Enquanto houver sol, ainda haverá… – ANÁLISE TÁTICA DE SHEFFIELD UNITED 3X1 TOTTENHAM HOTSPUR.

Por Ítalo Amorim

Na última quinta-feira (2), Sheffield United e Tottenham Hotspur se enfrentaram pela trigésima segunda rodada da Premier League, quarta após a pandemia da covid-19 em solo inglês.

Em campo, o jogo marcava cenários de expectativas para as duas equipes; o Sheffield United precisava do resultado para ainda sonhar com vaga em algum torneio continental (eliminado nas quartas-de-final da F.A Cup pelo Arsenal, a equipe agora tem “apenas” a Premier League para tornar o sonho – que um dia pareceu improvável – real), enquanto o Tottenham precisava ganhar pare “entrar” nessa disputa (começou a rodada na frente do Sheffield).

CONTEXTO:

SHEFFIELD: Com três derrotas e um empate (0V/1E/2D na Premier League e 0V/0E/1D na F.A Cup) no momento pós-covid, o Sheffield retornou ao Bramall Lane com uma pressão para voltar a entregar resultado. Desempenho apático à parte nos jogos de Premier League, a equipe já tinha entregado algo contra o Arsenal na última partida (28.06), mas não conseguiu evitar a derrota.

A expectativa é que a equipe continuasse “resgatando suas origens”, abraçando um modelo de jogo mais direto em todos os cenários do duelo (empate, derrota ou vitória parcial) e sufocando o adversário quando este se encontrasse no seu campo de defesa (o que não aconteceu contra Newcastle ou contra Manchester United).

TOTTENHAM: Diferente do Sheffield, os Spurs voltaram com bons resultados da parada, conseguindo quatro dos últimos seis pontos em disputa, onde conseguiram destoar no primeiro tempo de ambos os duelos. Defendendo com bola no duelo contra o West Ham e se adaptando sem ela contra o Manchester United, imaginava-se o conjunto de Mourinho buscando se adaptar à essas nuances do jogo. Onde, ora associando com seus 3-1 de frente (o meia-central do modelo é a principal dor de cabeça em desempenho) e ora dando volume pelos corredores, o Tottenham teria versatilidade para gerar vantagem nas transições defensivas do Sheffield – transições essas que demonstraram falhas contra Manchester United e Newcastle United.

ESCALAÇÕES:

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Foto: SofaScore.

PRIMEIRO TEMPO:

Como havíamos pontuado na análise da temporada passada (https://t.co/XK3861uWmt?amp=1) e relembrado no pós-jogo do duelo contra o Crystal Palace (https://mwfutebol.com.br/2019/08/18/organizado-e-letal-as-armadilhas-de-chris-wilder-analise-tatica-sheffield-united-1×0-crystal-palace/) lá no início da temporada, a movimentação dos defensores abertos do Sheffield United é essencial para o ganho territorial da equipe. Sem Jack O’Connell na esquerda, Jack Robinson foi o responsável por manter o controle (e ganho) de corredor por aquele lado, onde a ideia era gerar vantagem (Robinson-Stevens-Osborn-McGoldrick) quantitativa e qualitativa contra a defesa dos londrinos (Aurier-Sissoko-Lucas).

Em campo, essa movimentação de ganho territorial pelos flancos acontecia sempre posterior à uma segunda bola (Dean Henderson voltou a fazer mais saídas longas, David McGoldrick-Oliver McBurnie tinham que ganhar a primeira bola e daí o Sheffield criava), onde a equipe conseguia pegar o quarteto de defesa e/ou o duplo-pivot frente à área desorganizados. Com isso, havia duas possibilidades:

  1. LANÇAMENTO:

Foto/Edição: KlipDraw/Ítalo Amorim.

No exemplo acima, o ganho de segunda bola foi do Basham (marcado com base preta), abrindo jogo em Baldock (marcado com base vermelha) e partindo para gerar vantagem no corredor externo. Com bola no ala, os centrais (marcados com base azul) tem a movimentação de aproximação (central do lado da bola) e progressão (central do lado oposto). Oliver Norwood, mais recuado, mantém posição para resguarda defensiva (dois defensores + primeiro homem).

  1. TRIANGULAÇÃO:

Na situação de triangulação, a principal mudança é a destruição da linha de defesa adversária. Acima, o ganho de segunda bola foi Jack Robinson (marcado com base em preto), que posteriormente abre jogo com o ala no corredor (Stevens, marcado com base em vermelho). Como vimos mais acima, se a bola chega no ala os centrais partem para os seus papeis, o do lado da bola (Osborn) aproxima enquanto o do lado oposto (Sander Berge) progride.

Com possibilidade de lançamento ou passe (David McGoldrick – marcado com base em amarelo junto de Oliver McBurnie – solicita a bola), Stevens percebe a movimentação do Lucas para bloqueio do passe, preferindo recuar e encontrar o espaço vazio. Enda recua ao lado de David, Aurier saí para perseguição e a linha de defesa dos Spurs se desmonta. Com superioridade e o defensor (marcado com base e foco em preto) livre no corredor, o Sheffield chega na linha de fundo.

