Camisa 10 para ela e nota 10 para o Palmeiras – STEFANY KREBS

Por Rafael Santos de Oliveira

WhatsApp Image 2020-01-11 at 19.02.02

            Muitos estudiosos afirmam que o “futebol é o que há de mais democrático no planeta” e eu concordo com essa frase, no futebol tem espaço para todo mundo, aquele seu amigo “gordinho” pode ser um bom centroavante ou um zagueiro firme que ninguém chega perto e aquele seu outro amigo baixinho que só sabe correr pode ser um lateral que você joga na frente e sabe que ele vai conseguir chegar à bola. Talvez por isso todo mundo que está assistindo um jogo consegue se imaginar dentro dele em algum momento de sua vida, quando era mais novo, mais magro e etc.

            O esporte adaptado vem para democratizar ainda mais o desporto, a Stefany Krebs é um bom elemento de estudo por inúmeros motivos que irei detalhar no decorrer do texto. Por exemplo:

  • Um deficiente adutivo pode jogar futebol?
  • Como é feita a transição do futsal para o futebol?
  • É possível chegar ao nível profissional classe livre sendo surdo?

                       Se você está aqui pela doçura ou sorriso cativante dela, saiba que dentro da quadra ela é um pesadelo para quem está jogando contra ela.

Futsal

            O início foi igual ao de qualquer menina, esse processo já foi detalhado no texto “A importância do fomento ao esporte feminino de base” que escrevi no ano passado, lá eu analisei todo esse processo de inclusão de meninas no processo misto de treino e citei algumas características de adaptação ao treino, levando em conta que ela iniciou esse processo em meados de 2004 aos seis anos, foi ainda mais fácil e teve ainda mais tempo para que ela absorvesse as informações e os professores/alunos tivessem convívio ainda maior para que o entendimento das informações tivesse o emissor e o receptor em contato direto.

            Desde cedo ela tomou uma iniciativa que eu sempre passo os meus alunos (as) fazerem igual, esteja preparada sempre e sempre esteja onde pode acontecer um jogo, a chance de alguém faltar é grande e se você estiver lá vão colocar você para jogar, no caso dela não tinha essa de escolher os jogos, ela jogava com homens desde muito cedo, isso gerou nela uma característica de jogo físico bem marcante.

            Após muitos anos de treino, jogos amistosos e competições regionais, em 2013 com apenas 15 anos ela recebeu o convite para jogar na Associação de Surdos de Balneário Camboriú, esse processo está descrito no texto “Iniciação Esportiva III – Vôos Maiores, Desafios e Hábito ao Jogo”, onde eu detalho como funciona esse processo de evolução competitiva.  Esse processo evolutivo foi muito bem feito, por que ela já apresentava características necessárias ao futsal competitivo, mas ainda faltavam algumas respostas táticas e isso foi adquirido na ASBAC que já era uma equipe adaptada ao processo de ensinar pessoas com deficiência auditiva, além disso, integrou a Seleção Brasileira de Futsal de Surdos desde o inicio.

            Vamos ao que interessa como ela era dentro de quadra… Ela atuava como fixa/ala.

       Defensivamente ela tem como ponto forte o excepcional tempo de bola para os desarmes e recuperação da posse de bola, ela tem um poder defensivo acima da média no 1×1, isso é reflexo do processo de iniciação que ela já atuava ao lado de homens mesmo tendo pouca idade, porem além de recuperar a posse de bola ela já marchava em progressão ao ataque gerando inúmeros contra-ataques ofensivos para sua equipe.

            Ofensivamente ela tem como ponto forte a boa visão de jogo, ela enquadra bem as opções ofensivas e geralmente toma as melhores decisões tanto em finalizar, fazer um passe progressivo ou fazer um passe intermediário e se apresentar como opção novamente, porem em alguns momentos ela desperdiçava situações ofensivas com uma finalização no tempo errado ou de longa distancia sem necessidade, porem isso é recorrente devido ao falta de sinalização sonora, é algo aceitável para a modalidade ou proposta de jogo da equipe.

Transição

            Essa transição foi e está sendo bem feita, a passagem pela ASBAC e pela Seleção Brasileira de Futsal de Surdos foi importantíssima para colocar ela no radar e ser vista por mais pessoas, inclusive ela colecionou inúmeros prêmios de melhor jogadora, destaque e etc.

