Competitividade é a palavra-chave: o Burnley de Sean Dyche

Por André Freire Almeida e Leonardo Beltrami Cavallaro

WhatsApp Image 2020-07-18 at 16.36.14.jpegCom quase uma década no comando dos The Clarets, o técnico inglês transformou o patamar do clube 

O Burnley Football Club, apelidado de The Clarets (Os Vinho Tinto), devido à cor de sua camisa, é um clube de futebol profissional situado na cidade de Burnley, no leste do condado de Lancashire, Inglaterra.

bur2Um time que conseguiu bons resultados no pós-guerra, mas seu desempenho caiu drasticamente nos anos seguintes, e hoje o clube busca a glória na Premier League. Feito por: EclecticArkie

Participou da criação da Football League, em 1888, além de já ter passado pelas 4 divisões que contemplam a liga.

Sua época de ouro foi nos anos 1946 até 1976. Foi o primeiro time do mundo a construir seu centro de treinamento ao lado do estádio, além de ter usado métodos inovadores de treino para o período. Os The Clarets também foram um dos primeiros a dar carta branca ao técnico sobre a política de transferência. Essas mudanças tiveram como consequência a melhor campanha do time em um torneio continental, que foi às quartas de final da Taça dos Campeões da Europa, a atual Champions League, perdendo para o Hamburgo, tradicional equipe da Alemanha, em 1960-61.

Em sua história, o Burnley tem duas taças do campeonato inglês, conquistadas nas temporadas de 1920-21 e 1959-60. Além disso, o clube venceu a principal copa do país em 1913-14.. Com a chegada da nova era do Campeonato Inglês, a Premier League, em 1992, o time não deslanchou e continuava a transitar nas divisões inferiores do país.

Foram trinta e três anos de espera, até que Wade Elliot, em 2008-09, marcou o gol da vitória nos playoffs de acesso para a primeira divisão da Inglaterra. O jogo denominado de “The £50,000,000 final“, devido ao aumento das receitas disponíveis para os clubes da divisão principal após o acordo de pagamentos de direitos de TV substancialmente mais altos, teve o Burnley como o vencedor pelo placar de 1X0 no duelo contra o Sheffield United.

Todavia, a euforia durou apenas uma temporada, uma vez que o clube foi rebaixado logo em seguida. No entanto, a partir da chegada de Sean Dyche, o pequeno clube inglês mudou radicalmente de patamar. Inglês e ex-jogador, atuou como zagueiro, com passagens por times como Watford, Millwall, Luton Town, Bristol City e outros mais. Dyche começou a carreira como treinador de futebol em 2011, quando comandou os The Hornets. Ficou apenas um ano no clube de Vicarage Road até assumir o Burnley em outubro de 2012.

A partir daquele ano, os The Clarets e o técnico passaram a ter uma relação única no futebol da terra da rainha. Conquistando duas promoções para a Premier League em três anos, o inglês não só consolidou o Burnley na elite do futebol inglês após 2014-15, como também conseguiu o feito histórico de levar o clube aos playoffs da Europa League, na temporada 2017-18, depois de alcançar a sétima posição na tabela de classificação, somente abaixo do grupo denominado de Big-Six.

Diante disso, o que explica o sucesso do Burnley de Sean Dyche? O que podemos observar taticamente do time? Nós explicamos logo abaixo.

Escalação e formação base:

O time comandado por Sean Dyche tem como desenho tático base o 4-4-2. Há se de ressaltar que é uma equipe altamente competitiva, que preza por uma defesa sólida e é bem vertical no momento ofensivo, utilizando muito as ligações diretas com passes longos aéreos.

bur3O 4-4-2 muito bem definido do Burnley. Via: LineupBuilder

Organização ofensiva:

O Burnley, há de se ressaltar, é um time muito direto e vertical na fase ofensiva. Sendo assim, os comandados de Sean Dyche tendem a não prolongar o seu período com a posse de bola, e sim atacar em direção ao gol de forma rápida e objetiva. Para ilustrar essas informações com estatísticas, destacamos que o time, até a 36ª rodada da PL, é a equipe com a menor média de passes certos por jogo do campeonato (230), a segunda com menor média de posse de bola da competição (40.7%) e das 36 partidas disputadas até o momento, os The Clarets foram superiores no quesito posse de bola em apenas três oportunidades.

