MANCHESTER UNITED: Passado e presente, a relação entre Ferguson e Solskjaer

Por João Victor Souza Silva

O Manchester United colecionou uma série de boas histórias desde 1878. Até então, entre os mais conhecidos estão: Os Busby Babies e a trajetória de Sir Alex Ferguson. Sendo assim, esse artigo busca demonstrar porque os treinadores que sucederam a Ferguson não deram certo no comando técnico do United, além disso, ressaltar as semelhanças entre as gestões de Ferguson e Ole Gunnar Solskjaer.

Em uma primeira abordagem, urge a necessidade de demonstrar a construção do Manchester United como um grande clube de futebol que conquistou diversos torcedores no Reino Unido, uma vez que o clube conseguiu suprir uma necessidade social da população local (Manchester). Em suma, a cidade de Manchester era vista como “uma cidade preto e branco”, triste e “sem sal”, em razão das altas jornadas de trabalho dos cidadãos no período de Revolução Industrial. Logo, pode-se dizer que o clube de futebol serviu para trazer um “ar de graças”, “cor”, felicidade, um lazer aos habitantes de Manchester, que passavam boa parte de sua vida preocupados com suas obrigações profissionais e familiares. Portanto, a oportunidade de se apegarem a algo que fugisse da rotina, tornou-se um alívio para uma vida estressante.

Nessa conjuntura, após a Segunda Guerra Mundial, surge o escocês Matt Busby para assumir esse papel de tornar o clube algo que representasse a cidade. Sendo assim, Busby estava disposto a desafiar o Liverpool e até mesmo o mundo, e para isso trouxe uma forma de pensar diferente (robusta, firme e agressiva, mas ao mesmo tempo demonstrava classe) e buscou entender o que o clube representava para os moradores locais, e assim, ele lutou por isso. Dessa forma, foi possível notar o aguerrimento do treinador durante os jogos e a transformação que estava fazendo no elenco.

Logo mais tarde, houve o conhecido: “Desastre aéreo de Munique” em 6 de fevereiro de 1958, responsável pela morte de jornalistas e jogadores importantes do elenco. Entre os sobreviventes, estavam Busby, Bobby Charlton (que jogaria pelo clube posteriormente com Denis Law e George Best) e Bill Foulkes para fazerem história pelo clube. Após o desastre, durante o período de reconstrução: Busby foi nomeado Sir, Best, Charlton e Law tiveram premiações individuais e os Red Devils conquistaram títulos nacionais e internacionais (como a Copa dos Campeões contra o Benfica de Euzébio). No entanto, após saída de Busby fica um “vácuo” no United e o clube não reencontra outros momentos de glória no futebol.

Anos mais tarde, com o intuito de reviver os momentos de glória, o United traz Ron Atkinson, mas não deu muito certo. Em 1986, chega outro escocês –assim como Sir Matt Busby- para assumir a responsabilidade de colocar o United nos trilhos, o homem era: Sir Alex Ferguson.

Ferguson vinha de um bom trabalho na Escócia com Aberdeen e própria seleção escocesa. Ao chegar em Manchester, se deparou com um elenco cheio de problemas, entre eles: jogadores alcoólatras e indisciplinados (de acordo com corresponde da BBC, Tim Vickery, havia até mesmo quem faltava regularmente aos treinos). Nessa conjuntura, Ferguson percebeu esses e outros problemas no clube, e assim, buscou entender o que o clube representava para a cidade e como poderia dar continuidade ao trabalho de Sir Matt Busby. Em suma, pode-se dizer que Ferguson deu continuidade à tradição do clube respeitando sua história e valores. Sendo assim, o escocês não teve piedade e reestruturou o elenco desde as categorias da base. Ali, havia um planejamento para o longo prazo. Ferguson trouxe alguns de homens de confiança da Escócia e do Aberdeen para jogar no time principal e compor a comissão técnica, além disso, trocou funcionários e membros da comissão diversas vezes. Assim, aos poucos o clube voltava aos princípios de Busby e, ao mesmo tempo, Ferguson deixava tudo com a sua cara.

