Marco Giampaolo e a sinfonia que toca sempre no mesmo ritmo – ANÁLISE TÁTICA DO NOVO TREINADOR DO MILAN (PARTE II)

Por Ítalo Amorim

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Como a primeira parte foi mais introdutória, nessa aprofundaremos mais nos trabalhos recentes de Marco, além de pontuar uma expectativa no Milan.

Sampdoria: temporadas 16/17 – 18/19

Talvez nesse ponto o título seja injusto, Giampaolo precisou alternar alguns conceitos para render mais em um novo ambiente. Antes repondo Sarri e agora repondo o Montella, os conceitos básicos se mantiveram, mas as variações do time mudaram consideravelmente (e era preciso entender isso tanto no momento defensivo quanto ofensivo).

 TRANSIÇÃO OFENSIVA:

Como foi dito, uma das características do treinador no Empoli eram os passes sempre rápidos no terço inicial da jogada, evitando assim uma perda de bola na base da jogada.

Bom, sua mudança de ares trouxe uma alteração nisso e acabou consagrando alguns atacantes (D. Zapata e Quagliarella são exemplos disso). O time passou a ter liberdade para verticalizar o passe já com os defensores (caso não tivesse espaço a bola ia nos laterais e esses buscavam o homem-central, assim como era no Empoli), o que tornou o índice de passes errados maior, porém facilitou muito a aproximação da linha de ataque (seja com o Duván Zapata escapando como flecha na temporada 17/18 ou com o Fabio Quagliarella aproximando como arco na temporada 18/19).

Além disso, houve uma mudança expressiva no posicionamento ofensivo: antes altamente posicional, o time passou a se comportar mais em uma variação entreo modelo funcional (a diferença de conceitos pode ser vista nesse texto sobre o Flamengo no próprio site do MW.) E um híbrido entre essas ideias, sendo posicional/funcional conforme o adversário.

Onde isso implica? Com mais jogadores no setor da bola, o time de Giampaolo se tornava consideravelmente mais agressivo e ainda permitia infiltrações no lado oposto. Posse, superioridade quantitativa e infiltração no lado oposto, isso define bem a passagem de Marco pela Sampdoria.

WhatsApp Image 2019-08-23 at 23.43.39Foto/Edição: Captura de tela retirada da internet/Ítalo Amorim.

Na imagem é possível ver a representação dessa ideia, deixando claro também outra característica de Marco: variar posições. Praet, que começou o jogo como regista (conforme a imagem), terminou a partida como mezzalaofensivo ao lado do Linetty. Variações posicionais como essa se tornaram comum na passagem de Giampaolo na Sampdoria.

MODELO BASE:

WhatsApp Image 2019-08-23 at 23.43.59Time base da temporada 16/17.
WhatsApp Image 2019-08-23 at 23.44.08Time base da temporada 18/19.

Por esses dois times bases podemos ver duas coisas: Marco demonstrou ter homens de sua confiança (nomes que aparecem tanto no Empoli quanto na Sampdoria) e ter uma estrutura (4-3-1-2) fixa na cabeça.

O conceito central (aproximar linhas, abrir o time adversário, ter sempre a posse e variar as funções dos atacantes) se mantinha, mas era possível que variantes (passar a verticalizar o passe na base, ter maior participação com bola dos laterais no momento ofensivo, entre outras coisas) sofressem alteração.

MODELO DE ATAQUE:

Como o time mudou seu conceito ofensivo, cravar como a Sampdoria de Giampaolo se portava ofensivamente seria um erro da minha parte. A equipe conservava ideias do Empoli mas essas eram bem variadas, como já foi dito.

Tendo em vista isso, tomarei como base o confronto entra Sampdoria e Juventus nessa temporada para exprimir um dos modelos de ataque. Nesse confronto a Sampdoria venceu por 2-0 e utilizou de construções híbridas para furar a defesa ‘bianconera’.

