Estudo de mercado – SÉRIE A 2019

Por Rodolpho Moreira Neto

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O Campeonato Brasileiro, como principal liga nacional, é o grande chamariz do futebol canarinho. Buscar entender a qualidade (ou a falta dela) em seus jogos é fundamental para o desenvolvimento da própria liga, o que confere relevância às análises táticas cada vez mais necessárias. Contudo, o desenvolvimento das equipes e, por consequência, do campeonato, depende da melhora nas gestões dos clubes, e uma das métricas balizadoras é seguramente a análise de mercado. Nesse âmbito, examinaremos como os 20 concorrentes da Série A se comportaram desde a abertura da temporada de reforços, em dezembro de 2018, até o fim desta parada imposta pela Copa América.

Examinar o comportamento das equipes não é algo que possa ser feito de maneira genérica. É possível apontar, por exemplo, que o Flamengo fez apenas 5 contratações na temporada contra 17 do Fluminense, ou que o número de reforços do Corinthians excede em mais de duas vezes o do Palmeiras, mas isso não nos diz muita coisa. É preciso entender as razões comportamentais de cada equipe individualmente para que um padrão coletivo possa ser traçado.

Um primeiro ponto fundamental é que a natureza de uma contratação realizada em janeiro não é a mesma de uma realizada em junho. O período no qual uma aquisição é feita infere, diretamente, nas possibilidades de aderência do contratado ao grupo e vice-versa. Um atleta que chega no início do ano a uma equipe dispõe de pré-temporada e campeonatos estaduais como um laboratório de adaptação até o início do certame nacional. É sabidamente mais difícil conseguir coesão com inserções de novos jogadores durante o andamento do campeonato, algo quantificado no texto “Segredos do Campeonato Brasileiro”.

Contudo, a parada imposta pela Copa América neste 2019 trouxe aos clubes a possibilidade de realização de uma intertemporada – um novo período preparatório recheado de treinos e movimentações. Dentro deste cenário, o aquecimento do mercado se tornou natural, sobretudo porque o final da intertemporada coincidiu com a abertura da janela de transferência internacional, onde o vai e vem de jogadores é padrão. Então, para uma melhor avaliação do mercado brasileiro, é necessário fracionar as contratações das equipes em 3 lotes:

  • Lote 1: contratações realizadas do fim de temporada 2018 até o início dos estaduais 2019
  • Lote 2: contratações realizadas entre o início dos estaduais e o início da Série A
  • Lote 3: contratações realizadas do início da Série A até o fim da parada para a Copa América

Comecemos pelo Lote 1, que via de regra é o momento de maiores mudanças nos times. O final de uma temporada representa o fim de vários contratos e um movimento de oscilação na gangorra das divisões – uns são rebaixados e outros promovidos, extremos que representam aportes ou cortes radicais no orçamento. Com uns times encorpados e outros mais vulneráveis, é natural que haja intensidade nas negociações, altamente perceptível no gráfico abaixo.

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O primeiro ponto a se considerar é o comportamento das equipes ascendentes; das quatro equipes que mais contrataram no lote, três delas são oriundas da Série B (CSA, Fortaleza e Goiás). Evidentemente, o ingresso em uma nova competição, de maior nível técnico, justifica uma reformulação ampla do plantel – um bom time de segunda divisão dificilmente é suficiente para a primeira. É surpreendente que o Avaí, quarta equipe promovida na última Série B, tenha trazido apenas dois reforços no início do ano – talvez por ter confiado tanto que o grupo bem-sucedido na Série B manteria o nível de atuações na Série A o time catarinense seja a única equipe ainda sem vitórias no torneio.

É difícil avaliar, com a régua medindo apenas o primeiro lote, se o volume de contratações foi ou não apropriado. Num rol de vinte equipes existem vinte diferentes agendas. Talvez seja plausível dizer que os seis reforços do Palmeiras tenham sido desnecessários, já que o elenco de 2018 do time de Scolari continuaria sendo, teoricamente, o mais qualificado do Brasil. Faz sentido, também, afirmar que o Botafogo contratou pouco, e que o baixo montante de reforços tenha sido causa das precoces eliminações no Campeonato Carioca e na Copa do Brasil. Claro, qualquer um dos seis reforços do Palmeiras (o volante Matheus Fernandes, o meia Zé Rafael e os atacantes Arthur Cabral, Felipe Pires, Carlos Eduardo e Ricardo Goulart) seria, possivelmente, titular no Botafogo, e é verdade que apenas Zé Rafael conseguiu presença constante em campo no Porco. Ainda assim, não podemos esperar que o Botafogo concorra pelos atletas prospectados pelo Palmeiras – mesmo que o Palmeiras os enxergue como suplentes. O funcionamento do mercado depende da sua conjuntura, e na atual, jogadores preferem o ostracismo no alviverde ao prestígio no alvinegro. 

