NEM TODO ATACANTE PRECISA VIVER DE GOL

Por Mathaus Pauxis

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Quando um atacante é contratado pelo teu time o primeiro número que olhas é a quantidade de gols marcados recentemente? Se a resposta é sim, tu fazes parte da maioria da população de torcedores. E isso não está errado. É comum que os jogadores que atuam mais perto do gol adversário sejam os artilheiros das equipes e sejam cobrados justamente por gols. Criou-se até a famosa expressão, que se tornou máxima: “Atacante vive de gol”. Mas, essa sim, será que está errada? Todo atacante precisa viver de gol?

O treinador Eudes Pedro diz que até concorda com a máxima, mas pelo o futebol de antigamente, enquanto que hoje ela já não cabe mais. “Se a gente pegar grandes atacantes do futebol brasileiro, como Roberto Dinamite, Serginho Chulapa, Casagrande, Romário, entre outros. Eles eram atacantes de área, eles viviam do gol. Então o time trabalhava pra eles fazerem os gols. Mas, o futebol vem evoluindo bastante e hoje o jogador tem várias funções dentro de campo e o atacante teve que se remodelar nesse novo conceito do futebol.”, afirma.

O jornalista Bruno Formiga concorda que hoje a expressão é antiquada. “Porque hoje você tem a distribuição dos gols. Você tem pontas que são artilheiros, meia-atacante que é artilheiro, segundo atacante que faz muito gol e você tem o centroavante, que também é um jogador terminal – que faz muito gol – mas que não necessariamente vai viver só disso. Por exemplo, o Firmino é um cara que não vive só de gol. Ele vive de preparação de jogada, de assistência, ele é fundamental pro modelo de jogo do Liverpool sem necessariamente ser o artilheiro do time”, explica Formiga.

Gustavo Fogaça Guffo, também jornalista e especialista em futebol, acredita que a expressão tem um fundo de verdade, mas pensa que sozinho ninguém resolve: “Como toda expressão no futebol, tem um fundo de verdade enraizada na cultura popular. Não da pra ignorar isso. Ao mesmo tempo, ninguém faz nada sozinho no futebol. Então, zagueiro vive tanto de gol quanto atacante. Tem o mesmo peso pra mim.”

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Todas as posições do futebol, do goleiro ao ponta-esquerda, contam com funções diferentes dentro delas. No caso, existem vários tipos de atacantes. Desde os pontas velozes, os pontas que atuam por dentro, os pontas defensivos, os centroavantes fixos, os que se movem, os que são falso centroavantes e por aí vai. Por isso, existem atacantes que – apesar de marcarem poucos gols – podem ser extremamente essenciais para suas equipes.

Um dos exemplos mais recentes é de Giroud na França campeã da Copa do Mundo de 2018. É inegável que sua força, sua pressão ao adversário, e sua capacidade de fazer o pivô e atrair a marcação foi importante para os Bleus serem campeões. Mas sabes quantos gols ele fez? Três? Quatro? Um? Bem, a resposta é: Nenhum.

Giroud não foi tão criticado pela falta de gols na Copa, isso porque ele cumpria um papel na equipe. O famoso papel tático. Tu percebeste isso? O treinador Vladimir de Jesus fala mais sobre essa visão: “O futebol visto pelo ângulo do treinador às vezes é um pouco diferente do que do ângulo do torcedor, imprensa e dirigentes, principalmente quando se fala de atletas que cumprem funções táticas específicas dentro do jogo.”

Vladimir completou dizendo que muitas vezes o atleta que “aparece” para esse público normalmente é quem faz o gol ou se destaca em jogadas individuais, normalmente de efeito. O atleta tático que cumpre funções pedidas pelo treinador às vezes “some” aos olhos do público geral.

giroudGIROUD – Foto: Reprodução/Instagram @equipedefrance

Então, dependendo do modelo de jogo da equipe, um atacante não deve ser cobrado só pela quantidade de gols. Como diz Eudes Pedro: “Quando um treinador pede para um atacante fazer uma função dentro de campo, aí ele não é cobrado em relação aos gols. O mais importante nessa função dele é o coletivo. Vou dar o exemplo do Gabriel Jesus. Na seleção ele tinha função de marcar o lateral, de dar assistência e chegar ao ataque. O Giroud a mesma coisa. Ele tinha uma função muito importante que era o coletivo. A marcação dele era forte, ele já vinha combatendo desde a frente. A maioria das equipes vem fazendo isso, o sistema defensivo começa desde os atacantes com marcação alta. Então há vários atacantes que jogam nesse sistema e não são cobrados em relação a gols.”

