Libertos! ANÁLISE TÁTICA DE FLAMENGO 2 x 1 RIVER PLATE

Por Felipe Henriques

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Para analisarmos uma conquista épica, precisamos incluir o contexto de superação perante muitas derrotas traumáticas ao longo dos anos, principalmente quando o envolvido é o Flamengo na Conmebol Libertadores. Uma linha do tempo traumática e que aprisionou uma geração de torcedores em uma caverna escura e fria, distante do típico calor latino e do tradicional calor que a própria torcida tem como marca, com uma paixão profunda que pode transformar momentos adversos em vitórias épicas e inesquecíveis.

Desde o início da gestão do ex-presidente Eduardo Bandeira de Mello, o Flamengo viveu uma missão: Resgatar a sua grandeza, maculada por administrações irresponsáveis que fizeram a pesada camisa rubro-negra brigar na parte debaixo da tabela da liga nacional por seguidas vezes após o pentacampeonato de 1992. O milagre de 2005 na República de Curitiba salvou-nos do mais inevitável dos rebaixamentos e a Copa do Brasil conquistada em 2006 sobre o Vasco da Gama (e de Renato Portaluppi), foi a primeira conquista em âmbito nacional após 12 anos. A equipe treinada por Ney Franco e que contava com Renato Abreu, Renato Augusto, Léo Moura, Luizão e Obina recolocou o Mengão na Libertadores e o bicampeonato continental começava a ser um sonho rubro-negro, que virou uma dolorosa ilusão mediante os traumas.

Sim, traumas. Em 2007, uma eliminação para o Defensor/URU nas Oitavas de Final, uma fase que parecia um gigantesco e insuperável muro: Derrota por 0-3 em Montevidéu e uma insuficiente vitória por 2-0 no Maracanã, com doblete de Renato Abreu. O torcedor mal sabia que seria o primeiro, e talvez, menos doloroso dos fracassos. Pois em 2008, sucumbiríamos de uma maneira inigualável e infelizmente, inesquecível.

A equipe treinada por Joel Santana e que havia conquistado o bicampeonato estadual sobre o Botafogo com uma grande exibição do sistema ofensivo formado por Diego Tardelli, Marcinho, Renato Augusto, Souza e Obina, venceu o América/MEX por 4-2 no Estádio Azteca, porém Salvador Cabañas foi cruel. Um improvável vilão para proporcionar, talvez, o maior vexame da história do Flamengo com um 3-0 no Maracanã lotado que, a cerca de três dias, havia comemorado mais um título estadual. Joel despediu-se de forma melancólica rumo à África do Sul, anfitriã da Copa do Mundo de 2010, deixando os torcedores machucados e descrentes quanto ao futuro do clube: A festa virou luto e a ilusão do bicampeonato seguia-nos aprisionando em uma caverna.

Em 2009, o título brasileiro foi com uma reação incrível nas rodadas finais em uma equipe comandada por Andrade e liderada dentro de campo por um veterano Dejan Petkovic e com um Adriano buscando a redenção no futebol brasileiro, após problemas extra-campo na Itália. Novamente voltamos à Libertadores e a chegada de Vagner Love como principal reforço para a temporada seguinte, deixou-nos com uma sensação de que tudo seria diferente. Após eliminar o centenário Corinthians (de Ronaldo) dentro do Pacaembu (derrota por 2-1, com gol de Vágner Love, vencendo o jogo de ida por 1-0, com gol de pênalti de Adriano), finalmente estávamos entre os oito finalistas da América depois de 17 anos.

