Outro vexame, os mesmos erros

Por Pedro Galante

Mais uma vez, o torcedor são-paulino amarga uma eliminação vexatória. Assim tem sido a alguns anos: Penapolense, Defensa y Justicia, Colón, Talleres… e agora, Mirassol. Dessa vez com um agravante: o adversário estava todo remendado, perdera 18 jogadores na paralisação do futebol, e teve de voltar à campo – essa volta questionável do futebol – com os garotos da base.

Não foi um vexame. São vexames recorrentes. Por isso, atribuir culpa é tarefa complexa – seria preciso adentrar a tenebrosa teia politica do clube. Sair dessa fase requer um planejamento, um plano macro, que não vai se concretizar de um ano para o outro. Esse plano, obviamente, precisa de um capitão. Quem assume o posto hoje é Fernando Diniz. Seria ele o treinador para comandar esse processo de reconstrução? Diniz tem ideias, princípios e uma narrativa sedutora, mas isso é suficiente? No campo, vemos muitas deficiências em seu trabalho. O jogo da eliminação foi um exemplo didático destes.

Arame liso

No ataque, a posse estéril é o grande problema. Com 72% de posse de bola foram 23 finalizações, 8 no gol. É muito jogo curto, muito apoio parado e quase nenhuma agressividade.

Quase não há infiltração. A estrutura e a escolha dos jogadores não ajudam (com Pablo virando centroavante e Juafran na lateral, o lado direito fica previsível, sem qualquer resquício do desiquilíbrio que Antony oferecia.) e as orientações também influenciam: Igor Gomes e Pato tem total capacidade de oferecer infiltrações e diagonais que explorem as costas da linha adversária, mas não o fazem, ficam circulando, recebendo de costas pro gol. Os jogadores em geral são instruídos a manter essa movimentação passiva e previsível, quando estiveram pressionados pelo placar de 2 a 0, largaram esse comportamento, buscaram a movimentação e o passe mais agressivos. O resultado foram dois gols em dois minutos.

Igor Gomes e Pato de costas para o gol entre seis jogadores do Mirassol. Se um infiltra arrastando a linha junto com Pablo, cria espaço para o outro receber por dentro. Parados assim são facilmente marcados. (Foto: Instat/Pedro Galante)

Não é uma questão de azar. Não é como se o São Paulo massacrasse e infelizmente não convertesse. O que acontece é que as chances criadas não são boas. Os 23 chutes somam um número de 2,39 (Wyscout) no índice de gols esperados (xG) – para saber mais sobre essa métrica de análise clique aqui . Uma média de 0,1 xG por finalização, ou seja, em média, cada chance criada tinha 10% de chance de ser convertida. A construção não deve apenas colocar jogadores em posição de finalização, deve colocá-los em boas posições de finalização.

Transição deficiente

Os problemas do trabalho de Diniz não se limitam a fase com bola. Na verdade, são ainda mais graves no momento defensivo. A começar pela transição defensiva. O São Paulo está sempre exposto ao perder a bola. Isso não é um problema por si só, é uma escolha tática: atacar com muitos implica em defender com poucos. A solução para essa situação é a pressão pós-perda: aproveitar os jogadores no ataque para recuperar rápido e não precisar se expor atrás.

O time até executa esses movimentos, mas comete muitas faltas em suas abordagens. A falta é problemática porque joga fora todo o esforço feito na hora de pressionar. Todo o deslocamento que tinha objetivo de recuperar a bola acaba dando a bola ao adversário, e tempo e espaço para que ele se organizar para atacar.

Com a defesa postada, há muito espaço entre as linhas, falta comportamento em bloco e um encaixe mais efetivo na hora de pressionar. O segundo gol é exemplo desses problemas.

Continuidade pra quê?

Muito se fala sobre continuidade no futebol, de sua importância para a construção de uma equipe competitiva e da sua ausência no futebol brasileiro como um todo. Pede-se continuidade porque futebol é processo. Nenhum time se forma do dia pra noite. É preciso repetição para que os conceitos sejam fixados e aperfeiçoados. Continuidade do trabalho, por que o resultado está sujeito ao caos, e a derrota de hoje não significa necessariamente a derrota de amanhã.

Mas para isso é preciso que haja perspectiva de melhora. Um caminho a se seguir para chegar em algum lugar. O trabalho de Fernando Diniz parece estagnado. Os problemas são crônicos, os mesmos de seus últimos trabalhos. O elenco, por sua vez, é, por muito, o melhor que o treinador já teve a sua disposição.

A situação da pandemia deve garantir a permanência de Diniz. O Brasileirão bate à porta e o mercado não oferece bons nomes para substituição. Mas, o São Paulo, enquanto clube, precisa pensar que tipo de futebol quer praticar e se seu treinador pode realmente levá-lo a esse patamar.

@pedrosbgalante

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