Dolorosa e necessária, acabou o gás em Sheffield? – ANÁLISE TÁTICA DE NEWCASTLE UNITED 3×0 SHEFFIELD UNITED.

Por Ítalo Amorim

Na manhã do último domingo (12), Newcastle United e Sheffield United se enfrentaram pela trigésima rodada da Premier League, segunda após a pandemia da covid-19 em solo inglês.

Em campo, dois cenários relativamente opostos, principalmente se olharmos a tabela no estágio em que o campeonato parou. A um ponto do “G6”, o Sheffield brincava de surpresa do campeonato, com seu investimento focado em custo/benefício e suas renovações controladas de elenco.

Por outro lado, o Newcastle sentia o “Z3” mais perto do que deveria, com apenas cinco pontos de distância e três equipes (Brighton, West Ham e Watford) o separando da primeira equipe na “zona da degola” (na época o Bournemouth). Aí voltou a Premier League.

CONTEXTO:

NEWCASTLE: Na rodada 29, o Newcastle foi até o St. Mary’s Stadium enfrentar o Southampton em um duelo que poderia definir bem quem “travaria” nesse limbo próximo ao “Z3” e quem teria uma vida mais tranquila na reta final do torneio, afinal os mandantes estavam apenas dois pontos acima do Newcastle. Em um jogo relativamente desgastante (como se esperava), o Newcastle fez um dos seus grandes confrontos como controlador das ações do duelo, coisa rara nessa PL.

Contando com a expulsão do Djenepo, válvula de escape do Southampton, ainda no primeiro quarto do jogo, a equipe soube entender bem os caminhos que o jogo ditava – ainda que tenha perdido um pênalti na primeira etapa. Bloco médio-alto, controle dos corredores (especialmente o lado sem Djenepo) e volume de ações ofensivas, naquela altura o retorno se desenhava promissor.

SHEFFIELD: Se o Newcastle voltou muito bem nesse momento pós-pandemia, não podemos dizer o mesmo do Sheffield, que – em um jogo nada empolgante – ficou só no empate contra o Aston Villa, também com visitante.

Ainda que o ponto alto do jogo tenha sido o chip da bola ter falhado no gol dos Blades, a partida em si não merecia os comandados de Chris Wilder como vencedores. A atuação individual de Dean Henderson fala por si só, o jogo passou pelo domínio em bloco médio do Aston Villa e muitos espaços nas entrelinhas do Sheffield, onde Grealish cresceu na partida. Ainda que injusto pela falha da tecnologia, o 0-0 ficou “barato” pelo que foi o jogo (obviamente tem a questão psicológica, não levada em conta nesse momento).

ESCALAÇÕES:

sofa

Foto: SofaScore.

PRIMEIRO TEMPO:

Algo que vinha sendo empregado em jogos em casa por parte do Sheffield United voltou a ser bastante presente nesses dois primeiros jogos pós-pandemia: um jogo mais “cadenciado”. Não tão comum para o feitio do conjunto, estruturas de ataque que não geravam um jogo direto começaram a aparecer no time de Wilder com mais força nessa volta.

Para entender isso, algumas questões além do óbvio ajudam, uma delas é ter Sander Berge no lugar de Lundstram – um dos principais centrais do conjunto como rompedor de linhas e vencedor de territórios. Peça imprescindível em uma estrutura mais direta, John perdeu passagem para um jogo “menos caótico”, exigindo dele mais tempo com posse e sem tantos passes verticais (obviamente, “passe vertical” aqui sendo tratado como passe no sentido do gol adversário).

Dentro de todo esse cenário, você tinha um Newcastle que saberia ter menos posse no seu 4-4-2 em organização defensiva. Com menos posse, mas com mais intensidade, o Newcastle foi apertando bastante as saídas mistas dos visitantes e controlando os corredores (chave para o jogo do Sheffield, seja com seus ótimos alas ou com seus zagueiros – Basham e Robinson – mais abertos atacando os corredores). Essenciais Saint-Maximin e Matt Ritchie nesse entendimento para fechar o corredor.

Assim o primeiro tempo se desenrolou, um jogo de muito contato e com pouca criação, ainda que o Sheffield tenha chegado bastante com bolas paradas (especialmente escanteios) e o Newcastle tenha crescido em dado momento do jogo (meados dos 25’ até quase o final do primeiro tempo).