Mas, a Universidad de Chile (de Jorge Sampaoli e Walter Montillo) foi a responsável por nos afastarmos do sonho do bicampeonato e nos prendermos dentro da caverna, perdendo a ida no Maracanã (de novo, proporcionando um vexame no RJ…) por 3-2 e vencendo de forma insuficiente no Chile por 2-1, com um gol no final após conseguir a remontada de dois gols de diferença. A partir daí, demoraríamos nove anos para voltar a essa fase novamente…

Isso, porque foram três eliminações seguidas na primeira fase, em 2012 (mesmo com Ronaldinho Gaúcho e Thiago Neves na equipe), em 2014 (após conquistar o Tri da Copa do Brasil em 2013, caindo novamente no Maracanã para mais um mexicano: León, de Mauro Boselli – 3×2) e em 2017, conseguindo o feito de vencer Athletico-PR, San Lorenzo e Universidad Católica no Maracanã, mas perdendo as três fora de casa, consolidando mais um vexame com o gol de Fernando Belluschi, ao findar da partida no Nuevo Gasómetro, em Buenos Aires.

Estávamos presos em uma aparente utopia de voltar ao topo da América e lidando com seguidos fracassos, olhando para Novembro de 1981 com saudades, talvez imaginando se aquela vitória sobre o Cobreloa em Montevidéu, fosse a única vez em que estaríamos no topo do continente. Também em 2017, treinados por Reinaldo Rueda, chegamos a uma final internacional depois de 16 anos (vice-campeão da Copa Mercosul em 2001, para o San Lorenzo), porém mais uma vez ficamos longe da taça, assistindo a mais uma festa estrangeira em pleno Maracanã, com o título do Independiente de Barco, Tagliafico e Cia.

A fraca campanha na Libertadores em 2018, mesmo com duas ótimas revelações (Lucas Paquetá e Vinícius Jr) comandando a equipe, foi confirmada com a eliminação para o Cruzeiro  (de Giorgian De Arrascaeta) nas Oitavas de Final. Havíamos superado a fase de grupos mesmo com um desempenho abaixo do esperado, mas a derrota por 2-0 para os mineiros que haviam conquistado a Copa do Brasil no ano anterior sobre o rubro-negro, nos pênaltis, tornou insuficiente a vitória por 1-0 no Mineirão. Passaram-se dez anos e o Flamengo ainda estava preso em um sonho.

Paralelo a isso, o Flamengo, a partir de 2013, queria recuperar a sua grandeza e foi administrado em prol disso. Financeiramente, houve uma mudança de um time marcado pelas altas dívidas e falsas promessas nos compromissos salariais, para um modelo de excelência e sucesso fora dos gramados, fazendo contratações de peso (Como Diego e Paolo Guerrero) para voltar a competir em bom nível em nível nacional e continental.

flariv1Diego Ribas e Paolo Guerrero foram contratados para serem os protagonistas de um Flamengo que queria voltar ao topo. Imagem: Coluna do Flamengo.

Porém, as seqüentes perdas de título fizeram o torcedor perder a paciência e a “Era-Bandeira” terminou com uma sede por conquistas, marca de um time que carrega em seu hino um lema de vencer, vencer e vencer. Rodolfo Landim e Marcos Braz assumiram a direção do futebol rubro-negro com essa pressão: O Flamengo precisava, rapidamente, conquistar algo grande para romper com o estigma do fracasso. Do quase, do arame liso, do modo banana… Precisava voltar a ser Flamengo. Livre e dominante.

Abel Braga chegou e o time não embalava, mesmo com um aproveitamento positivo. Mesmo com a classificação para as Oitavas, houve uma mudança no comando técnico, pois previa-se mais um fracasso. Aliás, a troca de treinadores não garantia melhores dias, mas a escolha gerou otimismo na torcida que recebeu o português Jorge Jesus, o Mister, com carinho e abraçou a idéia de resgatar, agora dentro de campo, a grandeza rubro-negra nas competições que havia a disputar.