Nesse sentido, Ferguson começou construindo o elenco principal das posições de defesa até as posições de ataque, de forma que, o clube possuísse jogadores com a forma de pensar parecida e assumissem a posição. Como consequência dessa filosofia, manteve o capitão Bryan Robson e trouxe: Steve Bruce, Gary Pallister, Denis Irwin, Brian McClair, Lee Sharpe, Paul Ince, Mark Hughes, Peter Schmeichel, Roy Keane, entre outros. Portanto, conclui-se que Ferguson buscou construir uma estrutura técnica, física, tática e mental do clube até a safra de jovens de 1992.

Manchester United vs. Blackburn Rovers 1992-1993

Não muito tarde, em 1992, estreia Ryan Giggs aos 17 anos e faz um espetáculo no campeonato. No decorrer do tempo vem outros jovens jogadores, e assim, ficam conhecidos como: “Class of 92”. São eles: David Beckham, Gary Neville, Phil Neville, Nick Butt e Paul Scholes. Logo, fica evidente que esses garotos não assumiriam a responsabilidade logo de cara, pois o clube possuía lideranças como: Roy Keane e Cantona. No entanto, Ferguson sempre buscou apoiar seus jogadores (desde que o respeitassem) e passar confiança, graças a isso, ganhou um campeonato inglês com os jovens base se destacando, mas sempre se apoiando nas figuras de liderança da equipe. Por causa disso, após 1997, o United tinha em mãos um dos elencos mais competitivos da Europa, e ainda por cima jovem.

O time de Ferguson ficou conhecido pela força física e “jogar com o coração”, logo, era visto como um time sólido e até mesmo motivador em alguns momentos, visto que representava os valores dos cidadãos de Manchester. Naquele momento, havia na cidade o clima de: “voltar as raízes”. Sendo assim, para muitos ali, o futebol voltou a ser levado como uma religião em suas vidas.
Ao fim da Era Ferguson, o United conquistou 38 títulos, entre eles: 13 Premier League e 2 UEFA Champions League. Dessa forma, assim como a saída de Sir Matt Busby deixou um vácuo no clube, a de Ferguson não foi diferente. O escocês se tornou um tormento e motivo de comparação para todos os seus sucessores (Moyes, Van Gaal e Mourinho).

Após a aposentadoria de Ferguson e a saída de David Gill, em 2013, o United buscou se manter na elite do futebol e manter as tradições ao mesmo tempo. Nessa perspectiva que surge a contratação de David Moyes. No entanto, como já sabemos, não deu certo. Posteriormente, as tentativas com Van Gaal e Mourinho buscaram uma recuperação imediata do clube, mas também não obtiveram sucesso. Então, no momento realizado, foram boas contratações, uma vez que um vinha de uma ótima campanha na Copa do Mundo e o outro conhecia bem o campeonato. Portanto, é possível supor que, essas tentativas deram errado porque essas pessoas não são de dentro do clube, em outras palavras, não conhecem as motivações e valores que sustentam o clube, pois nunca sentiram elas, nunca viveram elas. Além disso, os treinadores contratados eram conhecidos por trabalhos curtos (em torno de 3 anos). Dessa forma, vê-se a chegada de Solskjaer como um trabalho de longo prazo bastante otimista, uma vez que ele participou da formação do Manchester United como um dos maiores clubes do mundo.

Solskjaer se assemelha muito a Ferguson, visto que foi um de seus pupilos favoritos, ele traz consigo a mentalidade da velha guarda e entende o que o clube representa para os torcedores de Manchester. Posto isso, Solskjaer se assemelha bastante com Ferguson, uma vez que ele também está buscando jogadores com características de liderança e que sejam pilares em posições do elenco. Assim como Ferguson, o norueguês está começando pela defesa.

