Um majestoso bom de ver – ANÁLISE TÁTICA DE SÃO PAULO 0 x 0 CORINTHIANS

Por Jhonata Souza e Pedro Galante

O jogo

Havia a expectativa de que Igor Gomes e Antony, regressando da seleção olímpica, fossem titulares. O primeiro ficou no banco e o segundo foi preservado por causa de sua negociação com o Ajax. Fernando Diniz repetiu aquela que tem sido a principal escalação do São Paulo no Paulistão.

O técnico Tiago Nunes promoveu as entradas de Lucas Píton e Yony González nos lugares de Sidcley e Pedrinho, na comparação com a escalação que iniciou o jogo contra o Guaraní-PAR. O Timão começou mal a partida sem conseguir pressionar a saída de bola rival e manter a posse no campo de ataque, já que Camacho e Cantillo estavam bem marcados.
Assim como no jogo de quarta-feira, Tiago Nunes usou Love e Boselli juntos como uma dupla de ataque, enquanto Luan partia aberto do lado direito para atuar com liberdade no meio. O camisa 7 fez mais uma ótima partida, mostrando que gosta de jogo grande. Porém esse posicionamento rendeu problemas no momento defensivo, já que Luan é pouco agressivo na marcação, deixando assim bastante espaço para os apoios de Reinaldo pela direita da defesa corinthiana.

Luan com liberdade para se movimentar pelo meio (Foto: Instat/ Pèdro Galante).

Luan fechando o lado direito no momento defensivo (Foto: Instat/ Pedro Galante).

O São Paulo fez um bom primeiro tempo, travando a criação corintiano com a marcação nos volantes e avançando bem, aproveitando a fragilidade defensiva de Luan. Daniel Alves e Tchê Tchê foram muito bem organizando as jogadas, quebrando a pressão adversária e levando a bola ao ataque.

Tchê Tchê deixa sua posição original para pressionar Cantillo. (Foto: Instat/ Pedro Galante)

O Corinthians sofreu com a distância entre os setores do time, seja no ataque ou na defesa. O melhor momento da equipe se deu no final do primeiro tempo, quando o São Paulo diminuiu a pressão na saída e passou a dar mais liberdade para a dupla de volantes alvinegras. Os lançamentos de Camacho e Cantillo buscando Fagner e Píton geraram as melhores chances do Timão que acabaram sendo desperdiçadas por Boselli no fim da primeira etapa.

No segundo tempo o peso de ter tido uma decisão no meio da semana, com um jogador a menos em boa parte do jogo, apareceu e o Corinthians teve uma nítida queda física com a recomposição defensiva mais lenta que o normal e a aparição de espaços entre as linhas de marcação. Com a defesa mais exposta ficou evidente o bom joga da linha de defesa alvinegra, principalmente de Pedro Henrique, que enquanto esteve em campo foi essencial na cobertura das jogadas que exploravam as costas de Fagner e do jovem Lucas Píton que teve uma atuação bastante segura no momento defensivo.

O Majestoso marcou a estreia de Yony González com a camisa alvinegra e ele fez uma partida discreta, porém ganhou todos os duelos pelo alto que teve característica importante no segundo tempo, pois era o alvo dos lançamentos de Cássio na saída. Luan passou a jogar pelo meio atrás de Boselli após a entrada de Pedrinho no lugar de Vágner Love e depois houve a entrada de Everaldo no lugar de Yony a fim de dar sangue novo ao ataque alvinegro.

Fernando Diniz colocou Igor Gomes e Toró nas vagas de Hernanes e Pablo, buscando mais velocidade e verticalidade no ataque. Com o caminhar da partida, o tricolor foi perdendo o fôlego e controle do meio-campo. A contestada entrada de Liziero, no lugar de Alexandre Pato, foi uma correção do treinador. Com Daniel Alves deslocado para o lado direito e Toró para o comando do ataque, o São Paulo recuperou o domínio no meio campo e buscou a vitória até o final.

A grande chance corintinano no segundo tempo acabou vindo na cobrança de falta feita por Luan que obrigou Volpi a realizar grande defesa. A reta final foi uma trocação de ataques entre ambos os times e a estrela de Cássio apareceu com duas intervenções decisivas nas finalizações de Pato e Bruno Alves, mantendo assim o zero no placar.

