Defesa à brasileira: linha de quatro e marcação por zona

Por Pedro Galante

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A Diagonal de Flávio Costa definiu as bases táticas da Escola Brasileira. No entanto, sabemos que o sucesso da Escola Brasileira não pode ser explicado somente pela tática. Pelé e Garrincha são muito mais importantes que o 4-2-4. Só não podemos esquecer que, apesar desse fato, Pelé e Garrincha faziam parte do 4-2-4. O talento não existe no vácuo, precisa do subsidio da tática, da organização.

Apesar do plantel talentoso, o Brasil não foi capaz de vencer a Copa de 1950. É difícil estabelecer relações diretas no futebol, uma vez que o jogo é regido pelo caos – e Zizinho insiste que a Diagonal não foi usada na final – mas, pode-se dizer que a derrota de 50 é prova de que as ideias introduzidas a partir da Diagonal ainda precisavam de desenvolvimento. Aqui, falaremos desse desenvolvimento, com foco especial no setor de defesa. Mas antes, precisamos de contexto.

O beque de espera e o beque de avanço

A primeira regra do impedimento dizia que para um jogador estar em condições de jogo deveria haver três adversários (geralmente o goleiro e os dois beques) entre ele e o gol. O atacante, por tanto, tinha que tomar por referência o defensor mais avançado. Os dois beques tinham papeis diferentes: um avançava e mantinha linha de impedimento alta, o outro esperava, fazendo a cobertura e recolhendo as bolas longas. Essa manobra restringia muito o espaço efetivo do jogo e ainda permitia um jogador na cobertura, caso a armadilha do impedimento falhasse.

A nova lei do impedimento

Em 1925, em função de protestos e da baixa média de gols, o número de adversários entre um jogador em condição legal e o gol caiu de três para dois. Com essa mudança, a armadilha do impedimento deixou de ser uma manobra individual e passou a ser coletiva. Se um defensor se distraísse, o atacante estaria livre, cara a cara com goleiro. Com o tempo, novas formas de defender foram surgindo, algumas estão presentes até hoje, assim como a regra de impedimento com dois defensores.

O surgimento do líbero

Muitos treinadores abriram mão de tentar deixar os atacantes adversários impedidos e passaram a construir defesas mais sólidas, com marcação individual: daí o recuo do centromédio para marcar o centroavante adversário, o que origina o WM. Esse pensamento foi elevado a outro patamar por Karl Rappan e seu ferrolho suíço na Copa de 1938. Rappan manteve a linha de três, mas recuou um dos meias para trás da linha de defesa, e baixou os atacantes interiores para compor o meio campo. Um 1-3-3-3. Esse “um” foi o primeiro líbero do futebol, um zagueiro que atuava atrás da linha defesa, fazendo a sobra, mas que compunha o meio campo na hora de atacar. Era um sistema essencialmente defensivo. No Maracanazzo, o Uruguai usou um sistema parecido, com Matias González de líbero.

O Brasil, a linha de quatro e a marcação por zona

No Brasil, as coisas aconteceram de maneira diferente. Primeiro que o WM não foi muito aceito: recuar o centromédio, uma posição de prestigio, não era fácil. E o estilo de Rappan era defensivo demais para um país tão alegre com a bola no pé. No entanto, a antiga pirâmide, ou o 2-3-5, como quiser, já não se sustentava com a nova regra do impedimento, ou ao menos, não da maneira que funcionava anteriormente. A Diagonal é justamente esse desdobramento do 2-3-5. Os detalhes sobre a Diagonal estão no último texto dessa série que você pode ler nesse link.

Da Diagonal surge o 4-2-4, e consequentemente a linha de quatro defensores. Mas a diferença brasileira não se limitava à estrutura, era também uma diferença de método: marcava-se por zona e não individualmente.

Fala-se marcação por zona, pois, em comparação a marcação individual da época, havia mais referências zonais, a linha de quatro sendo a principal delas, mas a principal referência seguia sendo o indivíduo. A ideia era limitar a perseguição ao individuo a um setor, sendo agressivo sem deixar muitos espaços vazios. Parecido com o que chamamos hoje de marcação por encaixes. Claro, que não funcionava como funciona hoje, mas a ideia é parecida.

Atribui-se a criação da marcação por zona a Zezé Moreira e seu Fluminense campeão carioca em 1951. Há quem acredite que a marcação por zona foi inventada pelos húngaros e chegou ao Brasil quando Béla Guttmann trabalhou no São Paulo em 1957. Na verdade, tanto faz quem criou. O importante é que com a conquista brasileira na Copa de 1958, a marcação por zona se consolidou enquanto característica fundamental da Escola Brasileira.

Suécia 2 x 5 Brasil – o mundo é nosso!

A final do Mundial na Suécia colocou frente a frente representantes de diferentes sistemas defensivos surgidos depois da mudança na lei do impedimento: A Suécia atuava no 1-3-3-3 com um líbero e apenas três atacantes, o Brasil jogava com linha de quatro e atacava com muita gente.

Laterais ao ataque

Com o aumento do número de gente na linha de defesa, defensores que avançavam se tornariam importantes, ainda mais na interpretação brasileira (4-2-4) que deixava o meio campo mais vazio. No ferrolho de Rappan, quem subia era o líbero, só poderia ser ele, pois era o único que não marcava ninguém especificamente. Se, por exemplo, o defensor pela esquerda avançasse, o ponta adversário ficaria livre para um contra-ataque.

O Brasil não tinha líbero, mas também não marcava individual. A marcação por zona permitia que o lateral subisse, pois o lateral do lado oposto ficava e, junto com os centrais, garantia três jogadores na defesa. É assim que funciona a diagonal defensiva, usada até hoje.

A linha de quatro e marcação por zona tinham seu valor defensivo, mas na Escola Brasileira tudo respinga no ataque. Assim foi nascendo a figura do lateral brasileiro, um defensor que aparece mais avançado e ajuda na criação e em alguns caso até na finalização das jogadas. Mas esses jogadores são só mais uma peça na lógica ofensiva do futebol brasileiro. Falaremos mais sobre em breve.

Referências:

Escola Brasileira de Futebol, de Paulo Vinícius Coelho (PVC). Capítulo 4. Marcação por zona;

A pirâmide invertida, de Jonathan Wilson. Capítulos 3. O terceiro zagueiro e 7. Organizando o carnaval;

As táticas do futebol, Luiz Mendes. Capítulos 2. O beque-de-espera, o beque-de-avanço e a macumba e 10. Zezé Moreira e a marcação por zona;

Thread de @10Kundera: https://twitter.com/10Kundera/status/1274365167703334913

Videos: InStatScout/Pedro Galante

@pedrosbgalante   

Um comentário sobre “Defesa à brasileira: linha de quatro e marcação por zona

  1. Meus parabéns Pedro! Que obra!
    O método zonal, mesmo que historicamente questionem sua atribuição ao futebol brasileiro, é inegável que, depois da seleção de 58, se tornou de fato operacional e aí, contribuição ímpar de todos os envolvidos no futebol brasileiro da época.

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