Neste contexto, pouco importa se o Palmeiras, campeão brasileiro e aspirante natural ao título em qualquer competição que dispute, contratou mais atletas que o Avaí, figurante na lista de rebaixamento em todas as casas de aposta. A abertura do mercado é o momento em que o campeão pode considerar que precisa de incrementos, assim como os menos favorecidos podem julgar que já dispõem daquilo que precisam. Como veremos mais a frente, este é um debate altamente sutil.

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O comportamento do segundo lote começa a trazer maior nitidez ao quadro. A permanência de CSA, Fortaleza e Goiás no grupo de equipes que mais contrataram expõe uma situação nebulosa referente às equipes recém-egressas à Série A. O segundo lote ocorre predominantemente entre os Campeonatos Estaduais, e é de se indagar quais são as razões por trás da instabilidade nos números. A atividade no mercado se sustenta pelos reforços do Lote 1 terem se mostrado aquém do desejado ou pela crença de que é necessário um elenco inchado para a disputa da primeira divisão? Independente da alternativa, é demonstrado um desconhecimento (ou ignorância) de dados relevantes na formação de elenco – para entender melhor, ler os “Segredos do Campeonato Brasileiro”. Entre os quatro times que no ano passado estavam na Série B, apenas o Fortaleza ainda não trocou de treinador, ainda que a manutenção de Rogério Ceni não mude o status inicial do tricolor cearense na liga – para todos os efeitos, o Fortaleza luta contra a queda.

É relevante notar a postura de equipes cujas atitudes demonstram maior convicção no trabalho. O Internacional foi vice-campeão gaúcho pela terceira vez consecutiva, e o longevo trabalho de Odair Hellmann ainda é desprovido de taças. Todavia, o colorado pouco contratou desde os sete reforços trazidos no lote inaugural. Essa convicção, no caso do Internacional, pode ser atribuída a uma filosofia de futebol pautada em grupos enxutos, mas fatores pecuniários também influenciam diretamente no processo.

Palmeiras e Flamengo, novos ricos que por diferentes razões estão tendo gestões aclamadas, não tornaram a contratar no Lote 2, e o que difere estas equipes das demais é que essa é uma opção não marcada (apenas) pela filosofia de futebol, mas também pela soberania financeira. Novos anúncios não foram feitos no rubro-negro carioca ou no alviverde porque todos os jogadores desejados para suprir as carências mapeadas foram trazidos no Lote 1. Enquanto clubes de orçamento mais modestos devem ponderar entre comprar um jogador A ou B por zelo ao fluxo de caixa, o opulente Flamengo consegue pagar as multas de Arrascaeta e Bruno Henrique porque seu fluxo está seguramente projetado para que tais investidas não comprometam o próximo balanço. O Botafogo, cujos resultados no primeiro semestre foram pífios, se reforçou com apenas três novos nomes no 2º Lote, mas o baixo quantitativo é baseado numa limitação financeira e não por confiança no plantel. Um Botafogo afluente possivelmente protagonizaria uma vasta reestruturação.

Com o Lote 3 praticamente encerrado, alguns padrões começam a ser perceptíveis com a constância de ações.

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O perdulário CSA, no topo dos três lotes, não tem desaceleração prevista. Jogadores continuam a chegar, e pouco mais de uma semana após a troca de Marcelo Cabo por Argel Fucks, três nomes foram anunciados. É necessário dar ênfase a CSA e Avaí pois ambos refletem diferentes estratégias para um mesmo objetivo: contrariar as previsões e escapar da degola. 

Desde a implementação do modelo de pontos corridos com 20 equipes em 2006, apenas uma equipe do Nordeste fora dos estados da Bahia, do Ceará e de Pernambuco disputou a Série A: o América/RN, em 2007, realizou a pior campanha da história dos pontos corridos. Naquele ano, com contratações feitas às cegas, sucessivas trocas de treinador e mais de 50 jogadores acionados ao longo da competição, o time potiguar cavou uma cova da qual até hoje não conseguiu sair. Foi recentemente eliminado da Série D e ficará até o final de 2019 sem calendário. Pela similaridade entre o alvirrubro de Natal e o Azulão de Maceió, o CSA deveria avaliar se a replicação do modelo adotado por aquele América/RN é o melhor caminho a seguir. Com o maior número de contratações na divisão e sem indícios de que irá parar, o CSA talvez esteja minando suas já baixas possibilidades de permanência, como também a probabilidade de um retorno breve em caso de descenso. É aí que entra o Avaí.

