Do WM à Diagonal: a tática brasileira

Por Pedro Galante

WhatsApp Image 2020-06-09 at 11.03.13Flávio Costa criou a Diagonal, que carrega muitas ideias fundamentais do futebol brasileiro. (Foto: Revista Placar)

 

A primeira revolução tática aconteceu em 1924, quando Herbert Chapman recuou o centromédio e criou o WM. A principal motivação foi a mudança na regra do impedimento: o número de jogadores adversários entre um atacante em condições de jogo e o gol caiu de três para dois. O recuo do centromédio visava proteger a defesa, mais exposta depois da mudança no impedimento.

O WM aposentou a pirâmide, o primeiro esquema tático, e reforçou a lógica individual da marcação, por espelhar o desenho de ataque e de defesa. Era tudo muito direto: o centromédio recuado, agora zagueiro central, marcava o centroavante, os zagueiros laterais marcavam os pontas e os médios vigiam os atacantes interiores.

O esquema se espalhou pela Inglaterra e pelo mundo, sendo reinterpretado nas diferentes culturas.

O WM no Brasil

A interpretação brasileira do WM introduziu muitos elementos que compõe a cultura brasileira de futebol, é verdade. No entanto, não se pode dizer que o futebol brasileiro se forma após a chegada do WM, o processo de implementação do sistema carrega consigo particularidades que já são a expressão de característica particulares do Brasil.

A começar pelo responsável. Os créditos vão para Dori Kurschner, em sua passagem pelo Flamengo, em 1937. Antes dele, no entanto, Gentil Cardoso, já teria testado o novo sistema em 1929, no Sírio Libanês, um pequeno clube carioca, onde viu surgir Leônidas da Silva.

Gentil era marinheiro, viaja frequentemente para a Europa, onde teve contato com o sistema. Mesmo testando o WM no Bonsucesso, um clube de maior expressão, em 1930, suas ideias não tiveram sucesso. Não é possível precisar os motivos, mas certamente os fatos de ser negro e não ter sido jogador não o ajudavam.

O WM só ganhou espaço de fato com a chegada de um treinador europeu: o húngaro Dori Kurschner. Treinado por Hogan no MKT, ele é o elo que liga a escola danubiana ao futebol brasileiro.

Chegando no Flamengo, Kurschner encontrou algumas dificuldades: as condições médicas eram precárias e o craque do time, Fausto, a Maravilha Negra era um empecilho para a implementação do WM. Fausto era centromédio – uma posição de prestígio na época – e deveria ser o jogador que recuava para ser o zagueiro central, mas se opôs. Na prática, o WM do Flamengo deveria parecer mais com um WW, com Fausto a frente dos zagueiros e atrás dos médios.

Não existem relatos precisos da época que embasem diretamente esses significados, mas o simbolismo da situação é evidente: um treinador europeu e seu futebol sistemático não são capazes de encaixar o craque brasileiro no seu estado puro.

Kurschner comandou o Flamengo em 71 partidas, com 54% de aproveitamento. Foi demitido em 1938, e Flávio Costa, seu predecessor e assistente, voltou ao comando técnico. Costa adaptou o WM e criou a Diagonal.

A Diagonal e a tática brasileira

Há quem diga que a Diagonal era uma cópia do WM, uma tentativa de disfarçar o fato de que Costa manteve o sistema do húngaro. De fato, é um sistema parecido. Mas tem diferenças fundamentais. Diferenças de comportamento e de estrutura.

A descrição mais simples das alterações de Flávio Costa diz que ele girou o quadrado de meio campo até que ele se tornasse um paralelogramo, com um volante muito próximo da linha de defensores e um ponta de lança encostando no centroavante. É uma explicação bem didática, ajuda a entender o formato e como a Diagonal era um passo para o 4-2-4, mas algumas coisas se perdem nessa simplificação.

O problema é que essa descrição parte do WM falando da rotação do quadrado de meio. A Diagonal, na verdade, parte do 2-3-5. Se partisse do WM, a camisa cinco faria parte da defesa e sabemos que a linha de quatro brasileira é composta pelos números 2, 3, 4 e 6. Quem recuava para ser o terceiro zagueiro era um dos médios laterais (4 ou 6), não o centromédio. Se fosse o médio direito, a Diagonal era pela direita; se fosse o médio esquerdo, seria pela esquerda.

