O futebol, o handebol e o boxe: O intercâmbio do esporte

Por Felipe Henriques 

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Pouco tenho assistido os Jogos Pan-Americanos de Lima, mas dois esportes que tenho conseguido acompanhar com um pouco mais de freqüência são boxe e handebol.

Curiosamente, nesses dois esportes há conceitos que eu tenho visto no futebol ultimamente.

Começando pelo boxe:

Atacar o adversário e encontrar brechas para que os golpes entrem necessita de estratégia. O estudo dos movimentos do oponente, da guarda que ele utiliza, da forma de se defender e também dos pontos fortes e fracos é fundamental para conseguir a vitória.

Atacar sem estratégia confiando apenas no talento individual de seus jogadores é o mesmo que lutar confiando no seu cruzado de direita. Se for neutralizado, o risco de derrota torna-se maior, já que uma boa estratégia pode surpreender o mais talentoso.

Por exemplo: A luta entre Muhammad Ali vs Chuck Hapner em 1975, onde um dos maiores nomes da história do esporte teve uma dificuldade maior do que o esperado para nocautear um lutador de divisão inferior que havia ganho a grande oportunidade de sua vida.

O resultado? Uma luta que era esperado durar no máximo dois rounds, durou quinze e Chuck inclusive chegou a derrubar o grande campeão em certo momento da luta. Inclusive, essa luta foi usada como motivação pelo ator Sylvester Stallone para criar a história do filme Rocky: O lutador.

No que se refere a defesa, é necessário ter resistência (física e emocional), resiliência e usar o ataque como forma de defesa. No boxe, não é uma boa idéia só se defender e não combater o adversário. No futebol, também é possível defender com a bola.

Como por exemplo, a seleção da Espanha em 2010 que tinha em sua magnífica posse de bola, uma forma de atacar e encontrar espaços na defesa adversária como uma forma de se defender e impedir as transições rápidas do adversário. Vemos isso também no Fluminense de Fernando Diniz que mesmo com as limitações técnicas que o time possui, tem na proposta de ter a bola em seus pés, uma forma de ataque, mas também de defesa.

WhatsApp Image 2019-08-03 at 13.32.43Xavi e Iniesta eram símbolos de uma Espanha que controlava a posse de bola em fases ofensivas e defensivas. Foto/Reprodução: Futebol na Veia.

Além da força dos golpes, saber a hora certa de ter mais intensidade na luta também é importante. No futebol, ter uma intensidade desenfreada pode resultar em desgaste físico e isso pode ruir todo um planejamento, já que iniciar em um ritmo alto e não saber dosar pode custar caro.

Como temos visto no Flamengo de Jorge Jesus, onde o técnico português precisou forçar o seu estilo de treino com mais intensidade para melhor adaptação ao seu estilo de jogo. Com isso, vemos o resultado positivo que foram os primeiros 20 minutos do Flamengo contra o Emelec na última quarta-feira, com um total domínio rubro-negro no último terço, mas também há a conseqüência de muitas lesões de alto desgaste físico da equipe em uma maratona de jogos no mês de Julho.

Ainda há outros conceitos de boxe que podem ser comparados ao que vemos no futebol atualmente, mas vamos migrar para o Handebol. Aliás, é um esporte que deveria ser mais valorizado aqui no Brasil, até por lembrar que era um dos mais praticados no país na minha infância.

No handebol, começo pela movimentação defensiva para impedir o arremesso (ou chute, como queiram…) e o gol. Uma movimentação lateral para acompanhar a zona da bola e fechar o espaço do portador, principalmente pela região central do último terço.

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No futebol, vemos isso em equipes que conseguem ser disciplinadas em seu posicionamento e em sua movimentação para defender bem a sua área contra infiltrações e triangulações.

Além disso, vemos o quão importante é ter linhas compactas e que permitem poucos espaços entrelinhas. Além disso, é bom ver como os espaços entrelinhas são fatais para quebrar a movimentação de uma defesa bem postada.

No handebol é um jogador a frente a linha de seis homens, que fica mais atento para bloquear uma zona específica e tentar o desarme para acelerar em transição. Pressionar o adversário, conseguir roubar a bola e ligar o contra-ataque é algo que, quando feito em uma linha defensiva compacta gera uma facilidade maior para ter superioridade numérica no contra-ataque e, assim, cresce a chance de gols em transição. Algo que também é visto no handebol.

Ainda há a movimentação para encontrar espaços na defesa adversária, que podemos ver semelhanças ao que falei acima do boxe na estratégia de quebrar a defesa do oponente.

Para encerrar, podemos falar do movimento em X que o goleiro faz nos lances 1×1.

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Neuer e Ter Stegen são goleiros que usam muito essa defesa em X. No handebol, esse movimento é utilizado pelo goleiro no tiro de 7 metros, nos lances de mano a mano com o adversários para com os braços e pernas abertos, ocupar o máximo de espaço que puder para evitar o gol.

Enfim, podemos dizer que o intercâmbio de idéias e conceitos de outros esportes pode sempre ser benéfico para a evolução de um modelo de jogo, seja para times que gostam de atacar o adversário tal qual um grande pugilista campeão ou para equipes que preferem proteger a sua área formando uma grande trincheira como no handebol, porém perigosas nos contra-ataques rápidos para chegar a vitória.

Se até mesmo Pep Guardiola buscou conceitos em outros esportes para aprimorar a sua idéia de jogo, como relatado no sensacional “Guardiola Confidencial”, porque não podemos observar o que é feito em outros esportes, partindo sempre do princípio de que o futebol não é uma ciência exata e uniforme?

Tal qual a famosa linha de cinco defensiva que Tite enfrentou dificuldades contra a Costa Rica, na Copa do Mundo, pode ser muito bem uma adaptação da linha de seis da defesa do handebol, por mais que o técnico Óscar Ramírez não tenha baseado sua estratégia nos conceitos do esporte vizinho.

O intercâmbio é necessário e, as vezes, feito naturalmente. Viva o esporte e a evolução tática do futebol que só mostra como a busca pela estratégia vencedora não baseia-se em uma única forma de jogar futebol.

Ainda bem, aliás.

Obs: Um agradecimento ao amigo Marcelo Henrique pela contribuição nesse texto.

@Lipe_Henry

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