O Show de Abraham – ANÁLISE TÁTICA WOLVERHAMPTON 2×5 CHELSEA

Por Felipe Henriques

WhatsApp Image 2019-06-28 at 13.46.14

Após o empate diante do Sheffield United por 3-3 depois de abrir 3-0 dentro de Stamford Bridge, era nítida a necessidade de uma mudança para fortalecer um sistema defensivo  frágil e uma estratégia deficitária, embora interessante, que apresentava instabilidade devido a oscilação nos dois tempos de jogo. Para enfrentar os lobos no Molineux Stadium, a atuação precisava ser de alto nível para vencer um time que demonstrava toda a organização desejada por Frank Lampard para os Blues.

Para isso, Lampard mudou. Foi corajoso ao migrar do 4-2-3-1 para o 3-4-3 e promovendo a entrada de mais um garoto: Finkayo Tomori, emprestado ao Derby County na última temporada e que havia trabalhado com o atual técnico do Chelsea, além do retorno de Antonio Rudiger para fortalecer um sistema defensivo que sofreu com a insegurança de Kurt Zouma no início da temporada e que acabou indo para a reserva.

scre

Quem também retornava ao onze inicial era o lateral espanhol Marcos Alonso, além do brasileiro Willian. Com isso, Pedro e Pulisic também foram para o banco. Kanté, longe de sua forma ideal e Emerson, que se lesionou durante a Data FIFA, foram os desfalques.

Porém, você pode até pensar: 3-4-3 não é um esquema novo no Chelsea, então qual a novidade de Lampard? Verdade. Antonio Conte utilizou esse esquema na temporada 2016-17, quando foi campeão no time que contava com Diego Costa, Hazard & Cia. Oh, saudade?

Se Drogba e Diego Costa foram os últimos centroavantes que foram artilheiros com a camisa dos Blues, existia também a tal “maldição da camisa 9” do Chelsea que castiga o seu dono desde Hernán Crespo até Fernando Torres e Álvaro Morata. Porém, Tammy Abraham, garoto da base e que havia feito uma temporada espetacular no Aston Villa, se candidatava a um herdeiro que aniquilasse a maldição e fosse o símbolo de uma nova geração em Stamford Bridge.

Abraham é um centroavante que gosta de sair da área e participar da fase construtiva, mostrando mobilidade, uma boa técnica para domínio, inteligência para ocupar bem os espaços e ser disciplinado taticamente, um bom jogo aéreo, boa capacidade de finalização de média distância… Argumentos que poderiam justificar uma expectativa alta para um jogador promissor.

O seu mapa de calor mostra bem como Abraham se movimenta muito pelo campo, sendo muito participativo durante os 90 minutos. Inquieto, não se conforma em receber a bola em condições de finalizar, pois sabe que também é importante abrir espaços para seus companheiros terem condições de rematar a gol. Abraham parece ser muito mais experiente do que realmente é.

scre

Logo no início da partida, Nuno Espírito Santo já mandou seus homens pressionarem a saída de bola do Chelsea na tentativa de sufocar, forçar o erro, retomar mais próximo ao gol e ter mais chances de abrir o placar. Com isso, a saída dos leões estava comprometida com os encaixes individuais e com Jorginho e Kovacic neutralizados pelo meio. Foi um início complicado que obrigou os comandados de Lampard optarem pela bola longa nos primeiros minutos.

scre

A partir dos 12’, o Wolverhampton desceu suas linhas e ocupou mais o seu próprio campo para impedir a progressão e a fluidez do jogo do Chelsea. Resultado? A bola voltava sempre nos três zagueiros por não conseguir o domínio territorial no ataque, já que os meias estavam bem marcados e, por dentro, não havia a possibilidade de ditar o ritmo do jogo, obrigado Mount e Willian a voltar para buscar o jogo e, mesmo assim, não conseguirem gerar triangulações.

Mesmo com 60% de posse contra um time defensivamente organizado, o Chelsea contou com os desequilíbrios para abrir o placar.Aliás, com um inesperado desequilíbrio no golaço de Tomori da entrada da área, pegando um belo chute colocado de pé direito e mandando no ângulo de Rui Patrício, aproveitando a sobra após a jogada de Mount pela direita aos 31’.