O lema: “Ganhar, ganhar, ganhar” e jogar “A lá Flamengo!”. Paralelo a campanha na Libertadores, uma sequência de vitórias e boas atuações no Campeonato Brasileiro rumo ao Hepta, após uma década. Se no início da temporada, Gabigol, De Arrascaeta, Rodrigo Caio e Bruno Henrique foram as grandes contratações para serem os craques de um time que queria voltar ao protagonismo nacional, Gérson, Rafinha, Filipe Luís e Pablo Marí foram reforços pontuais para fortalecer a equipe de JJ ao mais alto nível de qualidade nacional.

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O Flamengo foi dominante e multiforme com JJ, sendo vencedor, encantador e irresistível, levando muitos a compararem com o mágico e lendário time da década de 1980. Ou seja, o Flamengo finalmente havia retornado as suas triunfantes origens e em busca da liberdade ilusória,cicatrizando as feridas e curando os traumas. Dessa vez, o seu povo pediu o mundo de novo.

Contra o Emelec, em Guayaquil, a derrota por 2-0 nos colocou frente a frente com um dos responsáveis por uma das eliminações, em 2012. Mesmo muito desfalcados, as escolhas de JJ não deram certo e a saída do camisa 10 lesionado, fazendo a equipe terminar a partida com 10 jogadores em campo, fez o fantasma aparecer novamente em meio a expectativa de dias melhores, mas a nação rubro-negra comprou a briga e o time, com o coração em chamas, estava disposto a exorcizá-lo, transformando o filme de terror em superação, com contextos dramáticos. Afinal, isso é Libertadores…

Vitória por 2-0 no Maracanã, com doblete de Gabigol e com Diego Alves, vivendo uma fase contestada, sagrando-se como herói ao defender uma cobrança. Vitória por 4-2 e vaga garantida para enfrentar o Internacional, de Paolo Guerrero, nas Quartas. Para mim, pessoalmente, um adversário que me remetia a um trauma pessoal, com a eliminação no último minuto na Copa do Brasil de 2009, em Porto Alegre, com o gol de falta de Andrezinho, revelado pelo Flamengo.  É, mais um trauma  a ser superado. E foi.

Com duas atuações dominantes, vencendo por 2-0 no Maracanã com dois gols de Bruno Henrique e empatando em 1-1 no Beira-Rio, com gol salvador de Gabigol, voltamos a uma semifinal de Libertadores após 35 anos, desafogando milhões e fazendo o sonho do bicampeonato ficar mais forte e a liberdade, mais próxima. Ela estava perto, sentíamos, mesmo que o adversário da semifinal, o Grêmio de Portaluppi e Everton, fosse um fortíssimo oponente, a forma como o time se apresentava cada vez melhor, a cada partida, nos dava a sensação de que a ida para Santiago (depois, Lima) era possível, como nunca antes.

Após declarações provocadoras do técnico gremista, o Flamengo deu um show. Foi superior na partida de ida, em Porto Alegre, mesmo com o empate em 1-1 e, no Rio de Janeiro, deu ao torcedor um presente inesquecível com uma vitória que deixou claro como os fracassos ficariam para trás. O Flamengo goleou por 5-0 de uma maneira simplesmente arrasadora, com a maior atuação que eu já havia visto do Mengão em todos os meus 28 anos de vida.

Lembrem-se: A missão era resgatar a grandeza do Flamengo e torná-lo vencedor das grandes competições e, com isso, o torcedor foi confiante para Lima, mesmo cometendo loucuras financeiras para vivenciar o grande sonho do bicampeonato.

Do dia 23 de Outubro ao dia 23 de Novembro, foi um mês pensando no River Plate, equipe que havia conquistado dois dos últimos três títulos da Libertadores e, em 2018, conquistado um épico título ao vencer o maior rival, Boca Juniors, na grande decisão. Além disso, o River e o seu técnico, Marcelo Gallardo, sabiam bem a importância do resgate da grandeza e da liberdade de seu povo, por ter vivenciado isso após a trágica queda para a segunda divisão argentina.