  • Construção dentro do modelo posicional:

Laterais em amplitude, linha de ataque rente ao comando ofensivo e os centrais se posicionando para facilitar triangulações (nesse ponto abrirei parêntese para três nomenclaturas utilizadas no vocabulário futebolístico italiano: o “volante” do modelo – representado por Torreira e Ekdal – é nomeado como regista, os meias mais abertos – representados por Praet/Barreto e por Linetty/Praet – são nomeados de mezzalase o “meia-atacante” –representado por Bruno Fernandes e G. Ramírez – é nomeado de trequartista. Se for do interesse da maioria, em outro texto posso me aprofundar nessa nomenclatura, porém esse parêntese foi necessário para entendimento do restante do texto).

Com essa formatação pré-estabelecida a Sampdoria ganhava terreno e abria o time adversário, chegando ao ataque com superioridade numérica.

  • Finalização dentro do modelo funcional:

Time concentrado no lado da posse e o corredor oposto sendo oferecido para infiltração do mezzala oposto ou do lateral. O trequartista é o que mais se aproximava da bola (como era no Empoli com Saponara) porém dessa vez não era o único, o atacante e o mezzala do seu lado o acompanhavam.

MODELO DE DEFESA:

A 2-4-4 que antes era mutável para o estilo do adversário tornou-se mais fixa, o time aperta os corredores conforme o ritmo da bola, mas não muda o seu conjunto base (apenas otrequartista, que fica sempre no lado que está a bola).

Isso dificulta o jogo de adversários que exploram bastante o corredor (caso do jogo acima contra a Juventus) mas oferece o passe vertical aos times com bons homens centrais. Estruturalmente seria (adversário saindo pelo lado direito da defesa):

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Marco & Milão:

Trazendo para Milão vemos alguns buracos entre ideia e elenco, buracos esses que não devem ser problema quando partimos para a sua apresentação:

“ (…) preciso falar com todos os jogadores e cortar o terno mais adequado ao seu tamanho. Eles precisam conhecer suas características, tanto técnicas quanto comportamentais.”

Com “cortar o terno mais adequado ao seu tamanho”, Marco provavelmente quer passar a ideia que seu modelo irá se moldar perante ao coletivo e não o inverso. Óbvio que os conceitos básicos citados lá em cima serão mantidos, assim como a 4-3-1-2, mas as variações da sua ideia devem sofrer novas alterações (assim como foi na mudança do Empoli para a Sampdoria).

Pensar em um XI ideal hoje é arriscado, a pré-temporada trouxe um bom ‘norte’ para algumas peças (o Suso de trequartista é um bom exemplo disso) mas o elenco ainda tem algumas lacunas para a ideia do novo comandante do barco rossonero. Vejamos:

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  Vale ponderar que esse XI traz consigo uns pontos:

  1. Jogadores marcados com asterisco (*) podem sair até o final da janela;
  2. Alguns atletas que ainda estão no elenco (como oLaxalt) ou foram promovidos da base (como o Gabbia) possuem situação indefinida, então podem aparecer nesse elenco posteriormente;
  3. Suso nunca atuou como segundo atacante, no máximo um MAD (meia aberto pela direita, nem tão aberto como um ala e nem tão avançado como um ponta). Seria uma mudança de função em cima do espanhol que se estabilizou como PD;
  4. Mesmo Bonaventura sendo o mezzala mais “clássico” do elenco, as lesões recentes e a falta de ritmo me fazem crer que inicialmente não o veremos começando partidas, por isso o Lucas Paquetá e o Kessié aparecem como titular. Paquetá esse que deve perder a função de trequartista para o bom momento do Suso;
  5. Biglia não tem todas as características dos registas de Giampaolo. Seja com Ekdal, Torreira ou Paredes, o registatinha que ter condições físicas de repor os laterais e iniciar as jogadas, algo que pensando em longo prazo pode ser um problema para a parte físico do argentino.

Por fim, um trecho da coletiva de apresentação de Marco Giampaolo e sua visão sobre o futebol: “[Meu lema é] Cabeça erguida e jogar bola (…). O projeto é oferecer um futebol bonito para ser apoiado pelos resultados. ”

@italoamorim08

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