Transições ofensivas no mundo da estatística

Por João Pedro Izzo do Footstats

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Segundo Eduardo Cecconi, “o momento de transição defesa/ataque é caracterizado pelos comportamentos que se devem manifestar durante os segundos imediatos ao ganhar-se a posse de bola”. O autor complementa com a ideia de que as equipes que sabem transitar em direção ao campo de ataque conseguem pegar os adversários desorganizados e, assim, estabelecer novos objetivos ofensivamente.

O conceito já é conhecido e muito aplicado no mundo do futebol, sendo que todas as grandes equipes do futebol mundial possuem boas ferramentas em transição e conseguem estabelecer-se em campo rival com mais rapidez e facilidade. Contudo, este texto buscará mostrar algumas tendências do termo de forma relacionada à estatística. Lembrando que todos os scouts são fornecidos pelo Footstats.

Cabe ressaltar que não há um conceito numérico exato. O objetivo é apontar tendências e mostrar, em números, como costuma ser o comportamento de times que sabem transitar bem rumo ao ataque. Vamos às ideias que ajudam a entender isto:

Conceito de verticalidade relacionado à transição ofensiva

Verticalidade no mundo da estatística nada mais é do que quantos passes são necessários para se chegar a uma finalização. Normalmente, um time que precisa de poucos toques para realizar um chute é uma equipe que transita bem ao ataque e define rápido no 2º e 3º terço do campo.

No entanto, um time pode trocar muitos passes, ter muita posse, e mesmo assim ter ótimas transições, pois sabe o momento de acelerar e ser vertical ao agredir o adversário. Um exemplo disso é o Flamengo de Jorge Jesus, que será abordado na próxima semana.

tr1Flamengo de Jorge Jesus encantou em 2019. Créditos da imagem: Gazeta Press.

Em média, um time que chuta uma bola após 20 a 35 passes trocados é considerado vertical. Não está necessariamente ligado à verticalidade uma equipe que finaliza muito, mas sim uma equipe que sabe quando finalizar e definir melhor as jogadas quando possui a bola.

Conceito de lançamento e virada de jogo atrelados à transição ofensiva

Muitos times que transitam bem utilizam o lançamento (ou bola longa, como queira) para ganhar metros no gramado, ativar seus pivôs em ligações diretas ou mesmo ligar com velocidade para pular “etapas” na criação, sendo menos apoiados em saídas e bem agressivos próximos à meta adversária.

Como exemplo a ser mais estudado na continuação deste texto, o Goiás no Brasileirão 2019 foi a 2ª equipe com mais finalizações com origem em lançamentos (22). Era uma estratégia clara: poucos toques, utilização de bolas longas (muitas de Rafael Vaz e outras de Léo Sena), exploração de velocidade nas pontas (quase sempre com Michael) e rápida definição no comando de ataque. Uma equipe com ótima transição ofensiva, a qual fez sonhar com uma vaga na Pré-Libertadores de 2020.

tr2Ney Franco encontrou nos lançamentos e contra-ataques a chave do sucesso para o Goiás em 2019. Créditos da imagem: Gazeta Press.

Outro mecanismo para desafogar o lado povoado, o setor da bola, são as viradas de jogo. Nem sempre tão usadas, as famosas inversões pegam o rival desprevenido, visto que há naturalmente menos marcação no lado oposto, e aí a agremiação pode atacar da forma que achar melhor, normalmente transitando e agredindo muito. Isso é uma característica do jogo funcional, conceito que será falado no próximo texto. O Liverpool faz esse tipo de jogo com maestria, sendo o líder em viradas de jogo na Premier League desta temporada.

O Inter em 2019, à época comandado por Odair Hellmann, fez das viradas de jogo uma das suas principais armas. É algo que vai ganhando mais relevância no mundo do futebol.

Conceito de posse de bola atrelado à transição ofensiva

A posse de bola não é, de longe, uma estatística que define e limita um time. É um meio, não um fim. É importante reparar como essa posse é convertida:

  • Seja uma forma baseada em acúmulo de posse na defesa, com blocos baixos, mas a utilização de rápidos contra-ataques e de outras fases do jogo, como as bolas paradas;
  • Seja um domínio territorial no meio para acalmar o jogo e torná-lo ao caráter destinado;
  • Seja uma posse ofensiva, encurralando o adversário, realizando fortes marcações pós-perdas da bola e linhas altas.