O River era o adversário perfeito para uma conquista épica, principalmente por firmar-se como a equipe a ser batida dentro do continente. Para isso, JJ também dosou o físico do time que parecia estar no limite, fazendo o psicológico não ser afetado pelo “oba-oba” e visando o jogo mais importante da história do clube após quase 40 anos.

Para a grande final no Estádio Monumental de Lima, os dois técnicos escalaram suas equipes com o seu melhor estilo tático: O Mister escalou a equipe com um 4-2-3-1 que migrava para o 4-1-3-2, posicionando Arão como primeiro homem e deixando Gérson um pouco mais livre para formar uma segunda linha com Arrascaeta e Everton Ribeiro; Na frente, a mobilidade de Gabigol e Bruno Henrique era importante para confundir a marcação.

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Porém, em muitos momentos nos primeiros onze minutos, vimos Arrascaeta e Everton Ribeiro se movimentando muito no campo, com Everton saindo da direita para a armação central e com Arrascaeta ocupando o espaço no flanco direito e também  vindo para o meio fazer a ligação com o ataque; Porém, o foco ofensivo era o setor esquerdo, explorando a saída de Filipe Luís e a velocidade de Bruno, com um início de domínio e controle, como é costumeiro nos inícios das partidas após a chegada do técnico português.

Além de toques curtos para explorar a aproximação em um lado mais forte do ataque, a ligação direta também foi utilizada para tentar pegar a defesa argentina saindo para adiantar-se, porém a recomposição e o bom posicionamento da primeira linha do River fez com que houvesse um total de uma finalização (de Bruno Henrique, de fora da área, aos 9’) nos primeiros minutos e conseguindo neutralizar os avanços rubro-negros através do jogo físico.

Se em grandes jogos, as poucas oportunidades que, por hora, venham a surgir, não podem ser desperdiçadas, o River aproveitou a primeira que teve, aos 15’/1T, ao explorar falhas na tentativa rubro-negra de defender a sua área:

Primeiro, Arão rebate o passe de Palacios; Depois, Filipe Luís não cortou o passe de Enzo Pérez, permitindo a Ignacio Fernández avançar até o fundo pela direita e cruzar rasteiro para a área, onde Matías Suárez deixa a bola passar, com Arão e Gérson não conseguindo afastar a bola, deixando limpa para Rafael Santos Borré finalizar sem chances para Diego Alves. Falha total da defesa rubro-negra, com o River Plate deixando claro como já havia estudado muito bem como anular as deficiências rubro-negras. Destaque para como Ignacio consegue fugir da atenção da defesa, migrando da entrada da grande área para o lado direito sem ninguém acompanhá-lo.

A partir daí, o Flamengo esteve novamente diante do medo do fracasso e sentiu o peso da decisão, que ganhou contornos emocionais tão importantes quanto qualquer contexto tático ou técnico.

Emocionalmente, houve o peso de um 0-1 perante a necessidade de virar o placar em um jogo tão gigantesco para a história do clube; Taticamente, o River realizou encaixes individuais muito bem montados por Marcelo Gallardo para impedir a progressão rubro-negra e a movimentação, marca registrada do setor ofensivo de JJ; Tecnicamente, os dois contextos anteriores proporcionaram erros principalmente na saída de bola defensiva, tendo em Rafinha seu único escape para, anular as investidas do uruguaio De La Cruz e conseguir associar-se com Everton Ribeiro pela direita, muito bem acompanhado por Milton Casco.

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Na saída, Pablo Marí recebia a pressão de Rafael Borré e Rodrigo Caio, de Suárez; Enzo Pérez fechava o cadeado pelo meio, permitindo Ignacio a acompanhar as saídas de Filipe e Palacios para fechar os espaços de Gérson. Com isso, a defesa do River estava sempre preparada para marcar, individualmente, os quatro “atacantes” rubro-negros, deixando inclusive, Montiel e Lucas Martínez Quarta, posicionados para neutralizar a velocidade de Bruno. Gabigol, por sua vez, travaria um duelo particular com o experiente capitão do River, Javier Pinola.