Entendida a variabilidade de projeção pelos flancos do Sheffield, o desenvolver do jogo se torna muito claro, afinal, pouco antes do minuto 31 assumir o ponteiro, isso aconteceu:

Tiro de metade para Dean Henderson, ganho da segunda bola por Baldock (primeira imagem, alas com base em vermelho) e reinício de jogo (importante ressaltar que a equipe se posiciona completamente no setor que a bola vai ser lançada, podendo assim vencer o máximo de segundas bolas possíveis). Jack (defensores com base preta) recebe, abre no Stevens e vemos aquela movimentação já dita: o central do lado da bola (Osborn, centrais marcados com base azul) aproximam e o defensor ataca o corredor. O problema é que Aurier e Sissoko inverteram marcação, o que faria Osborn chegar no 1v1 com inferioridade qualitativa, daí uma nova mudança de direção do Stevens.

Agora por dentro, mudar o lado da jogada é essencial (lá no início do texto dissemos que a ideia de jogar pelas alas era: “(…) conseguir pegar o quarteto de defesa e/ou o duplo-pivot frente à área desorganizados”), gerando vantagem para a equipe. Baldock recebe (se o ala recebe e o defensor gera vantagem no corredor e o central do seu lado aproxima, ideia já passada), Basham gera a vantagem no corredor e o Sheffield United chega na área com sete atletas: gol!

A partir disso o segundo tempo fica morno, onde os Spurs até responderam rapidamente o Sheffield United (gol de Kane por um toque – para mim natural – na mão do Lucas Moura), mas pouco conseguiram fazer pós-gol anulado. Os quinze minutos finais foram de controle de profundidade e ganho pelos flancos, sempre partindo de um lançamento do Henderson lá de trás.

SEGUNDO TEMPO:

Com apoios falhos no corredor central e sem conseguir superar Oliver Norwood, a primeira mudança dos comandados de Mourinho foi o argentino Lamela no lugar de Steven Bergwijn. Precisando gerar apoios nos espaços deixados pelos alas (defensores mais abertos pararam de subir), Mourinho abdicou de um atleta com maior qualidade técnica para colocar um rompedor (problema de encontrar alguém que jogue por dentro, colocado lá em cima na parte de “contextos”).

Harry Kane recuava gerando apoios (John Egan, diferente do jogo contra o Newcastle, não acompanhava a referência) e Lucas-Son faziam o movimento corredor-centro. Sem posse, Sissoko acompanhava o lado que a bola se encontrava, tornando-se também o jogador que disputava a primeira bola pelo alto.

A ideia inicialmente até rendeu frutos, o Sheffield passou a sofrer com os movimentos do Son – majoritariamente munidos por Kane – e os Spurs tiveram bons cinco/oito minutos de “criatividade”. O problema eram os espaços nas transições, onde quando se perdia a segunda bola…

Bola rebatida por John Egan após tentativa de associação do Son com o Kane e ganho de disputa do Lys (entrou no lugar do McGoldrick para tentar emular o “antigo” estilo de “arco e flecha” do Sheffield na Championship, unindo mobilidade – caso do Mousset – com oportunismo – caso do McBurnie, onde ambos podem alternar papéis). A partir disso, o Sheffield monta sua estrutura de transição (ganho de corredor – nesse caso dos alas, a bola chegou no atacante; aproximação do central do lado da bola; projeção do central do lado oposto e quebra da linha de defesa adversária). Com poucos toques o Sheffield consegue colocar cinco atletas na área (Bem Osborn, mais acima na última imagem, saí da área apenas após progresso com bola do Edan Stevens): gol! Dois a zero. Jogadas semelhantes.

Entretanto ainda havia jogo, Mourinho espelhou estruturas e trouxe Vertonghen (Davies), Ndombélé (Aurier) e Alli (Sissoko) para jogo, variando para um 3-5-2 assimétrico (Son como segundo atacante). O Sheffield, que já não fazia questão da posse lá no 0-0, ofereceu a bola aos londrinos, onde – além da posse – o time de Mourinho tinha o seu campo com baixa pressão do adversário. Bem tentando espelhar a estrutura, Mourinho não contava com tanta entrega defensiva dos homens de frente do Sheffield, onde o habitual 5-3-2 em fase defensiva virava um 5-4-1 muitas vezes (Lys dando apoio defensivo por dentro).

Se já não bastasse a dificuldade construtiva, as disputas áreas continuaram à prejudicar o Tottenham (que até marcou novamente com Kane, mas de modo irregular), pouco antes dos 40’ repetiu-se algo que foi rotineiro no jogo:

Ganho no jogo aéreo, bola para o ala (Baldock), central do lado da bola (Sander Berge) aproxima e central do lado oposto (Ben Osborn) infiltra. Linha de três quebrada, avanço no corredor lateral interno para Sander Berge e assistência para Oliver McBurnie: 3-0!

Poucos minutos depois os Spurs até deram uma sobrevida, na terceira tentativa de balançar a rede e mudar o placar Harry Kane conseguiu, mas já era tarde demais: vitória! O Sheffield United volta a vencer na Premier League e agora pode voltar a pensar em colocar uma UEL no seu calendário da próxima temporada.

@italoamorim08

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