Mas isso também não significa que o número de gols marcados pelo jogador não importa. Afinal, muitas equipes ainda contratam baseadas nisso. Para Eudes Pedro, isso também é reflexo da falta de centroavantes no mercado. “Hoje o futebol brasileiro carece muito de formação de atacantes. Então em algumas equipes os atacantes já são veteranos, tipo o Fred no Cruzeiro. Como essa carência é grande, então as equipes buscam esses atacantes que fizeram mais gols, que tem índice de aproveitamento melhor. Então essa é uma forma de ser avaliado um atacante. E outra forma de ser avaliada é a participação dele em jogo, ou seja, ajudar na marcação, ajudar coletivamente, mas não só fazer gol”, comenta.

fredFRED – Foto: Divulgação/Mineirão

Bruno Formiga pensa que o número de gols “É o que é mais fácil de vender”, Mas acredita que quem de fato faz os scouts (quem compila e analisa os dados), quem ajuda na hora de definir a contratação, não avalia só esse dado. “E aí a gente está falando de quem faz isso profissionalmente bem, com certeza não está olhando só para isso. Está olhando para outras várias características que devem se encaixar no modelo de jogo do time e tudo. Esse é o mundo ideal, nem todo mundo faz mas é assim que deveria funcionar”, analisa Formiga.

Guffo acredita que o número de gols, assim como todos os outros números, depende do contexto: “É importante ver os números individuais de um atleta, mas sempre colocar no contexto em que esses números aconteceram. E entender o papel de todos os companheiros ao redor. E isso vale pra todas as estatísticas.”

Então, hoje, não é só exigido do centroavante a quantidade de gols. Os artilheiros estão distribuídos em várias posições e funções.  Como explica Bruno Formiga: “Você tem pontas que são artilheiros ou jogadores de lado que são artilheiros dos times. Por exemplo, o Neymar – que hoje joga flutuando mais por dentro – ou o próprio Mbappe. Então esses caras vão te entregar muitos gols. Eles pisam na área toda hora, fazem a diagonal. O que é o Cristiano Ronaldo? Ele originalmente era um ponta, mas ele funciona como um centroavante. Ele sai do lado pra dentro toda hora. Ele é caracterizado como o que? Como um centroavante? como um ponta? É difícil. O Benzema era o que no Real Madrid? Um segundo atacante ou um atacante? E ele foi fundamental para o Cristiano Ronaldo, para o crescimento do próprio Cristiano Ronaldo. Pra gerar espaço. O Suárez não é o artilheiro do Barcelona, é o Messi.”

Formiga ainda completa dizendo que o que define um artilheiro são suas características individuais. “Atacante ser goleador é uma característica. Tem atacante goleador, tem atacante preparador, tem atacante que é muito inteligente, mas não é tão goleador. Antigamente você tinha o artilheiro do time que era invariavelmente o Camisa 10, que era o Ponta de Lança. Essa função mudou de nome, mas continua existindo. O Messi faz esse papel várias vezes, o Neymar quando por dentro. E vários outros.”, afirma.

Guffo concorda e ainda ressalta que existe algo que não é mensurável no futebol, o chamado “faro de gol”. “Tem atletas que por sua natureza e características pessoais gostam de colocar a bola na rede e essa vocação goleadora contagia o grupo e transforma o time em vencedor. Túlio Maravilha, Ronaldo, Romário, Lewandowski, Batistuta… há centenas de exemplos de caras assim, geralmente centroavantes. Aqueles desprovidos desse “faro” ou que possuem outros predicados tendem a jogar em outras posições. Mas são tão importantes quanto, pois de novo, ninguém joga sozinho. A exigência tem q ser igual pra todos, pois se trata de um esporte coletivo”, comenta Guffo.

A cada geração que passa sempre ouvimos a mesma coisa. Que o futebol já não é mais os mesmos. Que já não existem craques como antigamente. Então, será que o futebol moderno e muito tático acabou com os clássicos atacantes que vivem de gols? É claro que não. Como vimos durante o texto, antes mesmo já existiam jogadores de outras posições que eram artilheiros.

O treinador Vladimir de Jesus até ressaltou o nome de Bruno Henrique, atacante do Flamengo, como sendo um jogador extremamente tático, mas que também se destaca com suas habilidades individuais. Enquanto que Eudes Pedro faz um pedido: potencializarmos os atacantes com capacidade natural de fazer gol.

“Tem muitos jogadores de equipes médias que são goleadores, que não tem tanto potencial coletivo, mas tem essa qualidade nata de fazer gol. Eu vejo que a maioria dos grandes atacantes finalizadores tem qualidade muito boa de percepção de área, de fazer gol. E a gente tem que trabalhar para que se exista mais esse tipo de jogadores no Brasil. Eu acho que a gente tem que brigar mais por esse tipo de jogador. Tentar resgatar isso. Dar menos funções a ele dentro de campo e deixar que o cognitivo, a percepção em baixo da trave prevaleça”, finaliza Eudes.

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