Para tanto, fundamental notarmos que o Burnley utiliza muito as ligações diretas com passes longos aéreos. Sempre com os lançamentos em direção aos atacantes, eles têm a missão de competir e, de preferência, vencer a disputa pela 1ª bola. Os meio-campistas, por sua vez, se aproximam do local onde acontece o duelo pela 1ª bola para tentarem ganhar a 2ª bola. É essencial que os atletas vençam esse segundo momento de disputa, uma vez que, dessa maneira, o time poderá dar continuidade à fase ofensiva.

bur4A bola longa aérea é uma das armas mais perigosas do Burnley. 

bur5Repare como os meio-campistas se aproximam da disputa pela 1ª bola na tentativa de ter superioridade numérica nessa faixa do campo buscando vencer o duelo pela 2ª bola. Isso é uma tendência da equipe de Sean Dyche. Imagem: FullMatchSports

Ao falarmos do momento ofensivo, é obrigatório citarmos a importância e a influência do setor esquerdo, composto pelo lateral Charlie Taylor e pelo meio campista externo McNeil, no funcionamento da fase ofensiva da equipe. Responsáveis pela criação de muitas das jogadas da equipe, os ingleses se complementam perfeitamente. O camisa 11 ocupa muito a faixa esquerda do campo e, por vezes, realiza o movimento de fora para dentro, abrindo o corredor esquerdo para Taylor explorar.

Essas movimentações tendem a dificultar a marcação do adversário, em virtude de que, caso o lateral direito do adversário persiga McNeil até a faixa central, o camisa 3 estará pronto para atacar as costas desse defensor. Se o meio-campo externo rival acompanhar o atleta de 20 anos até o meio, o Burnley acionará Charlie Taylor, que terá tempo e espaço para realizar cruzamentos. Mas se nem o lateral e nem o interior externo perseguirem o camisa 11, McNeil receberá no terço final do campo, pronto para ser uma ameaça à defesa do adversário, desequilibrando com passes ou conduzindo a bola.

bur6O mapa de calor de Charlie Taylor na Premier League. Sempre atacando o corredor esquerdo ofensivo, o lateral inglês contribuiu com uma assistência na elite do futebol inglês. Imagem: SofaScore

bur7A importância de McNeil na construção ofensiva da equipe. Altamente participativo nos jogos e somando dois gols na PL, o inglês é o mais talentoso do plantel de Sean Dyche. Imagem: SofaScore

Além de concentrar muitos dos seus ataques pelos flancos, de suma importância ressaltarmos a qualidade que os atacantes têm de colocar a bola nas redes adversárias. Sean Dyche busca avançados que tenham como características principais um bom porte físico para a disputa das bolas aéreas, o domínio do jogo pelo alto e um notável poderio de finalização. Dentro disso, nesse estilo de jogo, dois jogadores vêm se destacando demais. Chris Wood, neozelandês, é o artilheiro da equipe, com 12 gols na elite do campeonato da terra da rainha. Destro, de incríveis 1,91 metros de altura, o ex-jogador do Leeds United é uma carta marcada nos onze iniciais do técnico Sean Dyche, atuando vinte e sete vezes no time titular. Outro homem de frente que não poderia deixar de ser citado é o atacante Jay Rodriguez. Formado nas categorias de base do clube, o atacante de trinta anos vem colaborando bastante na atual temporada, somando oito gols e uma assistência na PL.

bur8Os atacantes Jay Rodriguez e Chris Wood, respectivamente. Ambos são fundamentais no modelo de jogo do Sean Dyche. Imagem: GettyImages 

Transição ofensiva:

No modelo de jogo do Burnley, como dito anteriormente, temos uma predominância de bolas longas aéreas. Dessa forma, rapidamente a equipe alcança os dois terços finais do campo. Quando o time consegue vencer a disputa pela 2ª bola, os ingleses são letais nessa transição. Optando pela aceleração, os comandados de Sean Dyche chegam ao gol adversário com poucos toques na bola, mas sempre com passes verticais e apostando, principalmente, na velocidade de Dwight McNeil.   

Organização defensiva:

A defesa é, sem dúvida, o ponto mais notável do Burnley. É a terceira equipe que mais tem jogos sem sofrer gols (14) na atual PL, atrás apenas de Liverpool e Manchester City. Além disso, é a quinta equipe com a melhor média de cortes por jogo (22.9 de média por partida). Corte, vale a ressalva, é uma ação defensiva onde o jogador chuta ou cabeceia a bola para longe de seu gol sem a intenção de achar algum companheiro.