O Santos de 2019, com o ex-técnico Jorge Sampaoli, foi o time que mais teve posse (58%) no último Brasileirão. Isso não impediu, de forma alguma, com que seus comandados realizassem ótimas transições, pois verticalizava muito os ataques, tendo grande volume de posse no 3º terço e diversas chances claras de gol. E o mais importante disso é que, mesmo tendo muito controle, nenhum jogador destoava do outro com tanta posse, visto que não era necessário tocar muitas vezes na bola. Os pontas, por exemplo, foram talhados a participar ativamente no último terço e receber apenas em suas posições, um dos mantras do ataque posicional de Sampaoli.

tr3Jorge Sampaoli trouxe muita intensidade e transições de qualidade ao Santos no ano passado. Créditos da imagem: Gazeta Press.

É válido ressaltar mais uma vez: não fique “preso” ao conceito frio de que um time com muita posse e passes trocados não consegue ser rápido e objetivo na definição das jogadas. Há várias nuances do jogo que demonstram bem como os elencos conseguem ser eficazes em determinados modelos de ataque, mesmo que saibam cadenciar as partidas e, por vezes, não demonstrar tanta intensidade.

Conceito de desarmes e interceptações atrelados à transição ofensiva

Geralmente, um time que combina os conceitos citados acima, além de realizar um grande número de desarmes e interceptações, conseguem ligar rápidas transições e contra-ataques, por consequência.

A ideia de roubar a bola (desarmar) ou cortar uma linha de passe (interceptar) é, costumeiramente, ligada à ideia de um bloco baixo/médio, um time que busca ser mais defensivo, combativo, solidário, “raçudo”, copeiro, etc. No entanto, o futebol evoluiu muito e mostrou o porquê dessa mudança ao menos na última década.

O termo “pressão pós-perda” é quase um mantra na ideia do esporte atualmente. O famoso pressing, a pressão no portador da bola, aliada à uma coordenada marcação e eficácia na leitura dos passes rivais nos primeiros segundos após perder a posse, acaba sendo determinante para muitos modelos de jogo funcionarem.

Por vezes vemos times com altíssimas taxas de posse (60% a 70%), com mais de 600 a 800 passes trocados, desarmando e interceptando MUITO mais que os rivais, que acabam tendo menos posse, passes e ações combativas. A tal intensidade acaba prevalecendo, isto é, um conjunto de ações táticas realizadas em menos tempo e com mais acerto possível.

tr4Odair Hellmann teve, na Copa do Brasil 2019, grandes jogos pautados na intensa transição ofensiva da sua equipe. Créditos da imagem: Gazeta Press.

E onde isso tudo entra nas transições ofensivas? É simples:

  • O seu time troca passes, tenta entrar na defesa adversária, mas um passe buscando romper as linhas acaba saindo errado;
  • Com o outro time já com a posse, muitas vezes no 1º ou 2º terço, isto é, longe do seu próprio gol, uma boa marcação, sufocando o rival e, assim, com a recuperação da posse, você acaba garantindo mais proximidade à meta do arqueiro do outro time.
  • Os preciosos segundos que o seu time gastou para pressionar o portador da bola da equipe rival foram suficientes para retomar o controle da jogada, que normalmente acaba sendo em uma região de mais definição, próxima ao último terço de campo, consequentemente mais perto do alvo, o gol.
  • Uma transição bem acertada ali, com cerca de cinco toques para definir como a chance será executada, fatalmente criará problemas ao adversário.

E esses são alguns conceitos da estatística aliadas às transições ofensivas. Sempre cabe lembrar que nada dito aqui busca limitar qualquer definição sobre o jogo, mas sim acrescentar aos debates e explicar como os números conseguem andar lado a lado com a tática.

Espero que as tendências demonstradas neste texto clareiem algumas dúvidas das pessoas que buscam entender como o jogo é praticado, como é o comportamento de tal time e como algumas fases do jogo ajudam a entender determinadas ideias táticas e técnicas.

Na próxima semana, tratei oito exemplos de times que, nos últimos anos, conseguiram fazer ótimas transições ofensivas e como elas ocorreram na prática e na visão dos números.

@joao_izzo

 

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