A REVOLUÇÃO DE COUDET

Por Rafael Maciel

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            Como revolucionar algo de modo significativo, em um tempo reduzido, sem se utilizar de artifícios mais pesados? Esta pergunta retórica, pode muito bem ser aplicada para analisar esse recorte inicial do trabalho de Eduardo ‘Chacho’ Coudet à frente do Inter.

O treinador argentino, foi apresentado ainda no final do ano passado e em sua primeira entrevista, foi bastante objetivo, utilizando-se de poucas palavras. Mas dentre as palavras utilizadas, uma acabou se destacando mais: INTENSIDADE.

Ainda não estava muito claro, mas naquele momento, em Dezembro de 2019, o treinador acabava de deixar um spoiler sobre como seria o seu Inter de 2020.

INÍCIO DO TRABALHO

Logo nos primeiros treinos, a ruptura na metodologia já estava nítida.

Com os membros da sua comissão, quer trouxe do Racing, Coudet acabou tendo uma facilidade imensa de adaptar-se no Beira-Rio, além de possibilitar uma multiplicação de seus conceitos de modo mais efetiva.

           coudet1

Manchetes de jornais no início de Janeiro/2020

Os trabalhos físicos de Coudet, desde o início, buscavam sempre simular situações reais de jogo com máxima intensidade, principalmente associando PRESSÃO NA BOLA e VELOCIDADE NOS PASSES.

A partir do momento que Coudet soube que seria treinador do Inter (meados de Out/19), ele manteve uma comunicação periódica com o Colorado, pedindo materiais para análise, vídeo de jogos, treinos e até da pré-temporada de 2019 (Link). Tudo isso, para que Coudet pudesse acelerar seu planejamento de 2020, ter noção real do material e recursos que teria em mãos para trabalhar.

PRIMEIROS JOGOS

Até a estreia na Pré-Libertadores (04/02/2020), foram 4 jogos, sendo 3 foras de casa e somente 2 com os titulares. Esse foi o período de jogos que Coudet teve para formar seu time, pois logo na sequência já enfrentaria uma decisão que poderia impactar todo o planejamento do ano.

coudet2

Buscando realmente dar a sustentação inicial necessária para o trabalho, Coudet desde o início, utilizava na figura de seu meia central (tanto nos titulares quanto nos reservas) uma função que muitas vezes priorizasse o jogo do meio para trás. Isso ficou muito nítido, quando Musto (1º volante), recuava para atuar entre os zagueiros e Lindoso (Meia central), aproximava da primeira linha para oferecer linha de passe. Nos primeiros jogos, essa dupla acabou tendo certas dificuldades de posicionamento, pois em muitos momentos eles acabavam sendo responsáveis pelo mesmo quadrante de jogo.

Esse é um bom exemplo para a primeira imagem do Inter de Coudet: uma equipe que desde o primeiro jogo buscou se impor diante dos adversários, sempre pressionando a bola com muita intensidade e muitas vezes buscando subir o bloco para marcar mais alto. Entretanto diante das óbvias e comuns dificuldades nos jogos de início de temporada, o treinador passou à ser criticado pela mídia por jogar com 4 jogadores no meio campo que em sua origem (ou na maior parte das suas carreiras) desempenharam a função de volantes (Musto, Lindoso, Edenilson e Patrick).

Nesse início, as principais dificuldades do Inter estavam relacionadas na aparente dificuldade para defender bolas aéreas e no baixo volume ofensivo que a equipe vinha apresentando (proporcional à sua posse de bola que estava alta). No ataque, os mecanismos criativos ainda não estavam surtindo muito efeito, mas a evolução já era perceptível.

CONSOLIDAÇÃO DO MODELO

A pressão da imprensa amenizou após a boa vitória no Beira-Rio diante da Universidad del Chile, onde a equipe passou de fase para decidir a vaga na fase de grupos contra o Tolima. Contra a La U, Coudet teve que mexer logo no início do jogo, com a lesão do Patrick e o acréscimo do Boschilia, que deu uma movimentação ofensiva com maior repertório para o Colorado.

Mas o grande momento do técnico argentino comandando o Inter, foi durante a estreia na fase de grupos, na goleada diante da Católica. Ali vimos um time mais próximo possível das verdadeiras ideias de Coudet: time pressionando o adversário em todas as fases de modo exaustivo, forçando erros na saída de jogo, acelerando nas transições e criando muitas oportunidades.

coudet3Gráfico do volume ofensivo colorado

Este foi a melhor partida da equipe na temporada e mesmo perdendo a partida seguinte (GreNal) em casa, a equipe conseguiu fazer um segundo tempo superior ao rival, mesmo atuando desde o final do primeiro tempo com um homem a menos.

