Exemplos de sucesso em transições ofensivas no mundo da estatística

Por João Pedro Izzo

WhatsApp Image 2020-03-05 at 10.09.38Na última semana, falei sobre as transições ofensivas no mundo da estatística, utilizando determinados conceitos numéricos para abranger e compreender melhor a ideia de rápidas transições.

Agora, neste texto, a ideia é passar um resumo completo de times que tiveram bons momentos utilizando bem a ideia de transições. É válido demais dizer que há sempre diferenciações em termos de números. Como o futebol, a estatística possui tendências, mas há mutações de diversas formas. Não tome qualquer exemplo abaixo como uma suposta forma ideal de como fazer uma boa transição ofensiva – meu intuito é apenas exemplificar 8 trabalhos que tiveram êxito nesta fase do jogo, sendo que serão 4 nesta primeira parte.

Lembrando que todos os dados são fornecidos pelo Footstats. Outro lembrete importante é que a visão mais fiel das estatísticas é sempre observar os números pela ótica de pontos corridos, ou seja, os campeonatos nacionais. Há mais padrão, regularidade, formas de como um time atua. Um jogo de mata-mata envolve diversas peculiariedades e detalhes que mudam o cenário da regularidade, como altitude, necessidade de reverter desvantagens e por aí vai.

Liverpool de Jurgen Klopp

O time era antes conhecido por praticar um futebol “rock and roll, justamente por acelerar em contra-ataques ou até mesmo chegar com muita verticalidade em campo rival. Mas, atualmente, os Reds viraram um time que pausa muito mais o seu jogo, sabe como cadenciar os duelos e acaba utilizando lançamentos em momentos necessários para agilizar os ataques.

klopJurgen Klopp comanda o Liverpool há cinco temporadas. Foto: Getty Images.

No entanto, os comandados de Klopp sabem como poucos realizar uma transição ofensiva de extrema qualidade, a fase que mais saltou aos olhos do público quando este Liverpool tomou corpo e forma. Como funcionam os pilares da estatística relacionada às transições ofensivas no Liverpool na Premier League 19/20?

Verticalidade: o Liverpool precisa de 36 passes em média para chegar a cada finalização. Os mais atentos lembrarão que eu disse no texto da semana passada que um valor legal de um time vertical seria entre 20 a 35 passes. No entanto, a diferença é mínima, e com um agravante: os Reds trocam 538 passes por jogo e chutam 14 vezes por partida. Com um número tão absurdo de passes, é natural que o time não seja o mais vertical possível. Contudo, o Liverpool se mostra um time que acelera em metros finais e verticaliza, tendo mais pausa e espera no 1º e 2º terço. É uma característica da equipe, que aprendeu a usufruir melhor da posse e usá-la como um meio, não um fim.

klabFirmino chama atenção dos zagueiros. Há espaço para ruptura em velocidade. Van Dijk pode usar o lançamento para buscar as costas da defesa. Foto: InStat. Edição: Daniel Klabunde.

Lançamentos e viradas de jogo: o uso de bolas longas no time de Klopp não é, de longe, a principal arma. É o 13º em lançamentos certos (11,8 por jogo), mas é uma forma utilizada para conectar os pontas, principalmente por Van Dijk, Arnold e Robertson. Mané e Salah usam a velocidade para ganhar na corrida após receber essas bolas em profundidade.

As viradas de jogo são muito úteis no Liverpool – é o time que mais vira o lado da jogada na Premier League, com 6,5 acertos por jogo. O cenário habitual é: Arnold vira para Robertson, que tem metros livres para avançar e efetuar jogadas pelo lado bem menos povoado. É uma forma de usar as transições ao seu favor, uma característica mais perceptível no jogo funcional, quando há organização a partir das funções, geralmente do setor em que a bola está concentrada. Com isto, o lado oposto da jogada está sendo “coberto” pela diagonal do lateral, que tem sempre campo aberto para acelerar. Por isso Arnold é tão necessário no Liverpool, pois é ele que costuma ativar este modo de jogo.

