Um baile dos azuis – ANÁLISE TÁTICA FRANÇA 3X0 BRASIL COPA DO MUNDO 1998

Por Felipe Holanda

O vexame brasileiro e toda a problemática envolvendo Ronaldo talvez ofusque o bom futebol apresentado pela França na grande final da Copa do Mundo de 1998. Bem organizada defensivamente e com uma estrutura de jogo definida, os azuis tiveram uma atuação quase perfeita diante do Brasil de Zagallo, vencendo sem dificuldades por 3 x 0.

Atuando no 4-5-1, variando para o 4-3-2-1, a França conseguiu anular a principal arma daquele time do Brasil: as investidas de seus laterais, Roberto Carlos, pela esquerda, e Cafu, pela direita. Na frente, Yuri Djorkaeff e Zinedine Zidane davam cobertura ao tímido atacante Stéphane Guivarc’h.

fra2

Disposição tática da França, claramente apostando nos contra-ataques. Imagem: Três pontos.

Em uma das piores atuações do Brasil em Copas, Zagallo não conseguiu sair do “nó tático” de Aimé Jacquet. Dentro de campo, a equipe brasileira atuou no 4-3-1-2. A grande aposta era no talento dos jogadores de frente: Rivaldo, Bebeto e Ronaldo.

fra3

Disposição tática do Brasil de 1998. Imagem: Três Pontos

Organização defensiva

Um dos pontos chaves para a vitória francesa foi a organização defensiva, que não deu espaços para o Brasil usufruir do talento inquestionável de seus jogadores. A França utilizou uma estrutura bastante flexível, com uma espécie de 4-3-3 pressionando a posse de bola brasileira.

Durante a construção ofensiva do Brasil, a França forçava o jogo centralizado, dificultando a vida dos laterais brasileiros e sobrecarregando Dunga na cabeça de área. Sendo assim, o time visitante era obrigado a trocar passes no campo defensivo, com a dupla de zaga formada por Junior Baiano e Aldair.

Em alguns momentos do jogo, o bloqueio defensivo foi puramente um 4-3-3 em três linhas retas. A França teve seus momentos de instabilidade, mas conseguia segurar o ímpeto dos brasileiros sem grandes problemas.

fra4

Gráfico da marcação pressão imposta pela França (Reprodução/spielverlagerung.com)

Não por acaso, a primeira jogada de ataque do Brasil só aconteceu aos 23 minutos, quando Rivaldo cabeceou para a boa defesa de Barthez após cobrança de escanteio de Leonardo pela direita do ataque.

O brilho de Zidane

A França respondeu com Guivarc’h, mas ainda pecava nas investidas ao ataque. Até que Roberto Carlos cortou para escanteio. Petit lançou na área e Zidane subiu mais alto que a defesa brasileira para abrir o placar em Paris: 1 x 0.

De fato, o jogo francês passava inevitavelmente pelos pés de Zidane, que foi o craque daquele jogo. O Brasil colocou César Sampaio para marcar o craque individualmente, mas não adiantou.

fra5

A fraqueza emocional do Brasil

Do outro lado, o Brasil tentava a resposta, mas esbarrava nas falhas de seu ataque, atordoado com a presença de Ronaldo – antes do jogo, o craque brasileiro havia sofrido uma espécia de convulsão e jogou no sacrifício.

Até que um lance sintetizou o frágil estado emocional do time brasileiro. Ronaldo recebeu lançamento de Dunga na entrada da área adversária e se chocou com Barthez, caindo imóvel no chão. Os jogadores do Brasil se desesperaram, pensando que algo mais grave poderia ter acontecido. Mas, felizmente, foi um choque normal. Contudo, esse fato só deixou ainda mais clara a preocupação que todos os jogadores tinham com o camisa 9.

fra6

O lance do choque de Ronaldo e Barthez.

Alheia aos problemas de seu adversário, a França continuou fazendo seu jogo normalmente. Após uma boa troca de passes, Petit quase ampliou, mas acabou desperdiçando grande chance. Na sequência, Guivarc’h teve outra oportunidade, mas parou na ótima defesa de Taffarel. Mas não havia motivos para o Brasil comemorar.

Na cobrança de escanteio, agora da esquerda do ataque, Zidane marcou outra vez de cabeça. A bola passou caprichosamente por debaixo das pernas de Roberto Carlos antes de ultrapassar a última linha.

fra7

O esboço de uma reação

Na segunda etapa, o Brasil voltou melhor e precisava diminuir o placar se quisesse ser campeão. Zagallo tirou Leonardo e colocou Denílson aberto na ponta esquerda, com Bebeto na direita. Avançou Rivaldo para auxiliar Ronaldo no ataque e pressionou a França.

A primeira grande chance foi de Ronaldo, aos onze. Rivaldo cobrou falta ensaiada com Roberto Carlos, que cruzou na segunda trave. O camisa 9 apareceu livre, na pequena área, mas chutou sem ângulo em cima de Barthez. Quatro minutos mais tarde, Bebeto aproveitou o rebote e só não marcou porque Desaily salvou a França praticamente em cima da linha.

A França, por sua vez, continuou criando chances. No meio campo, Zidane tomava conta do jogo. No lado esquerdo, Djorkaeff caía pelo meio para ajudar a armar as jogadas ofensivas. Os laterais Thuram e Lizarazu não apoiavam, cumprindo estritamente seus papeis defensivos.

O Brasil ganhou energias quando Desaily fez falta dura em Cafu e foi expulso. Com um a mais, Zagallo colocou Edmundo na vaga de César Sampaio, deixando o time brasileiro mais ofensivo do que nunca.

O golpe final

Já cansado de buscar o gol e não conseguir marcar, o Brasil via o pentacampeonato escorrer pelos dedos. O time de Zagallo foi totalmente destroçado aos 47 minutos. Após cobrança escanteio brasileira, Dugarry roubou a bola e armou contra-ataque. A jogada só terminou no fundo das redes. Petit recebeu passe de Vieira e bateu firme para fazer o terceiro.

O Brasil estava derrotado. E a França, que misturou um futebol defensivo com efetividade, comemorava o primeiro mundial de sua história.

@holandafelipee

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s