O pai do futebol brasileiro

Por Pedro Galante

WhatsApp Image 2020-05-20 at 20.32.19Reflexões sobre o futebol de rua. (Foto: Caio Vilela, capa do livro Futebol-arte: do Iapoque ao Chuí)

No último texto (https://mwfutebol.com.br/2020/05/14/que-futebol-chegou-ao-brasil/) conversamos sobre as diferenças de estilo entre o jogo inglês e o jogo escocês e todo um processo de desenvolvimento que passa pela chegada do jogo à América do Sul e acaba no surgimento de uma nova maneira de jogar futebol. Na verdade, uma maneira de brincar de futebol.

Aqui, tentaremos entender como valores de diversão e rebeldia criaram o estilo que encantou um esporte até então dominado pela competividade e organização. De maneira simples, a resposta está na rua.

É um consenso que a formação através do futebol de rua é um importante caráter distintivo do jogador brasileiro. Nossos grandes craques sempre se referem a seus bairros de infância e às tantas horas gastas brincando na rua. Muitas vezes, quando se discute futebol brasileiro, seja fora do país ou aqui mesmo, não é incomum que a imagem das crianças jogando descalças apareça antes mesmo que a de um Fla-Flu no Maracanã, por exemplo.

E essa reinvindicação do futebol de rua como elemento de identidade nacional inevitavelmente afeta a forma como enxergamos esse fenômeno. A seguir, vamos tentar entender como esse processo ocorreu e quais são suas implicações.

Por que o futebol foi parar nas ruas?

“Em dias de cricket só se viam ingleses espalhados pelo gramado, pelo bar. Em dias de futebol a coisa mudava de figura. Os operários ficavam de pé para ver, muitos brancos, mulatos, pretos, com vontade de dar também o seu pontapé na bola. Bastava a bola ir fora, e ela ia fora de vez em quando, eles corriam atrás dela, como garotos atrás de um balão de São João. Depois a impressão deixaria de ser essa, de garotos atrás de um balão de São João, seria a de garotos atrás de uma bola mesmo.”

Este é um trecho de O negro no futebol brasileiro, de Mário Filho, que fala sobre o campo do Bangu, um jardim atrás de uma fábrica. A descrição é marcada pela exclusão, que era a tônica do futebol brasileiro no fim do século XIX. No trecho, Mário fala de uma época onde jogavam apenas os ingleses, ou filhos de ingleses. Mais tarde, com a guerra, os clubes tiveram de se abrir para os brasileiros. O fizeram, no entanto, apenas para os brancos. Os pretos e mulatos seguiam assistindo o jogo de pé, esperando a bola ir fora, o que atiçava ainda mais a vontade de dar também o seu pontapé na bola.

Portanto, paralelo ao desenvolvimento dos clubes fundados por ingleses, os negros chutavam qualquer coisa que se parecia com uma bola em qualquer lugar que se parecia com um campo. Daí surgem as ligas secundárias: a liga suburbana no Rio, os campeonatos de várzea – com esse nome por serem disputado às margens de rios – em São Paulo, a liga da canela preta, no Rio Grande do Sul.

O principal mecanismo de exclusão dos grandes clubes era o amadorismo. Afinal, só podia competir quem não precisava se desgastar trabalhando para sustentar a si mesmo e à família. Os clubes da liga secundária foram crescendo graças ao chamado amadorismo marrom, onde o jogador não recebia do clube, mas recebia trabalhando – em cargos de pouco esforço, ou as vezes, de fachada apenas – em estabelecimentos dos donos dos clubes. Os detalhes de como esse sistema funcionava não são nosso foco, o principal aqui é perceber o esforço dos clubes para integrar jogadores mais pobres – lembrem-se que pobres e pretos são quase sinônimos nesse contexto. Um esforço que, obviamente, não é em vão. O interesse em ter jogadores negros se justificava pela sua qualidade que, como veremos, vem do jogo na rua.

Do amadorismo marrom para o profissionalismo não faltava muito. E quando os jogadores passaram a ser remunerados, surgiu um fator importantíssimo para aumentar a paixão pelo futebol e manter as crianças jogando na rua: a possibilidade de ascensão social. Em um país pobre e desigual, qualquer possibilidade de ascender socialmente é agarrada com unhas e dentes. Assim, os garotos que chutavam bola na rua do nascer ao pôr do sol não o faziam só pelo gosto da brincadeira, mas também porque o futebol era a melhor chance – provavelmente a única – que tinham de conquistar algo em suas vidas.

O futebol já era um fenômeno urbano no Brasil, mas a coisa ainda aumentaria. Getúlio Vargas percebeu o potencial mobilizador do esporte e o aproveitou em suas jogadas populistas. A nacionalização do rádio, levando a paixão ao Norte e ao Nordeste do país é a ação de maior destaque. O futebol voltaria a ser importante instrumento político durante a ditadura militar: foi criada a Loteria Esportiva e o “Robertão,” torneio das federações do Rio e de São Paulo, que incluía alguns times de outros estados, foi substituído pelo Brasileirão, um campeonato realmente nacional.

É certo que o futebol de rua remete ao amor mais puro pelo jogo, mas não se pode ignorar todos os impactos sociais e políticos que fizeram dessa uma prática massiva. O brasileiro não nasceu chutando bola, foi levado a isso por uma série de motivos. E isso explica a quantidade massiva de jogadores formados até o dia de hoje.

Por que a rua é escola?

“A pura, a santa verdade é a seguinte: qualquer jogador brasileiro, quando se desamarra de suas inibições e se põe em estado de graça, é algo de único em matéria de fantasia, de improvisação, de invenção. Em suma: temos dons em excesso.”

