 10 minutos iniciais, o Shakhtar avançou mais suas linhas no 4-1-4-1 e começou a pressionar o sistema defensivo adversário. Taison e Tetê fechavam as linhas de passes pelos lados e via-se uma dificuldade em sair jogando curto, logo o goleiro Bushchan optava por sair jogando na bola longa para os lados, buscando os pivôs do atacante Supriaha.

Shakhtar no 4-1-4-1 pressionando que pressionava a saída de bola do Dynamo (Imagem: Instat/Edição: Juliano Rangel)

Ainda muito vigiados, Alan Patrick e Marcos Antônio ganhavam a companhia de Taison, que, usando da sua mobilidade, entrava em diagonal e, nas bolas invertidas para Dodô, tentava quebrar as duas linhas de quatro jogadores do Dynamo.

As inversões de lado era uma alternativa para acelerar os ataques do Shakhtar (Imagem: Instat/Edição: Juliano Rangel)

Aos 14 minutos, veio a chuva e a velocidade da bola aumentou. O Shakhtar tentava furar a marcação nos passes verticais em profundidade, e a equipe de Kiev executava uma movimentação parecida que buscava o atacante Supriaha por trás da linha de defesa da equipe de Donetsk.

Com o jogo mais ágil, quem soube utilizar dessa velocidade foi o Dynamo, que, aos 18 minutos, abriu o placar. Utilizando da aceleração dos extremos Gerson Rodrigues e Carlos de Pena, a equipe recuperou a bola e saiu em disparada para o campo de ataque. O uruguaio inverteu uma bola para Gerson, que, depois de ganhar na corrida de Matviyenko, teve calma para dominar, desacelerar e encontrar Sydorchuk na ponta da área. O camisa 5, em mais uma invertida de lado, cruzou para Carlos de Pena, nas costas de Tetê, marcar de cabeça. 

Início da dispara de Gerson que supera Matviyenko (Imagem: Instat/Edição: Juliano Rangel)

Dinâmica do gol:

O gol fez o Shakhtar buscar mais o ataque, mas a equipe continuava esbarrando na forte marcação da equipe de Kiev. Mesmo marcando em bloco baixo, destaque para a proteção da dupla Sydorchuk e Shaparenko pelo centro, com o camisa 10 conseguindo sair bem da pressão e iniciando a construção dos ataques.

Se a marcação vinha sendo o ponto forte da equipe de Lucescu, foi em um momento recuperação da bola, somada ao ataque no espaço vazio e um pivô de Supriaha, que Gerson Rodrigues assinalou um golaço para equipe de Kiev, aos 30 minutos. Confira o lance no vídeo abaixo:  

A resposta do Shakhtar veio sete minutos mais tarde, quando, em mais uma jogada pelo lado esquerdo entre Dodô e Tetê, o camisa 14 conseguiu cruzar para Júnior Moraes, entre três defensores, subir para marcar de cabeça.

Depois do gol, Tetê continuou abrindo corredor para Dodô, e entrava em diagonal para chutar de média distância. Em uma dessas batidas, o camisa 14 acabou acertando o travessão de Bushchan antes do intervalo.

Na segunda etapa, a equipe de Luís Castro retornou com Marlos na vaga de Marcos Antônio. O camisa 11 entrou para atuar mais nas entrelinhas e ser um apoio aos extremos, além de retornar para base nas saídas de bola. Por dentro, ele atuava mais próximo de Taison, Alan Patrick e Tetê, enquanto que Dodô e Matviyenko ocupavam os corredores e Júnior Moraes gerava profundidade mais à frente.

Com Marlos, o Shakhtar ganhava mais um apoio nas triangulações pelos lados (Imagem: Instat/Edição: Juliano Rangel)

Já o Kiev continuou com seu 4-4-2, em bloco médio, explorando as saídas em velocidade e trabalhando com a marcação encaixada, principalmente pelos lados com as duplas Gerson e Tymchyk, na direita, e Carlos de Pena e Karavaev, na esquerda. Tendo dificuldades para sair jogando, a equipe de Lucescu optava pela bola longa, buscando Supriaha. 

Encaixes continuavam no 2º tempo, agora com Marlos sendo um dos vigiados (Imagem: Instat/Edição: Juliano Rangel)

Com dificuldade para se infiltrar pelo meio, o Shakhtar trabalha com as inversões de lado, buscando os corredores e as bolas aéreas. Castro resolveu colocar Solomon na vaga de Tetê, enquanto que Lucescu deu um novo fôlego para o comando de ataque da sua equipe ao tirar Supriaha e colocar o atacante Fran Sol.

Solomon entrava em diagonal e, nos seus primeiros minutos em campo, invertida da direita para esquerda, para ser uma opção na hora de potencializar os cruzamentos na área. Isso dava mais liberdade para Taison trabalhar pelo meio, junto com Marlos e Alan Patrick, além de possibilitar que Matviyenko chegasse à área e aumentasse a estatura da equipe. Enquanto isso, Dodô tinha o corredor direito para atacar.

Marlos também buscava nas inversões furar o bloqueio do Dynamo por dentro (Imagem: Instat/Edição: Juliano Rangel)

Não conseguindo furar o bloqueio, Luís Castro resolveu ser mais ofensivo, agora com a entrada de Konoplyanka, na vaga do zagueiro Bondar. Já Lucescu fez a manutenção do seu sistema, colocando os meias Andrievsky e Lednev, nas vagas de Carlos de Pena e Buyalskyy.

Luís Castro tentou potencializar os lados, com as entradas de Konoplyanka e Solomon para liberar Taison e Marlos por dentro (Imagem: Instat/Edição: Juliano Rangel)

Com o Shakhtar todo ao ataque, o Dynamo conseguiu em uma jogada matar o jogo. Após uma cobrança de escanteio curta e ensaiada na direita, a inversão de lado novamente funcionou, com Andrievsky recebendo nas costas da zaga e cruzando para Fran Sol, livre de marcação, mandar, de cabeça, para as redes de Pyatov.

Luís Castro ainda tentou, em mais uma tentativa, aumentar o poderio ofensivo dentro da área, com o atacante brasileiro Fernando na vaga do zagueiro Kryvtsov, mas a ideia não surtiu efeito.

Exatamente, 20 anos depois da conquistar a Copa da UEFA com o Galatasaray, Mircea Lucescu chegou ao seu 22º título no futebol ucraniano e o primeiro à frente do Dynamo. É só o começo de uma temporada que tem, novamente, o Shakhtar como franco favorito as conquistas da liga e da copa nacional, mas também é o início de um novo ciclo do romeno, agora em Kiev.

@julianords 

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