Uma conquista para valorizar a escola dos goleiros brasileiros – Alisson Becker eleito Melhor Goleiro do Mundo!

Por Rafael Maciel

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O Brasil sempre foi reconhecido por sua capacidade de formar talentos criativos e decisivos, com forte ímpeto ofensivo, sempre pautados na habilidade e capacidade de improviso. Mas isso não significa que nosso país não tenha produzido grandes defensores, ou ainda mais além, que não tenha produzido grandes goleiros.

Passando por Barbosa, Castilho, Gylmar, Manga, Félix, Leão, Waldir Perez, Taffarel, Zetti, Rogério Ceni, Marcos, Dida, Júlio César, muitos destes nomes se consolidaram como grandes goleiros além das fronteiras brasileiras, porém são poucos goleiros brasileiros que realmente conseguem se destacar no cenário europeu.

  • Pioneirismo e Irreverência na Europa – Jaguaré

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Tudo iniciou com Jaguaré, folclórico goleiro do Vasco da década de 30 que se tornou o primeiro goleiro brasileiro à defender o Barcelona (primeiro com destaque na Europa) em 1931. Um excepcional goleiro que fazia malabarismos para defender e para entreter o público, muitas vezes driblando ou devolvendo a bola para os atacantes adversários para provoca-los. Após uma temporada no Barcelona, voltou para o Brasil para defender o Corinthians.

Após se destacar pela equipe paulista, Jaguaré é contratado pelo Olympique de Marseille onde faz história. Campeão Francês e da Copa da França com o clube, “Le Jaguar”se torna ídolo por suas defesas acrobáticas (chegou à defender um chute de bicicleta) e por suas inovações dentro de campo. Na conquista da Copa da França em 1938, no jogo final diante do Metz, enquanto o Olympique perdia por 1×0, Jaguaré pediu para bater uma penalidade e converteu com maestria (para espanto de todos). No final da partida ainda defendeu uma penalidade.

Ao voltar para o Brasil, Jaguaré inova ao se tornar o primeiro goleiro brasileiro à jogar de luvas.

Apesar de ter se destacado em território francês, o público europeu não era adepto a improvisos o que de certa forma acabou prejudicando o goleiro a ter uma carreira mais longeva na Europa.

  • Abertura de Mercado na era Profissional – Taffarel

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Goleiro fenômeno nas categorias de base do Inter e da Seleção Brasileira alcançou a titularidade no clube gaúcho aos 19 anos em 1985, permanecendo no posto de titular até 1990. Foi duas vezes consecutiva eleito o melhor goleiro do Campeonato Brasileiro, além de ter sido Bola de Ouro do campeonato de 1988. Atuado pelo próprio Inter, foi o primeiro goleiro sul-americano à figurar no Top 10 da premiação de melhores goleiros do mundo (IFFHS/FIFA), ficando em 7º em 1989. No ano seguinte, ainda devido às atuações pelo Inter, alcançou o 5º lugar na premiação.

Em 1990, aos 24 anos, Taffarel foi contratado pelo Parma por US$1,6 milhões. O goleiro abriu um mercado não só para os goleiros brasileiros, mas também para todos os goleiros estrangeiros na Itália, pois não havia registros de goleiros estrangeiros atuando na primeira divisão italiana.

Em 1991, Taffarel alcançou a 3º colocação (atrás de Zenga e Goycochea) na premiação de Melhor Goleiro do mundo e em 1992 ficou novamente na 7º posição. Emprestado para o recém promovidoReggiana para a temporada 93/94, onde o goleiro fez uma das suas melhores temporadas na Itália, sendo fundamental na manutenção da equipe na primeira divisão. Graças à estas atuações, Taffarel conseguiu manter sua titularidade na seleção brasileira que seria tetracampeã mundial em 1994.

Após grande Copa do Mundo, Taffarel volta à figurar no pódio dos melhores goleiros do mundo, ficando em 3º, atrás de Preud’homme e Ravelli.