SEGUNDO TEMPO:

Melhor momento do Newcastle contra o Southampton e pior momento do Sheffield contra o Villa, a expectativa era que os quinze minutos iniciais da virada dos ponteiros ditassem como seria o jogo… e assim foi. Com pouco menos de dez minutos de jogo, John Egan dificultou o que já estava difícil no 11 vs. 11, levando o segundo amarelo (o primeiro veio de um bate-boca com Joelinton, ainda no primeiro tempo) e sendo expulso de campo.

Sem o elo central de sua trinca defensiva, o Sheffield teve que adaptar seu modelo para algo nada comum: uma linha de quatro na defesa. Sem segurança na cobertura entrelinha, sem mais os defensores para gerar superioridade pelos lados e sem controladores no meio-campo para buscar um jogo mais direto, era questão de tempo para o Newcastle – já muito presente no duelo – tomar conta do jogo.

Logo aos quinze minutos, enquanto o Sheffield ainda tentava se encontrar nessa organização, uma falha de Enda Stevens mostrou que aquela não seria a manhã da equipe. Bola lateral à meia altura, com relativa baixa força, e furada grotesca do ala-esquerdo dos Blades. Saint-Maximin, de lado invertido, pouco tinha relação com isso: 1×0 Newcastle.

Nesse estágio do jogo o Newcastle voltou a descer linhas e administrar os espaços, preparando-se tanto para as saídas curtas dos visitantes quanto para o jogo direto – muito mais presente com a entrada de John Lundstram, minutos depois. Com John em campo e ainda sem proteção nas entrelinhas, o Sheffield voltou a sofrer com os alas do Newcaslte.

Menos de cinco minutos pós-entrada de Lundstram uma falha de posicionamento vista inúmeras vezes nas movimentações de Grealish na rodada anterior voltou a aparecer e assim Matt Ritchie recebeu com todo o espaço do mundo no corredor lateral interno (half-space) da esquerda. Controle. Visão. Gol. 2×0 e jogo desenhado.

Com peças já para um jogo mais direto, Wilder ainda tentou voltar para o duelo com Freeman e Zivkovic, ganhando em velocidade, mas perdendo em controle de posse. Com linhas mais altas e vinte minutos em disputa, o Sheffield partiu para o habitual cenário caótico do seu costume, porém não conseguiu mantê-lo por dez minutos.

Sem tanta posse e com território em disputa, os Blades apostaram em jogadas laterais de modo contínuo, entretanto a falta dos seus zagueiros no corredor era evidente. Sharp tentou, McBurnie também, mas quem marcou mesmo foi Joelinton, pouco antes dos 35’.

Passe em ruptura para Almirón surgindo pela esquerda e o atacante brasileiro fechando o cruzamento lateral por dentro, jogada em ataque rápido que jogou a última pá de cal em um valente e muito pouco criativo Sheffield.

A partir disso o que se viu foi um Sheffield impotente e um Newcastle satisfeito, a posse de bola dos visitantes aumentou, as chances continuaram baixas. Derrota e segundo jogo sem ver as vitórias, essenciais para quem sonha com o top-6 da liga.

CONSIDERAÇÕES FINAIS:

Para a pergunta do título do texto a resposta é não, ainda não, mas talvez o jogo contra o Manchester United (novamente como visitante) confirme essa impressão. Duelo direto pelo sexto lugar, o confronto pode (e deve) marcar o retorno de uma estrutura mais direta por parte dos comandados de Chris Wilder, talvez seja hora de resgatar atletas que foram potencializados pelo modelo para campo (como Lys Mousset, John Lundstram…) e ver como isso se desenvolve. Dolorosa, mas necessária; fazer um ponto dos últimos seis ensina mais para o Sheffield do que aparenta.

Já no outro extremo da moeda, o 100% de aproveitamento nesse retorno cria uma expectativa justíssima em cima dos comandados de Steve Bruce, que aparenta querer provar muito nessa reta final de torneio (já que muito se falou de grandes nomes comandarem o futuro Newcastle, uma “nova” potência do futebol mundial). Longe de ter alguma ambição na Premier League, não sofrer com o rebaixamento já é o suficiente para dar noites tranquilas de sono ao torcedor do Newcastle.

@italoamorim08

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