A construção do SPFC de Diniz

Por Pedro Galante

O São Paulo recebeu o Grêmio Novorizontino no seu quarto compromissa pelo campeonato e na temporada 2020. O tricolor teve bom desempenho, mas o empate foi marcado pela péssima arbitragem que invalidou dois gols perfeitamente legais de Alexandre Pato.

Arbitragem a parte, foi o quarto jogo que o treinador Fernando Diniz manteve o mesmo time base, evidenciando que seu objetivo principal durante estadual não é focar na preparação física para a temporada (a repetição dos jogadores traz um desgaste natural) nem dar chances a novas peças. Para o São Paulo, o Paulistão tem uma função clara: buscar o melhor funcionamento do seu conjunto titular.

Vamos, então, analisar esse funcionamento, os mecanismos propostos pelo treinador e como a equipe pretende alcançar um bom nível competitivo.

Saída de bola adaptada

No futebol moderno, em especial em equipes que buscam um jogo de passes ofensivo, é fundamental que os zagueiros tenham bom passe e visão para iniciar as jogadas. O São Paulo não encontra essas características em Arboleda e Bruno Alves – ainda que ambos estejam evoluindo nesse sentido – e por isso, Diniz desenhou uma saída de bola incomum.

sp1Saída adaptada: zagueiros como laterais e dois volantes por dentro. (Foto: Instat/ Pedro Galante)

Ao invés de ocuparem a zona central, os zagueiros são-paulinos são instruídos a se aproximar da linha de lado, quase como laterais. Além do recuo tradicional do primeiro volante Tchê Tchê, Dani Alves também aparece nessa zona, e são os dois que realizam a construção, tendo a responsabilidade do primeiro passe. Dessa forma, a saída de bola é potencializada: na região central, ficam os jogadores de melhor passe, mais influentes; os zagueiros, de pior passe, não deixam de participar, mas tem menos peso por estarem mais abertos.

Essa saída tem algumas implicações no formato da equipe. Com os zagueiros ocupando uma zona mais lateral, os laterais têm mais liberdade para avançar e, consequentemente, os pontas podem aparecer mais por dentro. Na verdade, é fundamental que os pontas preencham o meio-campo, uma vez que dois dos três meio-campistas estão recuados para iniciar a criação.

O mecanismo não é exatamente uma novidade. Durante a temporada passada, o time ensaiou essa saída em alguns momentos. Nessa temporada, parece um comportamento mais consolidado, acontecendo mais vezes.

Essa é um desenho de saída de bola pouco usado, relativamente novo, e portanto, seus efeitos ainda não estão plenamente claros. Não se sabe ainda, por exemplo, o quanto ter os dois zagueiros aberto e dois volantes sem muita força física pelo centro pode influenciar na transição defensiva da equipe. Será preciso observar as partidas ao longo da temporada.

Uso dos corredores

Parece claro que os laterais titulares são Reinaldo e Juanfran. O primeiro é mais profundo, joga bem aberto e busca o fundo; o segundo mais construtor, avança menos e aparece com apoio. O casamento das características dos laterais e dos pontas é o que determina a ocupação dos corredores. Jogadores com características parecidas atuando no mesmo lado tendem a criar um desequilíbrio.

sp2Mapa de calor de Vitor e Reinaldo (vs Ferroviária) se completam. O lateral pelo lado e chegando ao fundo, o ponta pelo centro ajudando a criar. (Foto: SofaScore)

O lado esquerdo da equipe de Diniz parece bem ajustado: Reinaldo tem explosão e garante amplitude, enquanto Vitor Bueno aproxima e busca um jogo curto. O lado direito, no entanto, se mostra mais complicado. Juanfran é mais construtor, o que “prevê” um parceiro de lado mais driblador e incisivo. Helinho, primeiro testado na ponta-direita que acabou lesionado, não é exatamente esse jogador. Apesar de ter o drible, também tem a característica construtora e prefere trabalhar por dentro a ir ao fundo. Não era o melhor encaixe.

sp3Juanfran e Helinho geravam um desequilíbrio. Apesar de Juanfran ter chegadas ao fundo, perceba como a região “mais quente” está mais próxima do meio campo. (Foto: SofaScore)

Com Pato na posição – ou Pablo, os dois ficam se alternando – também falta a jogada de profundidade. Os jogadores mais adequados são Antony, que fica no clube mesmo com o assédio do mercado europeu e está servindo a seleção olímpica e Everton, que tem muito poder de infiltração, mas está acostumado a atuar do outro lado e não tem sequencia desde sua última lesão.

Outra alternativa, é trocar Juanfran. Antes da chegada do espanhol, o jovem Igor Vinicius se destacava na posição. Igor é um lateral mais intenso, que busca o fundo e faz jogadas de ultrapassagem, casando melhor com um ponta mais associativo e que flutue por dentro.

Pato-Pablo

Esse é o ponto mais polêmico da equipe. O melhor lugar para Pato seria na esquerda, mas Diniz não dá indícios de que Vitor Bueno possa sair do time. O treinador quer o camisa 7 como centroavante. A principal crítica é de que a equipe perde força no ataque e a possibilidade do pivô, uma vez que Pato é um jogador mais leve e que não joga de costas para o gol. Em contrapartida, a equipe passa a ter um ótimo finalizador com velocidade atuando no limite da linha de impedimento. Um passe e Pato estará na cara do gol.

sp4Pato atuando no limite da linha adversária. Ótimo contexto para explorar o espaço nas costas dos zagueiros e laterais. (Foto: Instat/ Pedro Galante)

A solução esboçada é a alternância de posições entre Pato e Pablo, se movimentando entre o comando de ataque e a ponta direita. Com Pablo aberto, há mais amplitude e equilíbrio no ataque além de um jogador mais efetivo na recomposição e pressão. No entanto, a melhor qualidade de Pablo acaba inutilizidade: sua movimentação para gerar apoios.

A dupla deve amadurecer com o tempo e coordenar melhor seus movimentos.

Apesar de faltarem ajustes, o São Paulo tem uma boa base – a manutenção da comissão técnica é um fator relevante – e tem desempenhado bem, especialmente com a bola no pé. A repetição a partir desse ponto é fundamental. A construção de uma equipe é um processo complexo. Acompanhemos as próximas partidas com atenção.

@pedrosbgalante

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