No momento de pressão alta, é possível observar uma movimentação de subida dos dois avançados e dos quatro meio-campistas, na tentativa de forçar o adversário a sair com ligações diretas ou buscando induzir o rival ao erro. Além disso, é comum a equipe de Sean Dyche utilizar a marcação alta com encaixes individuais.

bur9O momento de pressão alta da equipe. Pressionado a saída de bola do adversário, o objetivo do time é forçar o rival a utilizar as ligações diretas ou ao erro. Imagem: SkySports

bur10A subida dos atacantes e dos meio-campistas no momento de pressão alta, sempre contando com o auxílio dos meias externos. Imagem: FullMatchSports

burnley1Marcação alta com encaixes individuais. Imagem: FullMatchSports

burnley2Mais uma vez, a utilização da marcação alta com encaixes individuais. Repare na pressão exercida no portador da bola e no fechamento das linhas de passe do homem que tem a posse. Imagem: FullMatchSports

Quando o adversário progride no campo em construção, alcançando o segundo terço ou até mesmo o terço final, o time possui uma abordagem diferente. As duas linhas de quatro ficam bem nítidas e o bloco de marcação passa a ser muito estreito e compacto, mudando da esquerda para direita, focando no fechamento do espaço do lado em que a bola está.

Um outro ponto interessante a se observar é que as linhas são muito próximas umas das outras. Dessa forma, a equipe é capaz de reduzir o espaço na zona de guerra e dificulta a ação de qualquer atleta que estiver nas entre linhas. Acrescentado a isso, importante notar o essencial papel exercido pelos atacantes nesse estilo de marcação, uma vez que eles vigiam os meio-campistas rivais, dificultando uma possível linha de passe.

burnley3Repare como o Burnley concentra muitos jogadores no setor da bola. A busca é sempre por ter superioridade numérica. O foco principal é diminuir todo o espaço no lado em que a bola está. Imagem: FullMatchSports

bur14As duas linhas de quatro estão bem nítidas. Repare, também, na compactação do bloco de marcação. Ideias chave na fase defensiva do time de Sean Dyche. Imagem: FullMatchSports

bur15A presença dos homens de frente no momento sem bola é crucial para o momento defensivo da equipe. Eles bloqueiam a linha de passe do rival, evitando viradas de jogo rápidas. Imagem: FullMatchSports

Ainda assim, apesar do Burnley ter uma alta solidez na defesa, é importante destacar o principal ponto fraco da equipe na fase defensiva. Como os comandados de Sean Dyche buscam concentrar muitos jogadores no setor da bola, o lado oposto fica mais vulnerável. Sendo assim, podemos notar que o time tem certas dificuldades de lidar com a inversão rápida de jogo procurando ativar o lado débil da jogada. Na tentativa de sanar esse problema, a equipe opta por recuar o meio campista externo do lado oposto de onde a bola está, afim de preencher tal espaço vazio.

Se o Burnley tem como ponto forte o momento defensivo, temos que ressaltar o trabalho do goleiro Nick Pope. Com seus 28 anos, o guarda redes inglês esteve presente em todas as partidas do campeonato, possui um aproveitamento de 71% em defesas por jogo e uma qualidade incrível em lançar a bola para os homens de frente. Está empatado com o brasileiro Ederson em “Clean Sheets”, possuindo 14 ao todo. Concorrente ao prêmio Golden Glove, junto ao arqueiro brasileiro do Manchester City, o jogador uni uma boa estatura, um ótimo tempo de reação, elasticidade e segurança.

bur16A excelente atuação do goleiro Nick Pope no duelo contra o Liverpool, pela 35ª rodada, marcou o fim dos 100% dos Reds em Anfield. Imagem: site oficial do Burnley

Transição defensiva:

A respeito da transição defensiva, relevante destacarmos um ponto específico: como dito anteriormente, na bola longa aérea, os meio-campistas se aproximam do local onde está acontecendo a disputa pela 1ª bola na tentativa de ter superioridade numérica nessa região do campo buscando vencer o duelo pela 2ª bola. Dessa forma, caso o adversário consiga ganhar a competição nesse primeiro embate e a bola encontre jogadores rivais atrás desse povoamento do Burnley, a equipe pode estar mais vulnerável nessa transição defensiva, em virtude de que os atletas do outro time poderão atacar a última linha defensiva dos comandados de Sean Dyche e terão maior facilidade de progredir no campo.

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Como o time concentra muitos jogadores próximos a disputa da 1ª bola procurando vencer o duelo pela 2ª bola, observamos um enorme espaço atrás deles que podem ser explorados pelos adversários. Imagem: FullMatchSports

Para finalizar, salientamos que o Burnley, certamente, é um dos clubes mais interessantes de se acompanhar em toda a Premier League. Altamente impactado positivamente pelo excelente trabalho do técnico Sean Dyche, o clube vem crescendo de patamar a cada temporada e buscando voos mais altos na elite do futebol inglês. Apesar de várias pessoas considerarem o modelo de jogo da equipe retrógado ou ultrapassado, o time é extremamente competitivo e é um adversário muito complicado de se enfrentar. Sendo assim, os The Clarets nos mostram a cada semana que existem inúmeras formas de vencer os jogos e, principalmente, de se praticar futebol com eficiência e brilhantismo.

@andre_freire10 /  @Leocavallaro01

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