Início da Era Nunes

Uma derrota no clássico seria outro duro golpe neste início de temporada alvinegra, então o empate acabou sendo um bom resultado. Óbvio que a eliminação na Pré-Libertadores doeu demais e o time teve tropeços no estadual, porém o torcedor corintiano olha para o que acontece dentro de campo e vê uma perspectiva de que dias melhores podem vir com a sequência do trabalho.

Existem pontos a melhorar no decorrer da temporada. É um time que cria bastante, mas que perde muitos gols e terá de diminuir a dependência, que existe hoje, dos volantes para o jogo fluir. Além disso, é necessário tornar o time menos exposto no momento defensivo, entre outros pequenos acertos a ser realizados.

Tiago Nunes foi contratado para mudar completamente a cara do Corinthians e tal escolha demanda tempo e paciência, pois tropeços vão acontecer até as ideias estarem afiadas dentro do campo. Mesmo assim, já é possível perceber uma melhora de desempenho na comparação ao ano passado. O Timão tem um volume ofensivo muito maior e alguns jogadores subiram de desempenho no comando do novo técnico.

Arame liso: culpa de quem?

É o terceiro jogo consecutivo que o torcedor são-paulino vê o mesmo enredo se repetir: o conjunto tricolor entrega uma boa atuação, consegue dominar seus adversários na maior parte do tempo, mas não converte os gols necessários. Há também a infeliz questão da arbitragem, que também faz parte desse enredo.

A discussão nesse último caso vai por outro caminho que este texto não percorrerá. Mas a citação da arbitragem segue importante, não somente pela questão simples de que o jogo não pode ser resumido ao componente tático, mas também por que a interferência no resultado interfere na análise geral que se faz do time. Se os gols de Pato contra o Novorizontino fossem validados, se o pênalti em Igor Gomes fosse marcado, a discussão seria totalmente diferente.
Existem duas categorias de críticas da torcida ao São Paulo, e cada uma parece ignorar aspectos importantes. Há quem relativize o processo pela falta de resultado. Que ignora toda evolução que o time apresenta até aqui – uma saída de bola fluída, inclusive com Bruno Alves e Arboleda participando cada vez mais; uma pressão e uma pressão-pós perda ajustada – pois não ganha a três jogos.

O outro grupo relativiza a falta de resultado pela presença de um processo. É muito simples trazer um dado de que, nos seis jogos do Paulistão, o São Paulo finalizou 128 vezes (SofaScore), dizer que o time está criando e que uma hora a bola entra. São apenas seis gols nesse mesmo recorte. Na anatomia de um gol, a criação é tão importante quanto a finalização. A falta de gols é sim uma questão de má finalização, o xG total (índice de gols esperados pela qualidade das chances) nessas seis partidas é 13, mais que o dobro dos gols marcados; mas a criação também tem sua influência, uma média de 21,3 chutes para marcar um gol, evidencia que esses chutes não aconteceram nas melhores condições.

Uma boa chance é fácil de ser convertida. Ajustes no funcionamento ofensivo, especialmente no último terço, são necessários para que as chances sejam melhores e os gols mais frequentes.
Outra discussão que aparece com força é sobre uma certa separação do treinador e dos jogadores. Os atacantes estão desperdiçando as boas chances, as fáceis de converter. Contra o Santo André, foram Vitor Bueno e Éverton; contra o Corinthians, foram Hernanes e Pato.

É obvio que Fernando Diniz não pode entrar em campo para balançar as redes, mas esse discurso de “que culpa tem o treinador? ” é perigoso. A função do treinador é dar todos os recursos para os jogadores fazerem o que é preciso. Não significa necessariamente que farão sempre. Mas quando há falhas dessa maneira recorrente e com diversos jogadores é um sinal de que há algo errado. O que? Sem conhecer o dia-a-dia e os treinamentos é difícil definir. Diniz não só conhece esses cenários como pode influenciar dentro deles. Se tem alguém que pode ajudar os jogadores é ele. E os jogadores também precisam se ajudar.

Nem tão ao céu, nem tão ao inferno, Fernando Diniz entrega uma evolução interessante.

@pedro17galante @jhonny14souza