A saída do Flamengo em 3-3 (Arão posicionado entre os dois zagueiros, Gérson recuando na linha dos dois laterais abertos) não estava funcionando e o River conseguia também marcar a linha de passe, impedindo a ligação com os homens de ataque. Não a toa, Bruno e Gabriel pouco participaram do 1T por simplesmente não haver fase construtiva, pela dificuldade do Flamengo de ter a bola em seus pés no setor ofensivo, embora houvesse posse.

Parece contraditório, mas eu explico: Ter a posse não significa que você está criando, até porque quem tem a bola em seus pés nem sempre está dominando o adversário. O River não queria ter a maior posse de bola, queria impedir o avanço rubro-negro para retomar, contra-atacar e realizar o golpe fatal, que não veio: O segundo gol. Com o 0-1, por mais difícil que o jogo estivesse, ainda era uma vantagem mínima, que poderia ser igualada se os principais homens de ataque do Flamengo conseguissem criar a jogada satisfatória.

Embora tivesse a posse, o Flamengo também passou a jogar por uma bola, para buscar o empate.

Até mesmo quando Gérson fez uma boa arrancada pela direita, aos 32’, faltou aproximação ao camisa 15. Ou seja, mostrando como a equipe estava oscilando na fase emocional e sem muita concentração, com o próprio Filipe Luís, um dos mais experientes, demonstrava que a questão psicológica estava pesando.

Entretanto, devemos elogiar as boas partidas de Rodrigo Caio, Pablo Marí e Rafinha defensivamente. Caio, aliás, venceu 10/12 duelos na partida, um leão na proteção à área. Marí, por sua vez, também não ficou atrás no aproveitamento, vencendo 4/6 e realizando uma partida segura, mostrando a força da dupla de zaga rubro-negra.

O primeiro tempo em Lima me lembrou bastante a dificuldade que a equipe enfrentou contra o bom time do Bahia, no Maracanã, na vitória de virada por 3-1. O time treinado por Roger Machado conseguiu realizar encaixes que limitavam a criação rubro-negra até um certo ponto, permitindo Arthur e Élber a terem espaços para avançar em velocidade nas costas dos laterais, para encontrar Gilberto no comando ofensivo.

No 2T, ao recuperar o domínio do meio-campo, abrir Gabriel e Bruno Henrique para prender os laterais adversários e colocar Renier centralizado para atacar a bola entre os zagueiros, o Flamengo fez um ótimo 2T para conseguir a remontada.

Já na segunda etapa na capital peruana, o remate de Gabriel da entrada da área para a fácil defesa de Armani, logo aos 2’/2T, o Flamengo mostrava uma vontade de mudar a atitude da equipe e buscar o ataque com mais ímpeto, embora isso não fosse o único requerimento para buscar a reação. Era necessário criar e, para isso, Everton Ribeiro foi fundamental.

Buscando movimentar-se por todo o campo, Everton foi crucial para criar espaços para os atacantes do Fla, com todas as jogadas passando pelo armador. Ainda assim, o River controlou boa parte do 2T e mantendo a posse no campo ofensivo, ganhando jardas como se fosse uma partida da NFL.

A segunda etapa também foi marcada pelo nervosismo. Palacios perdeu uma chance perigosíssima para ampliar, enquanto Gabigol e Everton Ribeiro também desperdiçavam a grande chance rubro-negra até então, após jogada de Bruno Henrique pela esquerda.

Se existe trauma, existe nervosismo a flor da pele, ainda mais quando uma de suas principais engrenagens, Gérson, sente uma lesão e é substituído. Tensão, apreensão, porém também, curiosidade. Quem entrara em seu lugar? Diego, o mesmo que, nas Oitavas de Final, havia saído devido a uma fratura no tornozelo e, em tempo recorde, voltou aos gramados.