Este é um trecho de Nelson Rodrigues retirado de uma de suas crônicas reunidas em A pátria de chuteiras. A definição de Nelson sobre o jogador brasileiro é precisa e romântica. Precisa no sentido de destacar aquelas que são de fato as melhores características do jogador brasileiro: a invenção e o improviso. É romântica ao fantasiar as origens dessas qualidades: dizer que o brasileiro tem dons cria uma imagem sobrenatural. É um significado bonito e muito coerente com a produção de Nelson Rodrigues, mas essa visão acaba omitindo o processo de formação do jogador brasileiro. Convém então, reescrevermos a frase: digamos que, em suma, temos qualidades em excesso.

A rua é um espaço informal para a prática do futebol: o espaço de jogo não segue a regra, a bola não precisa ser de fato uma bola, o número de jogadores pode variar, figuras importantes como a do arbitro, seus assistentes e o treinador inexistem. Em um primeiro momento, pode parecer algo negativo, no entanto, todas essas nuances fazem do futebol de rua uma experiencia extremamente rica, com uma diversidade de cenários que não deixam de aplicar a lógica do jogo.

Aliás, é importante destacar que quando nos referimos a rua, não podemos nos limitar ao espaço físico. A rua, como sempre bem lembrado pelo ótimo Hudson Martins, é uma metáfora para o informal. A rua pode ser a quadra no intervalo da escola, pode ser a areia da praia, pode ser o campinho (des)gramado irregular.

Outro fator característico do futebol de rua é a liberdade. Não existe treinamento prévio, modelo de jogo que orienta as ações, treinador berrando no pé do ouvido. O que há é uma bola próxima ao pé, um buraco à esquerda, uma parede à direita e um adversário à frente, doido pela bola. São poucos segundos para captar tudo isso e responder ao jogo. Tabelar com a parede, pular o buraco e receber à frente? Jogar a bola entre as pernas do adversário? Proteger a bola e esperar que um companheiro se apresente? Não há resposta certa. O cenário da rua obriga que o jogador seja inventivo. Tudo é improviso por que nada pode ser ensaiado; o cenário impede.

É impossível descrever as variações que o futebol de rua pode apresentar. Imagine ser destro e rasgar o pé direito na pedra: não se para de jogar, começa-se a usar o pé esquerdo. Imagine que há um número ímpar de jogadores: não se deixa de jogar, joga-se com um gol apenas, defendendo e atacando o mesmo gol, o que obriga um raciocínio rápido e transições constantes entre comportamentos de ataque e defesa. Em suma, a rua possui nuances em excesso.

E mesmo as brincadeiras que não usam um gol, uma meta – são muitas – e que, teoricamente se distanciam da lógica do jogo, aperfeiçoam relações fundamentais dentro do jogo: a altinha, ou peteca – os nomes também são diversos – colocam o jogador em contato direto com a bola, é preciso entender do quique, do giro, do peso para controlá-la; o bobinho é a primeira aula da linguagem do passe, a força, a direção, o posicionamento do corpo, tudo isso é aprendido; o driblinha, que se sustenta no puro prazer de manter a bola em seu controle, ensina o engano, o poder de iludir e de prever fundamentais nos embates com qualquer adversário.

E de tanto ser confrontado com os mais diversos cenários, cada um único na natureza caótica do futebol de rua, o jogador começa a criar respostas diversas: daí as tantas qualidades do jogador brasileiro.

A mitologia das ruas

Quando mencionei o Nelson Rodrigues alguns parágrafos acima, e tive de alterar um pouquinho o seu texto para desenvolver o raciocínio, eu não quis de forma alguma invalidar essa visão sobrenatural acerca do futebol brasileiro. Aliás, eu escolhi esse trecho – e não outro que não precisasse de alteração – justamente por essa camada de significado.

(Alias, essa pequena alteração me deu muito o que pensar. Especialmente sobre como o conhecimento brasileiro mais concreto a cerca dos processos que produzem o futebol pode ser atingido com essa abordagem: partir do mitológico e torcer um pouco essa visão tentando perceber o que há de palpável por trás. Mas essa é uma discussão que ainda preciso amadurecer)

O futebol de rua produzia – e produz – craques com qualidades em excesso e com prazer no ato de jogar. É por isso que a escola brasileira é marcada pela beleza, pela picardia, pelo dionisíaco. Tudo isso gerou um magnetismo absurdo ao redor da figura dos jogadores brasileiros e fundou a mitologia do futebol. Quando se via um jogador formado na rua apresentando uma solução inédita para se livrar de um defensor ou vencer um goleiro era natural que aquilo fosse associado a uma espécie de magia, um presente divino dos deuses do futebol.

E então surge uma diferenciação fundamental no futebol brasileiro: nos não jogamos futebol, jogamos um futebol-arte. É por isso que o brasileiro tem sim dons em excesso. Um inglês ou italiano podem ter o mesmo número de atributos (qualidades) de um brasileiro, mas não conseguem entrega-los em uma embalagem igualmente brilhante, não conseguem fazer com que seus passes, suas fintas e seus gingados se passem por dons. Podem ser muito qualificados, mas são terrenos.

O futebol ser tratado como arte causa um grande impacto. Vencer apenas não é mais suficiente, é preciso vencer e encantar – percebam, não é um debate entre vencer ou fazer bonito, é preciso cumprir os dois requisitos. E é nesse cenário que a figura do craque é moldada. E para o craque, era moldado o sistema, veremos no próximo texto.

@pedro17galante

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