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Em nenhum outro estado a gangorra que diferencia a Série A da Série B tem oscilado tanto quanto em Santa Catarina. O Avaí tem se revezado entre divisões nos últimos cinco anos, e se por um lado existe uma dificuldade em superar os obstáculos da elite, por outro a recuperação imediata do clube deve ser elogiada e, principalmente, entendida. Na queda em 2015, o time alviceleste foi o que menos trocou de treinador entre os quatro rebaixados; na campanha de 2017, dois pontos a se destacar: o Avaí foi a equipe com menor variação de atletas em todo o campeonato e também uma das seis equipes que não trocou de treinador. Apenas três vezes em toda a história dos pontos corridos um time foi rebaixado com o mesmo técnico do início ao fim do campeonato, e duas destas equipes conseguiram o acesso no ano seguinte – entre elas o Avaí.

Apesar de já ter efetuado uma mudança em seu comando técnico (Alberto Valentim substituiu Geninho), o time avaiano aposta em uma fórmula que pode não salvá-lo da guilhotina, mas permite-lhe ter condições de se recompor rapidamente. Claro, este não deve ser o objetivo perpétuo do Avaí. O clube precisa encontrar formas de se estabilizar na primeira divisão da mesma forma que o vizinho Chapecoense. Mas há um entendimento de que 2019 não é como 2009, ano em que o Avaí obteve um honroso 6º lugar na tabela. Em 10 anos, o capacidade financeira das equipes variou para extremos, e atletas que outrora buscariam oportunidades em campo em equipes de menor porte hoje prezam por salários vultosos dos gigantes, mesmo que os recebam no banco de reservas. 

Para o CSA, o rebaixamento, nem de longe, seria uma tragédia. A equipe alagoana voltou a Série B em 2018 após 24 anos disputando as divisões mais baixas do futebol brasileiro. Sim, o clube deve envidar todos os esforços possíveis para permanecer na Série A, mas esses esforços não podem comprometer os próximos anos do clube, e retornar a Segundona não deveria ganhar conotações dramáticas. O CSA não é o Cruzeiro. Um plano de recuperação imediata em caso de concretização do provável rebaixamento deveria ser a prioridade de uma direção que, ao que parece, prefere fazer esforços além de sua capacidade para concretizar um sonho cada vez mais distante.

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O segundo time com maior número de contratações no terceiro lote, o Bahia, apresenta um contexto bem variado. A chegada do meia Guerra em empréstimo junto ao Palmeiras foi uma demonstração de força do Esquadrão no mercado, considerando que o atleta vinha sendo assediado por diversas outras equipes já há algum tempo. É difícil dissociar a decisão de Guerra da presença de Roger Machado na área técnica (Roger foi técnico do venezuelano no Palmeiras em 2018), e o próprio nome de Roger trouxe um apelo midiático maior ao futebol nordestino. Outras contratações, como o atacante Lucca, estavam no mapa de outras equipes comumente mais abastadas que o Bahia, o que ressalta o poder de fogo adquirido pela equipe, um produto tanto da gestão profissional implantada pelo clube quanto das vendas milionárias do zagueiro Rodrigo Becão, do lateral-esquerdo Paulinho, do atacante Junior Brumado e do volante Douglas, este último com taxa de vitrine por pertencer ao Corinthians.

Uma grande incógnita para o segundo semestre é o Athletico/PR, que sofreu alguns sérios desfalques e, com a janela aberta até o final do mês de julho, corre o risco de sofrer um desmanche ainda maior. A aposentadoria do zagueiro Paulo André, a negociação do lateral-esquerdo Renan Lodi com o Atlético de Madrid, a iminente saída de Nikão para os Emirados Árabes e o assédio em cima de Léo Pereira e Bruno Guimarães trazem incerteza ao time da Baixada, e até o momento, apenas reforços cotados para composição de elenco foram trazidos – casos do zagueiro Pedro Henrique e do promissor lateral Danilo Boza. Os negócios podem estar sendo saudáveis para a conta bancária rubro-negra, mas tendem a provocar um déficit no desempenho do time de Tiago Nunes.

Até o fechar da janela, outras novidades devem ocorrer, mas por ora é difícil traçar perspectivas para demais equipes. Apenas os jogos irão demonstrar os resultados dos treinamentos no qual estiveram envolvidas. De fato, um bom aproveitamento da intertemporada pode ser tão ou até mais decisivo que uma performance adequada no mercado. Para boa parte dos clubes, o dinheiro é escasso e não há margem para grandes reformas, algo que só traz mais peso aos insights táticos e capacidade de obediência das equipes. 

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Existe, por parte de algumas equipes, a declarada intenção de seguir ativo no “Lote 4”. São poucas as equipes que podem dizer estarem aptas para enfrentar o restante da temporada e só o início dos jogos irá dizer se, para quem contratou, as peças trazidas foram capazes de provocar melhorias, ou, para os discretos, se o intensivo de treinos serviu para suprir as carências mapeadas sem a necessidade de reforços. Seja qual for o caso, o torcedor pode fazer, a partir de agora, exigências mais prudentes no vai e vem do mercado.

@rodolphomn

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