Após sua boa passagem pelo Atlético MG (onde ficou em 9º na premiação de melhor do mundo), Taffarel vai para a Turquia novamente para fazer história e auxiliar o Galatasaray a conquistar dois campeonatos turcos, duas copas da Turquia, uma liga Europa e uma Supercopa Europeia. Em 1998 e 2000, Taffarel figurou na 7º colocação, encerrando assim, seu ciclo entre os melhores goleiros do mundo.

Ou seja, um dos maiores goleiros brasileiros de todos os tempos (tanto tecnicamente, quanto em grandeza das conquistas), no máximo só alcançou a 3º colocação entre os melhores goleiros do mundo. A concorrência era pesada contra o goleiro brasileiro, basta ver o nome dos goleiros eleitos entre os períodos que Taffarel disputou a premiação: Rinat Dasayev, Walter Zenga, Peter Schmeichel, Michel Preud’homme, José LuisChilavert, Andreas Köpke, Oliver Kahn e FabienBarthez.

  • Goleiros Vencedores da Champions League – Dida e Júlio César

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Dida surgiu muito bem no Vitória em 1993, tendo sido eleito o melhor goleiro do campeonato brasileiro aos 20 anos. Logo depois, foi vendido ao Cruzeiro, colecionando grandes títulos e excelentes atuações. O Milan o contratou e emprestou o goleiro para o Corinthians, para adquirir ritmo de jogo. Dida fez muito mais do que isso, o goleiro foi peça fundamental da equipe paulista na conquista dos títulos do Campeonato Brasileiro 1999, Mundial de Clubes 2000, Copa do Brasil 2002 e Rio-São Paulo 2002.

Após um novo empréstimo ao Corinthians, Dida finalmente se consolidou no Milan e foi protagonista na decisão por pênaltis na conquista da ChampionsLeague diante da Juventus, onde defendeu três penalidades. Se tornou o primeiro goleiro brasileiro à conquistar o torneio de clubes mais cobiçado do mundo.

Neste meio tempo, Dida já havia sido eleito 9º melhor goleiro do mundo (em 1999 quando defendia o Corinthians) e após a conquista da ChampionsLeague 2002-2003, Dida permaneceu 5 anos consecutivos entre os 10 melhores goleiros do mundo, ficando respectivamente em 4º (2003), 3º (2004), 2º (2005), 8º (2006) e 6º (2007).

Em 2007, Dida conseguiu se tornar bicampeão da ChampionsLeague, quando também defendia o Milan. O goleiro tinha estatura, agilidade e uma frieza que lhe permitia crescer ainda mais em momentos decisivos.

Ao todo, Dida disputou 8 Ligas dos Campeões, vencendo 2 vezes, disputando 72 jogos, sofrendo 56 gols (0,78 por jogo) e permanecendo 35 jogos sem sofrer gols (49%).

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Júlio César formado na Gávea, assumiu a titularidade do Flamengo em 2000, quando tinha apenas 21 anos. Júlio foi vendido somente em 2005 para a Inter de Milão, se tornando assim o 3º goleiro que mais defendeu o Rubro-Negro carioca.

Porém a Inter o emprestou para o Chievo, onde não teve oportunidades para jogar. Já na temporada 2005/2006, Júlio assumiu a titularidade dos nerazzurri e conseguiu emplacar boas atuações. Em 2007 o goleiro ficou pela primeira vez entre os 10 melhores do mundo, ficando na 9º colocação. À cada temporada Júlio se consolidava mais na Itália, amadurecendo e evoluindo rapidamente. Em 2008 fora eleito o 7º melhor do mundo e em 2009 atingiu a 3º colocação (ficando atrás somente de Casillas e Buffon).