Posse de bola: o atual campeão da Champions League é o 2º em posse de bola na PL: média de 59,7% por jogo. Como dito, é um meio, não um fim. O Liverpool pouco sofre tendo a bola, pois também é uma forma de se defender, de cadenciar a partida e executar as jogadas quando convém.

E é isso que convém aos Reds: ao ter muito a bola, a equipe pode acelerar quando necessário, transitando rapidamente ao ataque e construindo essa posse no ataque, com 28% (número bom e acima da média), transformando o domínio em perigo constante ao rival.

Desarmes e interceptações: 9º em desarmes (14,7 PJ) na Premier League e 1º em interceptações (5,2 PJ), o time de Klopp é mestre em bloquear as linhas de passe e desarmes, sempre com pressões intensas no portador da bola. Isso resulta em incríveis 17,5% de desarmes no campo de ataque; o 2º que mais rouba bola no campo dos rivais em solo inglês, só atrás do City.

Leicester de Claudio Ranieri

Que o maior azarão da história da era moderna da Premier League venceu a competição em 15/16 isso todos sabem. Talvez não se lembrem de como a equipe jogava, assim como o Leicester só passou apenas 1 jogo dos 38 da PL com superioridade em posse de bola.

Os comandados de Ranieri apostavam em rápidos contra-golpes, lançamentos eficazes para o campo de ataque e, por vezes, em transições velozes, geralmente puxadas por Mahrez ou com o argelino envolvido em algum dos processos, geralmente terminando nos pés de Vardy, atacante inglês que permanece até hoje no time.

ranieri

Claudio Ranieri e seu Leicester fizeram a façanha de  ganhar a Premier League em 15/16. Foto: Getty Images.

Esse vai ser o único caso em que não há coleta de dados pelo Footstats, mas achei uma especificidade muito legal de trazer à tona justamente pelo feito conquistados pelos Foxes, ainda mais que o título potencializou o clube que, desde então, nunca mais brigou pela parte de baixo da tabela e é o atual 3º colocado da Premier League e deve jogar a Champions em 20/21.

Verticalidade: era um time muito, mas muito vertical, pois se há menos posse de bola em 37 dos 38 jogos do torneio, seja em qualquer um dos terços, a ordem era ser objetivo de diversas formas para finalizar após poucos fundamentos com a bola. Era, sobretudo, um conjunto muito organizado e objetivo para definir rapidamente.

Lançamentos e viradas de jogo: os Foxes utilizavam muito dos lançamentos de seus zagueiros, Huth e Morgan, para conectar ao campo de ataque. Okazaki costumava ganhar a primeira bola e assim Vardy conseguia ser acionado em velocidade para romper as linhas dos rivais.

Não era um time que virava muito o jogo. E sim, isso não é um critério necessariamente preciso para um time ter boa transição. Como não havia muita troca de passes, o Leicester City não pretendia trocar o lado da jogada e horizontalizar a jogada.

esquO esquema tático daquele Leicester: 4-4-2. Foto: Tatical Pad.

Posse de bola: dito acima, era um time que não trabalhava com posse. Além disso, não concentrava tanto em seu campo de ataque, por exemplo. Você não via o time sendo agressivo o tempo todo, alugando o campo de defesa do adversário, tampouco fazendo blitz para pressionar. No entanto, o fato de não possuir a bola era um benefício ao Leicester, que gostava de atuar em bloco baixo e por vezes médio.

Desarmes e interceptações: por defender-se com maestria, tendo perdido apenas 4 dos 38 jogos da PL daquela temporada, o Leicester tinha em Kanté e Drinkwater os seus pilares defensivos, realizando inúmeras ações para recuperar a bola de forma limpa, ligando rapidamente aos criadores do time. Não era um time que realizava tantos roubos no 3º terço, embora que, por característica, Vardy realizava boa pressão nos zagueiros rivais.