– Contratou Aaron Wan-Bissaka e Harry Maguire.
– Investiu em reposicionar Luke Shaw como um bom defensor pela esquerda.
– Deu confiança para o Lindelof jogar na defesa com mais segurança.

Ferguson, havia montado sua defesa com Jim Leighton (um goleiro escocês de sua confiança), Steve Bruce, Gary Pallister e Denis Irwin. Certamente, os jogadores daquela época são bastante diferentes dos de hoje, mas o ponto que quero salientar é a busca por um perfil de jogador para a posição. Assim, Steve Bruce e Gary Pallister podem ser comparados com Harry Maguire hoje, uma vez que são zagueiros grandes, fortes e com liderança em campo. Sendo assim, assim como Ferguson fez a contratação caríssima de Gary Pallister para ser dono da posição na defesa, Solskjaer fez o mesmo ao escolher pagar caro pelo capitão Maguire.

Manchester United vs. Blackburn Rovers 1992-1993

No meio campo, Ferguson buscava um volante que fosse: forte, tivesse liderança em campo e fosse bom para o combate físico, ou seja, um jogador forte que tivesse competência técnica para guardar bem a defesa, sair jogando e assumir responsabilidade no meio campo durante a temporada. Além disso, outro volante, com características parecidas, mas com a especialização em apoiar o ataque e fazer transições. Nessa primeira função, temos Roy Keane, Michael Carrick, Paul Ince, N. Butt e Lee Sharpe, já na segunda, temos jogadores como: Paul Scholes, Anderson, Flechter e até mesmo Giggs já fez essa função entre 2010 e 2013.

Nos dias de hoje, Solskjaer procura encaixar Mctominay nesse perfil de primeiro volante clássico e o Fred fazendo a função de um volante que, também é sólido na defesa, mas faz ligações com o ataque. Curiosamente, Fred já realizou declarações que Carrick o ajudou muito sobre como jogar pelo Manchester United. E isso, se torna mais evidente pela atual temporada e pela função que Fred vem desempenhando no time. Na atual conjuntura, pode-se dizer que Fred se tornou o jogador mais importante do meio de campo do Manchester United, da mesma forma que Carrick entre 2011 e 2013.

Ainda nessa faixa do campo, mas ofensivamente. Ferguson gostava de dois meias abertos com enfoques diferentes: um com boa capacidade de passe, velocidade e noção de posicionamento para auxiliar os volantes. E outro, com a atenção voltada mais para o ataque, portanto, um jogador mais incisivo e que buscasse penetração. Durante os anos 90, Giggs assumia por muitas vezes esse papel do jogador mais ofensivo e o Beckham do mais cauteloso. Já nos anos 2000, temos Giggs como aquele jogador que apoia os volantes e Cristiano Ronaldo ou Rooney como aquele mais ofensivo.

MANCHESTER UNITED FC – ÉPOCA 08/09

MANCHESTER UNITED FC – 1999

No modelo de Solskjaer, podemos perceber esses papéis com Marcus Rashford, Daniel James e a busca da contratação de Jadon Sancho (atualmente com 20 anos e 17 assistências e 17 gols pela Bundesliga na temporada 19/20 até a data 30/06/20). Posto isso, Rashford desempenha o papel já ocupado por Cristiano Ronaldo um dia e, Daniel James (líder de assistências no United: 6) com a função de ser o jogador que ajuda mais na marcação e passes no meio campo, embora já tenha sido escalado como centro avante no 3 5 2 quase sempre. Caso a concretização se realize, teríamos a dupla Rashford/Sancho, assim como houve, Cristiano Ronaldo/Giggs.