Os anos de 2009 e 2010 foram mágicos na carreira do goleiro brasileiro, onde o goleiro disputava o título de melhor goleiro do mundo com Van der Sar, Buffon, Casillas, Cech e Neuer. Em 2010 para coroar suas atuações, foi campeão da ChampionsLeague, tendo um excelente desempenho na final diante do Bayern de Munique.

Naquele ano, Júlio igualou o feito de Dida, que em 2005 ficou na 2º colocação como melhor goleiro do mundo. Júlio acabou perdendo a premiação para IkerCasillas, que fez história com a Espanha que acabara de ser campeã mundial. Em 2011 Júlio ainda se manteve no Top 10, ficando na 8º colocação. Júlio também emplacou 5 nomeações consecutivas entre os 10 melhores do mundo, assim como Dida.

Júlio disputou 11 Ligas dos Campeões, venceu uma, disputou 64 jogos, sofreu 75 gols (1,17 por jogo) e ficou 22 jogos sem sofrer gols (34%).

Dida e Júlio César representavam os goleiros brasileiros que atingiram o maior sucesso na Europa, mas de qualquer modo, não conseguiram trazer o posto de MELHOR GOLEIRO DO MUNDO para o Brasil.

  • Outsiders – Menção à outros goleiros que se destacaram fora do Brasil

Após Jaguaré na década de 30, o próximo goleiro à realmente se destacar atuando fora do Brasil foi Manga (Haílton Corrêa de Arruda), que saiu do Botafogo para fazer história no Nacional do Uruguai, vencendo a Libertadores e o Mundial de Clubes de 1971. Além disso o goleiro foi campeão equatoriano no final de carreira, pelo Barcelona de Guayaquil.

Doni (Roma e Liverpool), Gomes (PSV, Tottenham, Hoffenheim e Watford) e Diego Alves (Alavés e Valência) são exemplos de goleiros que fizeram boa carreira na Europa mas não conseguiram se firmar entre os melhores do mundo. Neto (Fiorentina, Juventus, Valencia e Barcelona) ainda se mantém na Europa, em altíssimo nível.

Renan (que saiu do Inter para o Valência em 2008), Diego Cavalieri (Liverpool, Cesena e Crystal Palace), Rafael Cabral (que saiu do Santos para o Napoli em 2013) e Cássio (PSV e Sparta Rotterdam) são exemplos de goleiros que atuaram na Europa mas não conseguiram alcançar tanto destaque.

Rogério Ceni foi especulado pelo La Coruña aparentemente pelo Manchester United (não confirmado), mas isso não impediu o goleiro de ser lembrado como um dos melhores do mundo. Entre 2005 e 2007, o goleiro figurou entre os 10 melhores do mundo, ficando na 9º, 6º e 5º colocação, respectivamente.

Marcos, goleiro titular e fundamental na conquista do pentacampeonato mundial também foi sondado pela Europa, mas rejeitou a proposta do Arsenal para ajudar o Palmeiras que tinha acabado de ser rebaixado para a segunda divisão. Em 2002, Marcos foi eleito o 4º melhor goleiro do mundo.

Cássio em 2012, após fazer excelente temporada pelo Corinthians também figurou entre os 10 melhores do mundo (7º).

Depois disso, foi somente em 2017, quando Alisson Becker ficou na 9º colocação, que o Brasil voltou a ter um goleiro aparecendo entre os 10 melhores do mundo. Em 2018, Alisson ficou em 7º e Ederson na 13º colocação.

Até a premiação de 2019, estes eram os goleiros nomeados entre os melhores do mundo:

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  • Coroação da Escola de Goleiros

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No dia 23 de Setembro de 2019, Alisson Becker foi eleito o melhor goleiro do mundo, após ficar em 9º e 7º nos anos anteriores.

O goleiro foi protagonista em uma equipe que conseguiu equilibrar de forma rara o poder ofensivo com a solidez defensiva. Ao lado do zagueiro Van Dijk, foram responsáveis direitos para que a equipe do Liverpool sofresse somente 38 gols nos 53 jogos disputados na temporada 2018/2019.