Flamengo de Jorge Jesus

O Flamengo de Jorge Jesus, que chegou em junho de 2019 ao time carioca, fez da equipe muito rapidamente uma ideia teórica se transformar em prática. Dono de um toque de bola envolvente, um jogo plástico e um ataque mortal, o Fla dominou e doutrinou o Brasileirão do ano passado, quebrando o recorde de pontos (90) com muita folga.

Os comandados do português ainda conquistaram a Libertadores. O feito duplo de BR + Liberta na mesma temporada não acontecia desde o Santos de Pelé. É muito difícil conseguir crescer nos quatro pilares do jogo com tão pouco tempo de trabalho – foram menos de 5 meses para carimbar esses títulos. E como a transição ofensiva deste time era/é realizada?

Verticalidade: o Flamengo chegava a uma finalização a cada 32 passes trocados no Brasileirão 2019. Além de um número bom, há de se entender o contexto que o rubro-negro estava inserido: era um time sem nenhuma pressa de chegar ao meio de campo, com toques naturais e conscientes para que a bola “mais redonda” chegasse aos 4 de frente. Assim que chegava, a verticalidade acontecia, com uma aceleração muito boa dos homens ofensivos.

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O “ataque rápido” do Flamengo: muito espaço, amplitude sempre presente e ataque às entrelinhas do adversário. Foto: Leonardo Miranda.

Lançamentos e viradas de jogo: agora outro detalhe: o Flamengo foi o 6º time que menos acertava lançamentos no campeonato, mas engana-se que a arma não era usada. De fato, não era abusada, mas o interessante é que o Fla foi o time com melhor acerto das bolas longas (45%), ou seja, era sempre um caso pensado e muitas vezes um lançamento curto, buscando um companheiro desmarcado e que recebia a bola de frente para o campo. Méritos para Diego Alves, que teve acerto de 47% na estatística e era responsável por ligar rapidamente aos laterais Rafinha e Filipe Luís.

O Flamengo foi o 2º time que mais virava o lado das jogadas (3,2 PJ) no Brasileirão 2019. Diferente do Liverpool, que usa o fundamento como arma para chegar bem rápido em transição, o Flamengo usava para pegar o lado oposto do rival, com menos marcação e mais liberdade para criar.

Posse de bola: 2º time em posse de bola (57%) no campeonato, o Flamengo controlava e ditava o ritmo das partidas. O estilo é semelhante ao que faz o Liverpool na Premier League: além das pausas usadas para acalmar os jogos, o Fla sabia ocupar o último terço, sendo o time que mais teve posse no ataque (31%) na Série A de 2019. Com peças tão criativas como Éverton Ribeiro e Bruno Henrique, Gabigol e Bruno Henrique estavam sempre de frente para os rivais e rompendo em velocidade.

Desarmes e interceptações: naturalmente, a equipe que tem muita posse acaba não tendo que combater muito, pois desgasta-se menos correndo atrás dos adversários. Esse não foi o caso do Flamengo, que foi o 1º em desarmes por jogo (17,7), um número bem alto e que comprova a eficiência da melhor pressão pós-perda do país. O número de roubadas no campo de ataque foi bom também (11,5%), mostrando que o combate já acontecia bastante com os quatro homens ofensivos.

Por ser um time que realizava pressão intensa e roubava a partir de desarmes, não havia necessidade de interceptar as linhas de passe dos adversários, pois o Flamengo protegia muito bem as suas entrelinhas de defesa, ou seja, quase não havia espaço e possibilidade dos rivais se encaixarem em posições de criação ou arremate. Não é uma necessidade interceptar muito para poder transitar bem ao ataque.

Goiás de Ney Franco

Recém-promovido à primeira divisão, o Goiás, comandando por Ney Franco, entendeu seu propósito no campeonato e decidiu agarrar com unhas e dentes um estilo de jogo. Sem condições de disputar financeiramente com os maiores, o Esmeraldino chegou ao honroso 10º lugar e chegou perto de uma vaga na Pré-Libertadores.