O médio (direito ou esquerdo) recuava pelo lado, como um lateral, um zagueiro virava central e o outro, lateral pelo lado oposto. Com a defesa tendo três defensores, aí sim podemos girar o quadrado do meio: um interior encosta no centroavante, como ponta de lança; um médio recua próximo da zaga. Este jogador se tornaria o quarto-zagueiro.

 Falar de Diagonal é difícil: na época, os jornais escalavam todos os times como se fossem 2-3-5, não existem registros em vídeo que permitam uma análise detalhada. Não se sabe ao certo em que jogos a Diagonal foi usada. Zizinho diz que em 1950, nas quatro últimas partidas, o sistema foi o WM.

Porque então, a Diagonal é importante? Qual o impacto tático?

Jonathan Wilson diz que a intenção de Costa com a Diagonal era formalizar um processo natural do WM, uma vez que um dos médios sempre seria mais defensivo e um dos interiores mais ofensivos. Seria uma explicação precisa se a Diagonal partisse do WM, mas, como vimos, não parte.

O que não quer dizer que a explicação de Wilson é errada. Na verdade, essa diferenciação é a coisa mais relevante da Diagonal: o jogador mais recuado daria inicio a linha de quatro; e a posição [de ponta de lança] criada pelo jogador mais avançado seria o habitat natural do craque brasileiro. No entanto, me parece que essas características são mais consequências da Diagonal – consolidadas depois no 4-2-4 – do que motivos que levaram a sua criação. Explico.

Depois do terceiro lugar na Copa de 38, com o profissionalismo já instaurado, o Brasil percebia que os seus jogadores eram únicos, diferentes de quaisquer outros. No entanto, só isso não parecia suficiente para ser dominante. Até 1940, o Brasil ganhou seis de 20 jogos contra a Argentina e cinco de 13 contra o Uruguai. A noção de que o craque brasileiro precisava de uma estrutura tática, ao menos no aspecto defensivo era crescente.

A Diagonal parece preencher essa lacuna. E não só com a ideia de recuar um médio para quarto-zagueiro e um interior avançar um interior para ponta de lança. É preciso ver como essas alterações interagem com o resto do time. A Diagonal carrega seu diferencial no nome: cria uma estrutura onde é fácil traçar uma linha diagonal da defesa para o ataque passando pelos jogadores e isso tem importantes impactos ofensivos e defensivos.

diagonal

Essa diagonal é importante defensivamente, principalmente por ajudar na transição defensiva. Ela “sustenta” o ataque, protegendo o time em caso de perda da posse. Essa segurança incentiva o jogador que tem a bola. Com o tempo, essa diagonal foi se aprimorando, mas a ideia principal está presente desde o começo. A Diagonal também tem implicações no momento de organização defensiva, mas isso fica para o próximo texto.

No Brasil, a ideia de tática está muito associada a parte defensiva. Nossa tática ofensiva é o improviso. Pode ser, mas mesmo o improviso precisa de uma base para existir. Essa base foi ofuscada pelo brilho do talento. Eu poderia dizer que nossa tática ofensiva é confundida com a intuição, mas na verdade ela é a intuição, e isso não é um problema.

Percebo que para entender o que é a tática brasileira é preciso partir desses lugares comuns do drible, da intuição, do improviso e investigar o que é que existe por trás dessas ideias. É preciso entender que o improviso não é oposto a tática. Privilegiar o improviso é precisamente uma escolha tática. A Diagonal é um bom exemplo.

A linha diagonal cria uma espécie de caminho para a bola. E como os passes são sempre em diagonal, o próximo jogador a receber sempre está atrás da linha adversária. Além disso, as jogadas começam de um lado e terminam do outro. Esse balanço pode ser rápido e explorar o lado oposto ou mais lenta e criar espaços dentro do bloco adversário. E esse é um terreno fértil para quem tem talento.

Agora que conversamos sobre estrutura, podemos começar a pensar o funcionamento das dinâmicas ofensivas e defensivas. No próximo texto falaremos de marcação por zona e toque de bola. Até lá!

@pedrosbgalante

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