O Mister chegou – ANÁLISE TÁTICA JOGO-TREINO FLAMENGO 3 x 1 MADUREIRA (parte I  — fase ofensiva)

Por: Vinícius Melo, do @Analise_CRF .

No último sábado, 29, o Flamengo foi ao campo contra o Madureira-RJ em um jogo-treino de intertemporada que marcou a estreia não oficial de Jorge Jesus à frente da equipe. Após pouco mais de uma semana de treinos intensos, muitas vezes em dois períodos, a partida foi a chance da Nação Rubro Negra matar a saudade do time e de ver em campo alguma dose das primeiras ideias do técnico português, das quais analisamos as primeiras delas no momento ofensivo, a seguir.

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Plataforma inicial

Jorge Jesus, ou o Mister, como também gosta de ser chamado, levou ao campo sua tradicional formação e estruturou o time a partir de um 4–1–3-2, variação do tradicional 4–4–2.

Com os desfalques dos jogadores defendendo seus países na Copa América, Arrascaeta, Cuéllar e Trauco, e dos que não estavam fisicamente aptos, Diego Alves e Éverton Ribeiro, a formação inicial tinha: goleiro, 2 laterais, 2 zagueiros, 2 meias e 4 atacantes. São eles:

  • Goleiro: César
  • 2 laterais: Rodinei (dir) e Renê (esq)
  • 2 zagueiros: Léo Duarte (dir) e Rodrigo Caio (esq)
  • 2 meio-campistas: Willian Arão e Diego
  • 4 atacantes: Vitinho e L. Silva (predominantemente lados); e Gabriel e B. Henrique (predominantemente centro)

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A partir do 4–1–3–2 como base, a dúvida que surgiu tão logo anunciada a escalação foi como Jorge Jesus alocaria os 4 atacantes dentro da plataforma, tendo em vista que, por exemplo, no seu último trabalho em Portugal, dirigindo o Sporting Clube de Portugal, as escalações mais habituais tinham 3 meias e 3 atacantes.

A resposta veio assim que a equipe entrou em fase de organização ofensiva, quando um dos 4 atacantes alternadamente sempre se movimentava deixando sua posição mais avançada e recuando alguns metros para oferecer apoio (opção de passe) no meio-campo no lado da bola.

Imagem 3 txt 1 Representação genérica da estrutura do Flamengo em fase de organização ofensiva: Um dos 4 atacantes (na imagem: Gabriel ou Lucas Silva) deixava posição mais avançada e recuava metros para oferecer opção de passe desde as entrelinhas adversárias, no meio-campo.

Novidades em Organização Ofensiva

Com a bola, em fase ofensiva, o Flamengo rapidamente conseguiu assentar-se em campo e controlar o adversário a partir de uma estrutura posicional (ou seja, jogadores em zonas preestabelecidas) que pretendia ocupar espaços importantes no campo para manter e circular a bola.

Dentro desse contexto, uma variação estrutural importante foi a transição do 4–1–3–2 inicial para o 3–4–3 em posse da bola.

  • A variação para o 3–4–3
Imagem 4 txt 1O movimento de um dos atacantes (na imagem Lucas Silva) em direção ao meio-campo configurava o 3–4–3 flexível do Flamengo em Organização Ofensiva.
Imagem 5 txt13–4–3  com a troca entre Willian Arão e Léo Duarte.

Quando a equipe retomava a posse da bola e entrava em organização ofensiva (fases de ataque organizado ou posicional em oposição aos ataques rápidos ou contra-ataques), Willian Arão recuava alguns passos e se colocava entre os dois zagueiros centrais -que então se moviam um pouco mais em direção aos lados- na saída de bola, num movimento que se convencionou chamar de “Saída de 3”.

A saída de 3 permitia vantagem numérica na saída de bola frente aos dois jogadores mais avançados da equipe adversária, que não podiam pressionar homem-a-homem em igualdade, garantindo conforto para manter a posse da bola na primeira etapa da construção.

Imagem 6 txt 1Saída em 3+1: com o recuo de Willian Arão entre os dois zagueiros centrais, o Flamengo conseguia superioridade numérica na saída de bola frente aos dois jogadores mais adiantados do adversário, que não tinham igualdade para pressionar homem-a-homem. Diego: o camisa 10 teve uma faixa horizontal maior para se movimentar no centro do campo e era a 1ª opção de passe por dentro à frente da saída de 3. Normalmente atrás dos avançados rivais.

Ao mesmo tempo, os dois laterais, Renê e Rodinei, deslocavam-se em direção aos lados, posicionando-se próximos às bordas do campo para aumentar a amplitude (ou largura, se preferir) do time na altura do meio-campo, enquanto Diego funcionava como um 2º homem de meio-campo (que se tornava o 1º a partir do recuo de W. Arão entre os zagueiros) posicionado logo acima da saída de 3, com liberdade para se movimentar pelo centro numa faixa horizontal extensa e nas costas dos dois jogadores rivais mais avançados (em geral, do centroavante e do meia-atacante).

