Estudo de mercado – SÉRIE B 2019

Por Rodolpho Moreira Neto

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Tecer uma análise de mercado das equipes que disputam a Série B de 2019 não é tarefa das mais fáceis; a começar pelo líder momentâneo da competição, o Red Bull Bragantino, um caso bastante particular justamente em virtude da recente fusão que chocou o mercado: onde acaba o Bragantino e começa o Red Bull? Depois de firmada a parceria, boa parte do elenco que figurava em Bragança debandou e uns poucos remanescentes se juntaram ao grupo que havia disputado, com sucesso, o Campeonato Paulista pela equipe do energético de reputação mundial. Fica difícil mensurar, com uma junção de elencos montados sob diferentes óticas, a importância que as contratações feitas por Red Bull e Bragantino tiveram para o agora Red Bull Bragantino.

Dessa forma, desconsiderando a sensação da competição, o MW Futebol dá início a uma densa análise de mercado, medindo o impacto que o quantitativo de reforços teve em cada equipe na temporada.

Para entender o entra e sai de atletas, as contratações precisam ser divididas em três lotes:

  • Lote 1: contratações realizadas do fim da temporada 2018 até o início dos estaduais 2019
  • Lote 2: contratações realizadas entre o início dos estaduais e o início da Série B
  • Lote 3: contratações realizadas do início da Série B até o fim da parada para a Copa América

Tal categorização é necessária pois, via de regra, o primeiro lote é um momento plausível para reformulações. O final da temporada é marcado pelo aquecimento do mercado através da abertura da janela europeia e de um sem número de contratos que se encerram no Brasil, tornando o período propício para honrar a lei fundamental do capitalismo: oferta e procura. Se o desempenho de sua equipe não foi dos melhores durante o ano que se passou, aqui é o momento de repensar conceitos para ter uma sequência de temporadas mais prósperas, e mesmo equipes bem-sucedidas precisam de pequenos ajustes para corrigir seus pontos mais fracos.

Desta forma, é normal que o pico de contratações de qualquer equipe seja o Lote 1 – equipes que contratam mais nos lotes 2 e 3 comumente tiveram um péssimo aproveitamento de mercado, coroado com um desempenho ruim, o que “justifica” uma reforma imediata. As aspas se devem ao caráter de tal justificativa – o curto prazo. Quando reformulações são feitas, é normal que haja um período de adaptação de um novo elenco ao clube – e vice-versa. A cultura imediatista do futebol brasileiro dificilmente respeita este prazo, e reformulações tendem a suceder reformulações. Em números médios das dezenove equipes da Série B (pelos motivos já citados, o RB Bragantino não figura nos cálculos), temos:

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O time médio da Série B trouxe 24.91 novos atletas ao longo do ano, e quase 50% destes foram buscados no Lote 1. O gráfico demonstra um comportamento supostamente ideal: os números vão sendo reduzidos a cada novo lote, garantindo maturação ao elenco com uma baixa rotatividade. 

Infelizmente, números sem contexto não dizem muito. A parada imposta pela Copa América abriu uma intertemporada no futebol nacional, permitindo que equipes dispusessem de tempo para treinar e observar o mercado – as que tivessem tido um processo falho de reformulação obtiveram uma segunda chance de prospectar opções para atingir seus objetivos. Isso é válido tanto para treinadores quanto para jogadores, embora saibamos que realizar constantes trocas entre estes não seja historicamente benéfico (para mais informações, ler o artigo “Segredos do Campeonato Brasileiro” publicado no último mês de abril).

Se pegarmos as quatro equipes mais bem colocadas da Série B, Botafogo/SP, Londrina, Ponte Preta e Sport  neste caso, as equipes do 2º ao 5º lugar, pois o 1º, RB Bragantino, foi desconsiderado) e as compararmos com as quatro últimas, Operário, América/MG, Guarani e Vitória, temos relações inversamente proporcionais. 

Screenshot (18)

A imagem expõe uma redução progressiva no número de reforços das equipes melhores posicionadas, e o decréscimo quantitativo entre o primeiro e o segundo lote é radical. O mesmo não ocorre no grupo dos quatro piores – embora tenham contratado menos originalmente, a redução no número de contratações, embora aconteça, é parca. E no 3º lote, enquanto o volume nos times do G4 segue minguando, no das quatro piores equipes há um aumento. 