Com notória capacidade técnica e explosão para realização de defesas 1×1, Alisson se destacou muito por seu posicionamento (que acaba transparecendo que suas defesas são mais “fáceis”) e por sua capacidade de participar das construções ofensivas da equipe de Klopp com suas reposições e protegendo às costas da linha defensiva do Liverpool.

WhatsApp Image 2019-09-25 at 09.26.34Fechamento da Temporada de Alisson (Até Julho/2019). Faltou contabilizar ainda a premiação de Melhor Goleiro da UEFA, goleiro da Seleção da FIFPro e melhor goleiro do Mundo – FIFA THE BEST

Contabilizando os jogos pela seleção brasileira, Alisson disputou 64 jogos na temporada, onde sofreu 37 gols (0,58 por jogo), realizou 167 defesas (2,61 por jogo) e permanecendo 37 jogos sem sofrer gols (58%). Além disso, terminou a temporada com incríveis 82% de aproveitamento de defesa, das finalizações sofridas que iam em direção ao gol.

Se tornou o 3º goleiro campeão da ChampionsLeague e conquistou o título da Copa América pela seleção (que não conquistava desde 2007).

Como premiação individual, ganhou o Golden Glove (goleiro com mais jogos sem sofrer gols na PremierLeague), melhor goleiro da ChampionsLeague, melhor goleiro da Copa América e melhor goleiro da temporada europeia. Alisson também foi eleito para a seleção do ano da FIFA, assim como Dida em 2005 (até então o mais próximo prêmio de Melhor Goleiro do Mundo dado à um brasileiro).

Esta conquista não veio por acaso, desde sua primeira temporada como titular na Europa (2017/18), Alisson apresentou um alto rendimento e uma elevada taxa de evolução. Nessa sua primeira temporada, quando ainda defendida a Roma, foi eleito o melhor goleiro do Campeonato Italiano (desbancando Buffon) e melhor goleiro do mundo por outras premiações (Goal 50 e Globe Soccer Awards).

Ao ser nomeado no prêmio FIFA THE BEST GOALKEEPER, Alisson fez história e reparou uma dívida histórica para os goleiros brasileiros. Vale lembrar que esta é somente foi sua 3º temporada na Europa, sendo somente sua 2º como titular!

Alisson não conquistou esse título sozinho: deve aos seus companheiros de Liverpool, à Van Dijk, à Klopp, à Roma, ao Inter, à Daniel Pavan (um dos melhores preparadores de Goleiros do Brasil), à Muriel (irmão mais velho de Alisson que serviu de inspiração) e à Taffarel (maior ídolo de Alisson e que é o treinador do goleiro na seleção desde 2015).

Ficamos na torcida para que o goleiro se consolide ainda mais entre os gigantes da posição, mantendo sua evolução e excelentes desempenhos, tanto pelo Liverpool quanto pela Seleção Brasileira! O goleiro ainda não completou 27 anos e por sua posição ter uma vida útil elevada, podemos esperar que o goleiro se mantenha em alto nível por um bom tempo!

Que saibamos valorizar essa conquista! Que possamos valorizar mais a posição de goleiro! Que possamos valorizar mais a escola brasileira de goleiros! Que possamos valorizar ainda mais a ESCOLA BRASILEIRA DE GOLEIROS!

Por fim, ficamos com uma breve relação dos goleiros de diversas características que o Brasil já formou (pequena lista, que deveria conter muitos outros nomes):

  • Lendários: Castilho, Lara, Barbosa, Gylmar, Manga.
  • Técnicos: Leão, Taffarel, Zetti, Dida.
  • Ágeis: Waldir Perez, Félix, Marcos, Júlio César.
  • Habilidade com os Pés: Jaguaré, Rogério Ceni.

@rafaellomaciel

 

 

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