Se em todo show temos uma banda cover (ou iniciante) que abre os trabalhos para não deixar a platéia ser dominada pelo tédio, podemos dizer que o golaço de Tomori foi uma matinê de altíssimo nível para “The Greatest Show” de Abraham que começou poucos minutos depois, sem muita enrolação.

Logo aos 33’, Tomori avançou pela meia esquerda, invadiu a área e serviu Mount, que dominou, cortou a marcação e ainda gerou a condição de “mano a mano” de Abraham com o seu marcador, possibilitando o giro e o primeiro gol no Molineux Stadium. Aliás, vale dizer que Tomori já havia feito uma jogada parecida aos 9’ do 1T, o que até gerou uma certa mudança de pressão dos lobos, diminuindo suas linhas e ocupando mais o seu campo.

scre

O que os dois gols do Chelsea mudaram na partida? Simples. Os lobos foram pra cima e requereram o direito de ter a bola e atacar, com os Blues descendo suas linhas e marcando em bloco baixo, apostando nas transições com seus wingers. Dessa forma, aos 40’, William puxou um belo contra-ataque pela direita e cruzou para Abraham. Após o corte da defesa, Alonso fez um cruzamento na medida para Tammy cabecear e marcar seu segundo no jogo.

Nesse lance, chama a atenção à velocidade imprimida por Willian e Abraham no contra-ataque, um como criador e outro como definidor da jogada, com a projeção correta para que a transição fosse perfeita. Defensivamente, o Chelsea se posicionou até mesmo em um 5-4-1, deixando Abraham mais a frente e com Mount e William formando a segunda linha com Kova e Jorginho.

A única finalização do Wolverhampton no 1T foi após o lindo drible seguido de cruzamento de Traoré que Raúl Jiménez cabeceou por cima já nos acréscimos. O Chelsea soube usar a posse que teve para se defender melhor e não sofrer sustos contra um ataque físico e que conta com a velocidade de pontas que sabem aproveitar os espaços que eventualmente possam surgir.

Na segunda etapa, com a entrada de Cutrone no lugar de Dendocker, os lobos migraram do 3-5-2 para o 3-4-3, com Cutrone, Jota e Jiménez formando o trio ofensivo, com Traoré e Jonny Castro nas alas e com Ruben Neves e João Moutinho formando a dupla de meio-campistas.

Porém, o Chelsea seguiu letal nas transições. Dessa forma, Jorginho fez um lindo lançamento para Abraham na entrada da área, que deixou Conor Coady falando sozinho e bateu cruzado rasteiro para chegar ao seu primeiro hat-trick com a camisa do Chelsea, aos 10’/2T. Quando Jorginho tem espaço para pensar o jogo, torna-se um perigo devido a sua capacidade de visão de jogo e técnica para efetuar a jogada da melhor maneira possível.

Aliás, tem sido interessante ver como Lampard tem usado Jorginho como um pensador na fase construtiva, além de ser sempre o cara na base da jogada que permite a progressão de Kovacic no auxílio a Mount pelo lado esquerdo. Porém, diferente dos tempos de Sarri, Frank vem tentando encontrar outras formas de potencializar a construção da equipe como um todo sem depender do ítalo-brasileiro. Mais um cara importante para o sucesso do Show de Abraham.

Ajude a melhorar nossas análises táticas! Contribua com o MW Futebol e ajude a manter o acesso gratuito aos nossos textos.

R$10,00

É verdade que, com a queda de intensidade e concentração na parte defensiva, o Chelsea ainda viu a goleada de 4-0 diminuir para 4-2 com os gols de Cutrone e de Abraham. Sim, Abraham estava tão inspirado que marcou até gol contra… Comprovando a tese de que nenhum show é perfeito, só do Roupa Nova.

Por citar a lendária banda carioca, não podemos ignorar o fato de Mason Mount ter mandado um verdadeiro “Do You Wanna Dance” pra cima de Jesús Vallejo no belo gol que fechou o placar aos 50’/2T, chamando a atenção para sua personalidade e sua capacidade de pisar na área e finalizar sempre com perigo. Até aqui, são três gols do camisa 19 e sete de Abraham, artilheiro da Premier League até aqui, ao lado de Sergio Aguero.

Uma bela apresentação de Abraham, Lampard, Mount, Tomori & seus bluecaps.

@Lipe_Henry

Anúncios

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s