É preciso buscar justificativas para ambos os comportamentos. A primeira delas reside na rotatividade do comando técnico. Não há muita diferença na quantidade de trocas entre os dois grupos: foram quatro trocas realizadas pela equipes do pelotão de acesso e cinco do grupo de descenso. Mas neste caso, o momento das trocas é bastante relevante: todos os técnicos substituídos pelos times melhores qualificados o foram antes do início do Campeonato Brasileiro, enquanto três dos times no Z4 efetuaram mudanças já com a competição em andamento. E quão maior for a ruptura de filosofias, maior tende a ser a ânsia por reformas.

Tomemos como exemplo o América/MG, que disputou a Série A três vezes nesta década, foi campeão da Série B em 2017 e é um candidato natural ao acesso. Figurando uma incômoda 18ª colocação, a equipe iniciou a temporada sob os comandos do imortal Givanildo Oliveira, treinador em atividade desde 1983. As nove contratações realizadas durante a Era Givanildo tinham uma média etária de 30,2 anos. Desde a substituição de Givanildo por Maurício Barbieri, um profissional de carreira ainda incipiente e acostumado a trabalhos com atletas de base, foram realizadas oito contratações que possuem uma média de 23,66 anos. É difícil responder com rapidez a tamanha alteração.

Alguns dados relevantes que suportam a tese: as únicas três equipes com número mínimo de 30 contratações (CRB, São Bento e Guarani) se encontram na metade inferior da tabela; Guarani e São Bento também estão presentes na lista de times que já realizaram duas mudanças de treinador, junto com Brasil de Pelotas, São Bento e Vitória – todas equipes abaixo da 10ª colocação.

Claro, conforme defendido em “Segredos do Campeonato Brasileiro”, e um baixo número de contratações não garantirá uma campanha honrosa. É preciso convicção na tese estabelecida – e equipes com uma tese sustentada desde o início do ano estão mais perto de um cenário de prosperidade do que equipes cujo processo é pautado apenas no resultado.

Tomemos como exemplo Sport. O rubro-negro pernambucano, rebaixado na Série A 2018, organizou uma ampla reformulação no primeiro lote, com 14 novas contratações. Desde então, mesmo com uma mudança em sua área técnica (Guto Ferreira substituiu Milton Cruz), o Sport conseguiu diminuir sua atividade no mercado – apenas sete novos reforços foram buscados nos Lotes 2 e 3, o segundo time da Série B que menos contratou no período. O Leão da Ilha do Retiro sagrou-se campeão estadual e está a uma posição da zona de acesso. 

Outro caso digno de nota é o do Operário/PR. A equipe, recém-egressa da Série C, é apontada como uma candidata ao rebaixamento, e embora de fato ela esteja na zona indesejada, é preciso fazer ressalvas quanto a situação. Das quatro equipes que momentaneamente marcam presença no Z4 (Operário, América/MG, Guarani e Vitória), a equipe paranaense, apesar de ser a única cuja posição está alinhada com sua avaliação, é a melhor qualificada. É também a que menos contratou e a única que não trocou de treinador. Dos sete pontos até aqui conquistados pelo Fantasma, seis deles foram em equipes favoritas na competição: América/MG e Sport. Curiosamente, desde a abertura do terceiro lote, o Operário realizou apenas três contratações e é com folga o time da zona de descenso menos ativa no mercado: América/MG e Guarani já buscaram 9 reforços cada e 12 novos jogadores foram trazidos pelo Vitória/BA.

Ao longo do campeonato, a oscilação de posições deve continuar privilegiando as equipes que tiverem uma fidelidade maior aos seus ideais. Por ora, é possível quantificar o senso comum – é difícil ter resultados com alterações bruscas. No curto prazo, é como jogar um dado em que só a face do 6 te interessa: todas as outras significam fracasso. Dificilmente contratações aos montes são pautadas por uma tese de investimentos, e métodos intuitivos, contraproducentes e obsoletos são empregados. É possível que hajam acertos, mas num mercado cada vez mais preenchido pela Análise de Desempenho e pela base de dados, tal abordagem é um convite ao insucesso. 

No longo prazo, o emprego de tal técnica é um impeditivo ao sucesso regular. Uma alta rotatividade de jogadores é um impeditivo para a coesão de elencos e um obstáculo que treinadores, sozinhos, não podem resolver. É preciso uma boa contribuição do acaso. Mas como disse Soriano, a bola não entra dessa maneira.

@rodolphomn

 

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