Mas como o técnico do time goiano conseguiu driblar tantas adversidades, mesmo tendo sido a pior defesa do torneio (64 gols sofridos em 38 jogos)? Como teve êxito em conquistar ótimas 15 vitórias? A resposta vem pelo modelo bem definido de transições, que foram impulsionadas por um tripé individual: Rafael Vaz, Léo Sena e Michael, com uma menção importante a Tadeu, que foi o goleiro com mais defesas difíceis da competição.

Verticalidade: o Goiás foi a equipe mais vertical do último Brasileirão: apenas 23 passes para chegar a uma finalização, número bizarramente baixo se considerarmos que é uma média. Tal premissa estatística foi a principal para fazer o Goiás objetivo dentro dos jogos e permitir que o time sonhasse com voos mais altos, sofrendo muito pouco com risco de rebaixamento – mesmo sendo tão vazado!

Todo o jogo era pautado em estratégia bem definidas pela equipe, que sabia exatamente o momento de se lançar. Sendo o time que menos trocou passes no torneio, o Goiás admitiu essa condição de agremiação que sofria sem bola – e como sofria, sendo bombardeado de finalizações – mas quando tinha êxito na proposta, geralmente causava muito problema aos adversários.

Lançamentos e viradas de jogo: o Goiás foi apenas o 11º time que mais acertou lançamentos (11,1 PJ), mas novamente engana-se quem pensa que o time não fazia uso da bola longa.

A ideia do tripé individual começa por aí: Rafael Vaz foi o jogador de linha com mais lançamentos certos por partida (3), sendo que ele tentava 8 vezes por confronto. Desta forma, ele acionava o ataque visando a profundidade de Michael, o jogador que mais finalizou com origem em lançamentos (9) e o que mais driblou (76). Nessa velocidade e individualidade, ele conseguia decidir sozinho em muitas ocasiões.

michaelOfuscado por Michael e pelos gols de Rafael Vaz, Léo Sena teve destaque em muitas estatísticas no Brasileirão 2019. Jogador subestimado e essencial no Goiás. Foto: Rosiron Rodrigues.

Contudo, muitas vezes a bola não chegava no garoto que foi vendido ao Flamengo; quando batia e voltava, Léo Sena era o homem de maior posse do Goiás, que distribuía o jogo, além de suas ótimas funções defensivas – foi o meia com mais desarmes (76) e interceptações (25).

O meio-campista era fundamental: foi o 1º da posição em lançamentos certos (46) e viradas de jogo (25), portanto, é fato de que o Goiás nem lançava nem virava muito o jogo – justamente por ter pouco a bola – mas havia peças pautadas para exercer essas funções, se encarregando de toda uma ideia.

Posse de bola: 2º com menos posse de bola no Brasileirão 2019 (44%), o Esmeraldino realmente não se importava em ter a posse, algo dito inúmeras vezes acima.

No entanto, o que chama a atenção é o número alto de posse no ataque (27%). Acompanhe o raciocínio: o time já não costuma ter a bola, é o 2º que menos a possui, mas ainda assim consegue concentrar uma % no ataque apenas 4% menor que ao do campeão quase imbatível Flamengo. É um feito e tanto!

Não é todo dia que conseguimos ver tanta objetividade de um time com a pelota mesmo tendo problemas coletivos e, principalmente, defensivos. A equipe acumulou muito dessa posse no ataque com as investidas de seus pontas. Foi desta forma que o Goiás conseguiu surpreender a tantos no campeonato.

Desarmes e interceptações: 12º em desarmes (14,9 PJ) e 11º em interceptações (2,7 PJ), o Goiás mostra mais uma vez que os conceitos de embates defensivos não são necessariamente atrelados à ideia de recuperar rápido e acelerar em transição. Geralmente o time esperava a perda da posse do rival para assim executar suas ações em campo.

Dito isso, o campo de ataque não tinha grande papel em pressionar e roubar bolas. Quase sempre em um bloco baixo durante todo o campeonato, o Goiás esperava o rival definir o que queria do jogo para assim contra-atacar a partir de passes errados e bolas perdidas dos rivais.

@joao_izzo

 

 

 

 

 

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