Imagem 7 txt 1Laterais posicionam-se próximos às bordas do campo e oferecem linhas de passe mais abertas, ajudando a alargar o campo (amplitude) e facilitar a criação de linhas de passe por dentro.

Em harmonia com a variação da plataforma (3–4–3), que permitia mais movimentos dentro da sua estrutura, o posicionamento dos atacantes se alternava na medida em que eram permitidas mais trocas entre eles, tanto horizontal, quanto verticalmente. Havia, contudo, determinadas regras para que sempre houvesse uma referência garantindo profundidade e ao menos 3 jogadores sobre ou próximos à última linha de 4 adversária.

Dentro dessas variações, sempre ao menos 1 atacante do lado da bola oferecia opção de passe entre as linhas de ataque e meio adversárias, enquanto o atacante oposto tendia a aproximar-se da última linha rival e explorar a entrelinha (espaço entre a linha de defesa e de meio-campo).

Esses movimentos aparentemente eram coordenados a partir dos triângulos laterais formados durante a construção, que variavam conforme o lado da bola e a posição do jogador no início de uma nova jogada.

Triângulos pela direita:

Imagem 8 txt 1Triângulo pela direita: Lucas Silva-Gabriel-Rodinei: 1 atacante (Lucas Silva) recua para oferecer apoio no meio-campo como 3º homem, enquanto Gabriel mantém-se entrelinhas. Rodinei abre o campo.
Imagem 9 txt1Triângulo pela direita II: Gabriel-Lucas Silva-Rodinei: 1 atacante (agora Gabriel) recua para oferecer apoio no meio-campo, enquanto Lucas Silva mantém-se entrelinhas. Rodinei abre o campo.
10 txt1Triângulo pela direita III: Diego-Gabriel-Rodinei: Diego como interior-direito, Gabriel entrelinhas e Rodinei em amplitude. Repare como é uma constante a presença de pelo menos três jogadores ocupando a linha de defesa.

Triângulos pela esquerda + escalonamento:

11 txt 2Triângulo pela esquerda: Renê-Diego-Vitinho: Renê e Vitinho abrem o campo, enquanto Diego, o meia-central articulador, 2º homem de meio-campo, aproxima-se do lado da bola como interior-esquerdo.

12 txt1Triângulo pela esquerda II + escalonamento: Quando Renê avançava Vitinho deslocava-se em direção ao espaço entre as linhas adversárias (meia-atacante pela esquerda), enquanto Diego coordenava a triangulação mais atrás, como interior-esquerdo. Essa configuração permitia a criação de “escadinhas” ou “degraus” (escalonamento) entre os jogadores, criando mais linhas de passe diagonais para a equipe progredir com a bola.

 

13 txt1Triângulo pela esquerda III + escalonamento: Renê não avança e Vitinho compensa o lateral posicionando-se aberto (amplitude). Diego participa como interior-esquerdo e fará movimento de dentro para fora. B. Henrique completa o escalonamento.

ltima imagem txt1Os triângulos no 3-4–3 (a partir do recuo, na imagem, do Gabriel).

 

  • Participação dos zagueiros na construção

Durante a fase de construção, a partir da vantagem criada pela saída de 3 (3 contra 2), os zagueiros precisaram conduzir a bola verticalmente para conectarem com os meias / atacantes em posições mais avançadas.

Tendo 3 jogadores na primeira linha de construção e não mais 4, a dinâmica de circulação da bola muda e passa a exigir mais verticalidade, já que há menos linhas de passe horizontais para levar a bola de um lado ao outro e tentar mover o bloco adversário para criar brechas.

É possível observar essa dinâmica na imagem do “Triângulo pela esquerda II”, em que Rodrigo Caio conduz a partir da defesa pra criar ele mesmo uma opção de passe.

É importante relativizar o que foi observado no jogo-treino, pois Jorge Jesus teve apenas uma semana de treinamento e o time engatinha nas suas ideias, ficando claro em determinados momentos do jogo em que gritava com os jogadores pra ajustar posicionamento, o que é perfeitamente normal nesse primeiro momento. Esta análise não é exaustiva do que o time apresentou no sábado, mas sim um indicativo do que parece ser a ideia do Mister pra esse time.

Mais rudimentar ainda está o trabalho defensivo, que será objeto de análise na parte 2 deste texto, juntamente de nosso prognóstico em relação a este elenco e como suas peças parecem/podem encaixar no que Jesus apresentou nesse jogo-treino.

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