Diego é um capítulo a parte, mas foi fundamental para que o Flamengo voltasse ao jogo mesmo com o adversário sendo superior. Diego ditou o ritmo do jogo, mas não cadenciando, mas acelerando e acionando Everton, Arrascaeta e Bruno Henrique no último terço. Com a saída de Arão para a entrada de Vitinho, Diego foi O meio-campo rubro-negro, no sentido singular mesmo. Se não foi o camisa 10 que a torcida merece, foi um camisa 10 que a partida precisava.

Outro fator é a questão física do River, provando a tese de que ninguém consegue segurar o Flamengo de JJ por 90 minutos com tanta intensidade. Os encaixes afrouxaram e o domínio do meio-campo foi se perdendo, gerando cada vez mais espaços para os ataques rubro-negros. Some a isso, as substituições infelizes de Marcelo Gallardo, tirando os dois melhores jogadores ofensivos da equipe argentina na partida, Ignacio e Borré, para as entradas de Álvarez e de Lucas Pratto completamente sem o ritmo necessário para produzir algo na partida, principalmente com suas decisões ruins.

flariv5Imagem que ilustra como a marcação do River arriou após a metade do segundo tempo: Espaços para avanços de Bruno e Gabriel em velocidade. Imagem: Instat.

Com o novo contexto no 2T, o Flamengo cresceu e foi com tudo para tentar a virada. Aí, aparece o personagem decisivo que tanto faltou ao Flamengo nas últimas participações em Libertadores, um cara para ser o herói da liberdade rubro-negra.

Gabigol estava sendo muito bem anulado pelo experiente e limitado Javier Pinola durante 89 minutos. Mas uma partida de futebol tem, no mínimo, 90, podendo ter, no máximo, 94. Em três minutos, Gabriel foi o artilheiro que o lendário time da década de 80 tinha e chamava de Nunes, o artilheiro das decisões.

Bruno Henrique recebeu de Arrascaeta, após o uruguaio roubar a bola de Lucas Pratto (como roubou de Sarrafiore contra o Inter, no Beira-Rio), o camisa 27 prendeu a bola, fez uma linda jogada mesmo cercado por quatro marcadores e serviu novamente o meia-atacante uruguaio, que, simplificando um problema, fez um passe de carrinho para Gabigol, atrás da linha da bola, completar para o gol vazio.

Desafogo, alívio e uma chama que novamente estava acesa: A América estava a um gol de ser rubro-negra e a prorrogação estava às portas para, após colocar a cabeça no lugar, buscar a virada rumo ao título. Já que falamos de traumas, Jorge Jesus perdeu um Campeonato Português para o Porto e duas Ligas Europa com gols nos últimos minutos; Filipe Luis havia perdido uma UCL para o Real Madrid, na temporada 2013/14, com o famoso gol de Sergio Ramos no minuto 93 dando o empate para os merengues, conquistarem “La décima” com o passeio na prorrogação perante um extenuado Atletico.

Mas de forma mágica, o destino nos proporcionava uma inesquecível liberdade, com Pinola falhando após não conseguir cortar o “lançamento” de Diego e a bola ficando na medida para o artilheiro. Nunca seria tão épico, aposto que nem os irmãos Russo conseguiriam transformar um drama em tamanho enredo Shakespeariano.

O minuto 92 imortalizou Gabriel Barbosa, para sempre, entre os maiores ídolos da história do Flamengo. Um time que sofreu com traumas e que parecia preso em cavernas de fracasso e desilusão, lembrando de 1981 como um ano que por vezes pareceu impossível de repetir o feito de chegar ao topo do continente.

Gerações de torcedores, de quem viu Zico & Cia a quem só viu Bruno, Arrascaeta e Gabigol, de quem acompanhou todos os fracassos em Libertadores aos mais novos, idosos, jovens, crianças… Todos, libertos.

@Narrador_Felipe

 

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