            Desse modo quando ela migrou para o campo ela já tinha um lastro e uma representatividade no esporte, isso auxiliou muito o seu inicio, porem não é fácil à transição do futsal para o futebol, muita gente pensa que é a mesma coisa, mas isso é uma fabula que não se pode acreditar. Você potencializa as dimensões do espaço, aumenta a quantidade de pares, reduz a condição de descanso, gera novas condições táticas nunca vistas no futsal e a pior de todas, ela sozinha não chega a lugar nenhum por que é preciso à interação entre inúmeros jogadores para se chegar ao objetivo de cooperar em pró do ataque e criar oposição em pé da defesa.

            Defensivamente ela precisou mudar o seu modo de agir, anteriormente no jogo 4×4 qualquer faixa de quadra tinha cobertura, porem no 10×10 um erro pode ter a cobertura longe demais para reagir ao ataque adversário, desse modo ela teve que sair da faixa defensiva e migrar para a faixa ofensiva.

Ação defensiva reduzindo espaços sem ter a necessidade de recuperar a posse de bola.

            Atuando como meio-campista ou atacante isso gerou outro item para se debater ofensivamente, ela esta mais próxima do gol, desse modo ela terá mais oportunidades de fazer o que mais gosta que é finalizar ao gol, porem no futsal se usa muito à ponta do pé (bico) e no futebol é muito difícil finalizar dessa forma, por que a bola não tem uma direção pré-definida. Quase todos os itens citados são amplos, ou seja, um ouvinte também poderia sofrer com essas adaptações.

Ação ofensiva pela direita, finalizando e rapidamente organizando a transição defensiva.

            Agora falando sobre o que ela e outros deficientes auditivos sofreram nessa transição, a sua visão de jogo no futsal precisava identificar de duas ou três movimentações simultâneas para a tomada de decisão, enquanto isso no futebol quase todas as jogadoras se movimentam para oferecer-se e orientar-se, isso é algo complicado de adaptar por que a sinalização sonora auxilia muito, os gestos com os braços é uma saída eficaz, mas ela ainda vai estar em desvantagem em alguns pequenos casos.

            Por exemplo: Ela está em direção ao gol e tem passando ao seu lado esquerdo um lateral em profundidade com liberdade, se ela estiver com a bola em projeção não vai conseguir marchar em direção ao gol olhando para todos os lados, a sinalização sonora seria uma boa opção, mas ela não terá essa condição e isso só vai ser aperfeiçoado se o time conseguir adequar sinalizações.

            Porem no futebol existe gestos que não fazem parte do vocabulário de Libras, mas são quase universais, isso é algo que pode minimizar a falta de dialogo oral, uma possível solução seria atuar pelas laterais em amplitude para potencializar a visão periféricas, fazendo com que em suas costas esteja a parte de fora de campo, desse modo ela vai conseguir enxergar boa parte das jogadoras em campo.

WhatsApp Image 2020-01-13 at 10.12.13Visão do campo partindo do escanteio.

            Quanto mais próximo das linhas de lateral e/ou fundo ela terá maior possibilidade de fazer uma leitura de jogo eficiente e conseguir perceber os sinais ou movimentações de suas companheiras dentre campo, além disso, vai conseguir executar sua principal jogada que é avanço em busca por portador da posse de bola tentando recuperar a bola, caso consiga ela vai ter o corredor pela lateral em liberdade, diferente da região central que teria a cobertura das volantes ou zagueiras.

Conclusão

            De acordo com os treinos divulgados e imagens oficiais do clube, possivelmente ela vai atuar como meia-campista pelo lado direito de campo, flutuando entre extrema e ponta, porem atuando como segunda atacante na fase ofensiva da jogada caso seja necessário.

Ação ofensiva pela região central buscando passes em profundidade.

            Atuando pelo faixa direita de campo ela consegue dar amplitude ao time e se necessário ir ao fundo promovendo profundidade, nos momentos em que a bola estiver do lado oposto ela pode centralizar alguns metros abrindo o corredor para a lateral direita e ao mesmo tempo se aproximando do gol para a finalização rápida.

Ação ofensiva pela região central buscando a finalização.

            É uma jogadora promissora que tem tudo para dar certo no futebol, possivelmente não terá o mesmo desempenho do futsal, mas pode agregar muito a um clube como o Palmeiras que tem um elenco diversificado e qualificado, essa transição que está em andamento não vai precisar antecipar etapas, continuará sendo gradual e no futuro ela poderá ser um dos destaques e figurar em convocações para a Seleção Brasileira.

            Nós do MW Futebol apoiamos os projetos e iniciativas de inclusão social e esportiva, desejamos boa sorte a Stefany Krebs e a todos (as) que batalham e lutam por seus sonhos esportivos. Contem conosco.

@Rafinha_Esporte

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s