Independente do contexto, do local, das adversidades em geral, o time de Chacho sempre buscará assumir o protagonismo do jogo, buscando gerar desconforto aos adversários e adotando uma postura corajosa (ou arriscada, dependendo da perspectiva).

MODELO DA EQUIPE

Equipe com o sistema 4-1-3-2 bem estruturado e assimilado, deixando a amplitude por conta dos laterais e tendo os meias abertos apoiando os laterais e atacando os “meio-espaços”. No ataque possui um centroavante de referência, mas que participa das construções fora da área e um segundo atacante de maior movimentação. O volante auxilia os zagueiros, para fazer a lavolpiana e liberar os laterais para ocupar um espaço mais avançado.

coudet44132 com as principais movimentações de cada posição

 

coudet5Movimentação padrão, utilizada durante a maioria das construções

 

coudet6Em fase defensiva, Musto se posiciona à frente da defesa e o segundo atacante pode baixar para fazer uma segunda linha de 4 na marcação.

ANÁLISE QUANTITATIVA

Para termos uma real noção do impacto deste início de temporada, vamos comparar alguns números com a temporada passada (onde em seus 15 primeiros jogos, só houveram 2 de Libertadores).

NÚMERO 2019 2020 Variação
% Aproveitamento 69% 71% +3%
Gols Marcados 18 23 +28%
Gols Sofridos 9 7 -22%
% Posse de Bola 53% 62% +17%
Finalizações por Jogo 13,1 13,7 +5%
Finalizações Sofridas por Jogo 9,0 8,6 -4%
ÍNDICE DE PRESSÃO DEFENSIVA 3,0 2,1 +30%
ÍNDICE DE PRESSÃO ALTA 34% 55% +62%

 

coudet7 Relatório Quantitativo Geral

coudet8Resumo dos gols marcados

coudet9Resumo dos gols sofridos

 

DESTAQUES INDIVIDUAIS

  • Centroavantecoudet10
  • Mesmo tendo estreado com gol na temporada, demorou um pouco mais para os gols começarem à aparecer de forma mais natural;
  • Mesmo quando não marca gols, Paolo é fundamental para o Inter sustentar a posse no terço final, auxiliando muito na construção ofensiva nas zonas mais avançadas do campo;
  • Além disso, quando a equipe precisa utilizar bolas mais longas, para ligar o ataque, é através do peruano que a equipe consegue ganhar a primeira e a segunda bola;

  • Segundo atacante

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  • Coudet chegou à testar D’Ale, como companheiro de Guerrero no ataque, mas não encaixou bem. Coudet usou Galhardo como referência no ataque, e ele foi bem com o time reserva.
  • Então, nas últimas partidas dos titulares, Coudet utilizou Guerrero e Galhardo na frente e o resultado melhorou bastante.
  • Galhardo consegue entregar uma movimentação muito mais dinâmica e vertical no ataque, sem perder tanta qualidade associativa de passe.

 

  • Meia centralcoudet12
  • Ed começou o ano atuando em uma função parecida com o ano passado, atuando como um meia direita, buscando auxiliar a equipe nas duas áreas;
  • Mas à partir do momento que Coudet garantiu a classificação para a fase de grupos da Libertadores, ele testou Edenilson mais por dentro, abastecendo os atacantes e deu muito certo;
  • Edenilson controla as pressões mais altas do Inter e tem liberdade para subir ainda mais e auxiliar os atacantes nesta fase do jogo. Com sua imensa facilidade de pisar na área adversária e seu refinamento técnico, servirá como uma peça chave do modelo de Coudet.

CONCLUSÃO

Esta parada devido ao COVID-19, acabou prejudicando o Inter, pois a equipe havia se encontrado na temporada e vinha fazendo boas atuações em sequência. Coudet com 15 jogos (dentre eles, muitos jogos decisivos), conseguiu dar uma nova cara para o Inter.

Ele mesmo em suas entrevistas, afirma que percebe que a equipe já começou à assimilar melhor suas ideias, porém ainda tem muito para melhorar. Ele fala abertamente que a circulação do Inter tem que ser ainda mais rápida e vertical (algo que a equipe nitidamente já melhorou muito em relação ao ano passado) e que precisa trabalhar mais mecanismos de criação no ataque.

Não sabemos aonde a equipe de Coudet irá chegar ou quais resultados irá alcançar, mas fato é, que o colorado está em uma franca curva ascendente de desempenho e isso poderá render muitos frutos em um médio/longo prazo.

 @rafaellomaciel

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