Inconsistência e futebol burocrático: razões do fraco início de ano do Ceará

Por Gêra Lobo

Antes da temporada começar, havia muita expectativa em cima do ano do Ceará, muito pela chegada de várias peças interessantes para elevar a qualidade técnica do elenco. Porém, o que se viu até agora foi um time completamente apático em quase todas as partidas, sendo com Argel Fucks ou com Enderson Moreira, mesmo o segundo conseguindo trazer certa evolução, mas não o suficiente, muito longe disso, mesmo com o time ainda invicto (até a postagem deste texto).

Pensando nisso, preparamos um texto onde iremos apontar as principais razões desse início de ano decepcionante do alvinegro, que, mesmo com várias mudanças de um ano para o outro, que precisa de certa adaptação, já deveria ter demonstrado um modelo de jogo e consistência maior do que vem apresentando.

1) FUTEBOL BUROCRÁTICO E (ALTA) DIFICULDADE DE FURAR TIMES “FECHADOS”

Acho que a grande questão a se analisar aqui é a impressionante lentidão em muitos momentos do Ceará. Quando você tem a bola, não dá pra ficar apenas rodando de um lado para o outro torcendo para que os espaços apareçam. Precisa de maior movimentação, participação de todos, desde a base da jogada, para essa criação de espaço.

A maior dificuldade do Ceará tem sido, principalmente, contra adversários que se fecham completamente, com linhas bem compactas e que cedem o mínimo de espaço possível. Aí entra uma questão muito importante, que falta no jogo atual do Vozão: amplitude e profundidade.

Antes da temporada começar, muita expectativa em cima da dupla de laterais: Samuel Xavier e, principalmente, Bruno Pacheco. São dois jogadores que apoiam bem e tem qualidade para chegar a frente. Porém, tem faltado muito disso para ambos neste início, e isso preocupa.

Quando você abre o campo (amplitude), atrai os adversários, resultando em mais espaços para atacar, e isso falta pro Ceará, mas não só aos laterais, como para os pontas. Em relação a profundidade, falta ser mais agressivo, chegar ao fundo do campo, atacar as costas do adversário, e isso serve mais para os pontas em si, que também vem bem abaixo, principalmente Leandro Carvalho.

São muitos jogos que o Ceará vem sofrendo, principalmente contra equipes mais fechadas. Não a toa, os dois melhores jogos do time, em termos de rendimento ofensivo, foram contra Fortaleza e Bahia, porque ambos os times cedem mais espaço, principalmente em transições para o alvinegro. Porém, quando a coisa aperta, faltam ideias mais ousadas de Enderson Moreira para mudar tal roteiro.

2) INSISTÊNCIA NO ESQUEMA

Agora uma questão que nem todos pensam, mas que, talvez, fosse um teste altamente válido: a mudança de esquema. O Ceará se apegou muito ao 4-3-3/4-2-3-1 há muito tempo, independente o técnico que passe pelo clube. Porém, faz um bom tempo que esse sistema vem sendo bem questionado, até porque o rendimento deixou de ser regular faz um tempo. E aí entramos na pergunta: por que não mudar?

É o início de temporada e ainda está na fase de testes. Nesse time atual, a montagem não foi lá tão boa, principalmente no ataque, já que não existem tantas opções velozes e que deem a profundidade necessária para criar jogadas. Um esquema que seria válido a tentativa seria o 4-4-2, com Rafael Sóbis saindo da posição de centroavante e descendo um pouco para atuar de segundo atacante. Pelos lados, Fernando Sobral poderia ser testado nesse novo esquema.

São tentativas de mudar algo parece meio saturado. Não dá pra ficar apenas de braços cruzados esperando para que os resultados apareçam. Tem que arranjar formas de achar os caminhos das vitórias e das boas atuações também, ainda mais falando do Ceará e seu elenco bem caro.

3) DEFESA INCONSISTENTE

Meio estranho este tópico estar aqui, mas vou explicar. Primeiro de tudo: Fernando Prass. Ele já salvou o Ceará em uma boa quantidade de jogos, mas também teve falhas que, normalmente, não tem. Seria uma certa falta de confiança do arqueiro alvinegro? Depois disso vem Luiz Otávio. Melhor zagueiro do futebol nordestino com sobras, o xerife alvinegro não vem bem nesse início de temporada, e muito se deve a sua condição física. Estamos falando de um zagueiro de 31 anos e que, normalmente, não perde um jogo, então normal uma certa queda nesse início de temporada.

Além disso, por mais que Klaus não tenha comprometido tanto assim, Luiz Otávio ainda necessita de um parceiro mais qualificado e consistente, e isso está claro, até porque nem Klaus, nem Tiago (que pouco joga), tem condições de cobrir o líder da defesa alvinegra em jogos onde ele esteja abaixo. Não dá pra depender de apenas um. Uma dupla de zaga se completa.

Por fim: os laterais. Sim, de novo Samuel Xavier e Bruno Pacheco. Samuel Xavier fez um 2018 muito bom pelo Ceará em todos os sentidos, mas mostrou deficiências em 2019, que permaneceram em 2020. Uma delas é seu momento defensivo, sofrendo demais para acompanhar no 1 contra 1 e se posicionando mal algumas vezes. Pacheco nunca foi uma unanimidade defensiva, longe disso, e isso segue. Ele precisa ainda mais da dupla Charles e William Oliveira, além de Luiz Otávio, para cobrir seus erros de posicionamento. Preocupação no sistema defensivo.

NÚMEROS DO CEARÁ NA TEMPORADA
11 jogos
3 vitórias
8 empates
0 derrotas
13 gols marcados
10 gols sofridos

Enderson Moreira tem muita coisa a corrigir ainda. Ele tem qualidade, assim como o elenco, para melhorar esse rendimento, exatamente para não passar o mesmo sufoco na Série A como foi em 2019. Porém, se não começar a “abrir mais a cabeça”, vai ser tarde demais.

@gerinhalobo_