Para finalizar, restam duas posições: o 10 e o 9. Como um dez ou ocupando a função de um jogador que joga atrás do centro avante (segundo atacante), o United contou com Eric Cantona, que jogava entre as linhas de defesa (do 442 clássico inglês) nos anos 90 e dava um “show”. Posteriormente, veríamos Bekcham, Rooney e Giggs fazer essa função. Sendo assim, Ferguson gostava que o jogador possuísse um bom passe longo, estivesse sempre correndo em campo buscando a bola e que, ao mesmo tempo que ajudasse o time na construção de jogadas e na finalização destas, fosse o primeiro homem da defesa. Sendo assim, Solskjaer trouxe Bruno Fernandes para representar esse 10 e ser uma liderança na equipe.

UNITED 12/13

Por fim no ataque, temos A. Martial, que fez uma bela parceria com Rashford em 2016. Já nos primeiros jogos no comando do norueguês, foi possível notar que ele buscava um atacante veloz. Isso fica evidente com a escalação de Rashford como centro avante durante a temporada passada. Na atual temporada, Martial ocupa essa função. Embora tenha marcado gols nos últimos jogos pelo United, seu desempenho em campo não está sendo satisfatório, uma vez que Solskjaer solicita funções que ele não desempenhou nos últimos anos (como pressionar a defesa e fazer a função de pivô), pois Mourinho utiliza ele aberto pela esquerda. Sendo assim, quem fazia as funções de centro avante era Zlatan Ibrahimovic e, posteriormente, Romelu Lukaku.

Uma curiosidade que merece atenção, é que Ferguson sempre gostou de jogar com duplas no ataque, a exemplo disso temos: Hughes/McClair, Cantona/McClair, Cantona/Cole, Cole/Cantona, Rooney/Ronaldo e Rooney/Van Persie. Semelhante a isso, Solskjaer tentou iniciar a temporada 19/20 com Rashford e Martial, no entanto, no início não renderam o esperado e foram criticados. Após isso, a dupla não conseguiu obter regularidade devido a lesões.

Portanto, pode-se apostar que esses dois trabalhem bem juntos num futuro próximo, uma vez que já testemunhamos boas aparições da dupla com L. Van Gaal.

Manchester United 19/20

O ponto interessante a se destacar é: a confiança que Solskjaer coloca em seus jogadores. Essa característica foi muito presente na Era Ferguson, como exemplo temos o início da temporada com jovens, em 1995; o início da carreira de David de Gea; Colocar a camisa 7 para Cristiano Ronaldo (na época ele foi criticado); entre outros. Sendo assim, nesse ponto é possível notar o resgate de princípios do clube pelo norueguês. Portanto, Solskjaer investiu em Martial, que era considerado um fracasso no clube, e hoje, vem de uma sequência de gols regulares pela equipe.

Outro ponto que merece destaque, é o investimento nas categorias de base e jogadores do Reino Unido. Como fundamento desse ponto, temos:
– Priorizar a contratação de Maguire invés de Koulibaly e Skriniar;
– Buscar James Maddison antes de Bruno Fernandes;
– Dar oportunidade para Andreas Pereira e Scott Mctominay;
– Subir para o time principal: Angel Gomes, Tahith Chong, Mason Greenwood e James Garner;
– Buscar Joshua King no Bournemouth;
– Escalar os garotos da categoria de base nos jogos de copas nacionais e fase de grupos da UEFA Europa League.

Em virtude dos fatos mencionados, me arrisco a afirmar (como torcedor do Manchester United) que Solskjaer é a melhor opção para o clube no longo prazo, em razão dos motivos citados acima. Outro ponto que merece destaque é a diretoria, pois embora ela tenha cometidos erros, sempre buscou agradar à torcida e fazer o melhor trabalho, no entanto, o fato dela ter comprado o clube 2005, endividado o mesmo e depois trata-lo como investimento não merece ser esquecido. Mesmo assim, vejo que estão apoiando Solskjaer, em razão dele possuir pouca experiência na profissão, e espero que não o demitam devido uma sequência de péssimos resultados, como um mês sem vencer por exemplo. Portanto, gostaria de colher bons frutos das semelhanças entre esses dois treinadores nas próximas temporadas.

@joaovictorss98

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