ANÁLISE DE DESEMPENHO NO FUTEBOL – Entrevista com Gustavo Jabor

Por Breno Barbosa

ChilexUruguai

Após um campeonato Paulista abaixo do esperado, no qual lutou para não cair, o Botafogo-SP ressurgiu na série B do campeonato Brasileiro 2019. Após 8 rodadas, a equipe de Ribeirão Preto está na 2° posição, com 16 pontos somados (5 vitórias, 1 empate e 2 derrotas). Essa reviravolta conta com a influência de diversos profissionais e cada um com sua importância. Um dos personagens é Gustavo Jabor, 30 anos e analista de desempenho do Botafogo-SP. Gustavo Jabor é bacharel em Educação Física e Esportes pela USP-RP, trabalhou no projeto Olé Brasil (em Ribeirão Preto) e ingressou em 2012 no Botafogo, com o intuito de implantar o sistema de análise de desempenho que ainda não existia no clube.

MW FUTEBOL: Quais são às funções do analista de desempenho? E, qual é a mais complicada de exercer?

Gustavo Jabor: O analista de desempate está em três segmentos. O PRIMEIRO É ANÁLISE DE MERCADO, no qual é avaliado alguns possíveis reforços, através do campeonato que estava disputando, o grau de dificuldade dessa competição, o número de jogos na temporada, quantidade de partidas que atuou como titular, o modelo de jogo que atuava, a quantidade de funções que exerceu. A ideia é analisar a parte quantitativa, voltada às estatísticas do atleta e a parte qualitativa, entrando mais na questão da parte tática e para saber se o atleta encaixa no modelo de jogo do treinador. O SEGUNDO SEGMENTO É ANALISAR O PRÓPRIO TIME, de forma individual e coletiva dentro dos treinamentos e jogos, buscando trazer novamente a parte quantitativa (scouts do jogo) e qualitativa (aplicação tática e desempenho perante o grupo), então é realizado uma soma das duas avaliações (individual e coletiva) e chegamos a conclusão do próprio time. O ÚLTIMO SEGMENTO É ANÁLISE DE JOGO DO ADVERSÁRIO, no qual estudamos duas ou três partidas daquele oponente, extraindo seu comportamento nas cinco fases do jogo (organização defensiva, transição defensiva, transição ofensiva, organização ofensiva e bola parada), os pontos fortes e fracos do adversário e como é a fórmula de atuar dentro e fora de casa. Então analisamos todo o conjunto daquele adversário, podendo frisar alguns pontos individuais, dependendo das características de um jogador que nossa equipe for enfrentar. Um ponto individual de cada atleta que analisamos é o momento da cobrança de pênalti, pois quando um jogador tem uma cobrança decisiva pela frente, na maioria das vezes, opta por cobrar no lado de segurança (canto preferencial), já numa cobrança no qual não é tão decisiva, ele pode tentar alguma situação diferente, inovar na batida. Além do canto de segurança, interpretamos a forma que ele cobra (com muita ou pouca força, rasteira, meia altura ou alta, próximo da costura da rede ou mais próximo do meio) e se ele depende ou não da movimentação do goleiro para realizar a cobrança. Então a ideia é sempre analisar e interpretar às últimas seis cobranças do jogador, para dar um feedback preciso ao nosso goleiro. Acredito todos são segmentos importantes no qual se complementam, por isso não tem uma vertente mais complicada. É necessário sempre estar trabalhando de forma minuciosa, para evitar ao máximo a possibilidade de erros.

MW FUTEBOL: O analista de desempenho interfere nas negociações do clube?

Gustavo Jabor: O analista não interfere nas negociações, entretanto transmite informações quando necessário. Ele passa informações e dados desse jogador, da forma que descrevi na análise de mercado.

MW FUTEBOL: De qual maneira a tecnologia ajuda e atrapalha no trabalho do departamento de análise de desempenho?

Gustavo Jabor: Eu acredito que a tecnologia veio para ajudar dentro da área de análise, pois hoje temos softwares de pesquisas de atletas que são utilizados dentro do clube, então ele busca jogos de forma global, isso nos permite ver partidas de diversos atletas e de qualquer competição. Com isso conseguimos analisar a parte tática e às estatísticas do jogador, facilitando o trabalho do analista. Esses softwares nos ajudam muito para tomarmos às melhores decisões. A tecnologia nos permite relatórios ainda mais completos e acredito que só tenha a agregar de forma positiva.

MW FUTEBOL: Como às análises quantitativas podem contribuir? E, quais são às métricas utilizadas?

Gustavo Jabor: Às análises quantitativas são números e contra isso não existem argumentos. Então, teremos dados mais concretos, por exemplo: número de perdas da posse de bola, quantidade de passes errados, número de cruzamentos com baixo aproveitamento, índice baixo nas jogadas aéreas. Essa análise quantitativa nos proporciona a oportunidade de fazer um feedback com números e de forma precisa. Também é importante dizer que esses números são interpretativos, é preciso ter sensibilidade para analisar da forma correta e até mesmo o nível de dificuldade da jogada. Não podemos fazer a leitura apenas com a estatística bruta, precisa está dentro do contexto e isso nos proporciona diversos momentos do jogo, no qual acontecem situações diferentes. Por exemplo: Quando você analisa a quantidade de passes errados de um volante, você precisa saber aonde ele errou os passes, se o passe era frontal, diagonal, lateral ou para trás, quais os motivos que o levaram ao erro, quais eram às outras opções que o atleta tinha no lance e se o erro de passe naquela circunstância acontece com frequência ou foi um momento isolado. Às métricas utilizadas são os fundamentos, ou seja, passes, finalizações, desarmes, bolas aéreas, cruzamentos, são todas às variáveis técnicas que a gente utiliza para montar os scouts. Além dessa situação individual, fazemos também a coletiva, no qual coletamos os dados das duas equipes nos quesitos porcentagem de bola, finalizações, cruzamentos, etc. Mas, sempre frisando que os números precisam ser interpretados de acordo com o contexto do jogo.

MW FUTEBOL: Na sua concepção, o departamento de análise de desempenho, deveria contar com um psicólogo para auxiliar na produção de relatórios, principalmente nas categorias de base?

Gustavo Jabor: Acho que o psicólogo não entra dentro do departamento de análise de desempenho, mas acho favorável esse profissional dentro do meio esportivo. É importante na base, pois é uma categoria formadora até no desenvolvimento pessoal, caso ele não atinja o futebol de alto rendimento, irá conseguir se encaixar de outras formas dentro da sociedade. No profissional também é bem importante, pois estamos lidando com seres humanos e precisamos saber realizar todo o processo de gestão.                    

  • O analista Gustavo Jabor em ação durante o treinamento do Botafogo-SP.

MW FUTEBOL: Como deve ser a avaliação do analista nas categorias de base visando descobrir novos talentos?

Gustavo Jabor: A função do analista na base, está relacionado a formação do atleta, diferente do profissional que é mais voltado ao resultado. A categoria de base tem que ter como maior vertente a formação, o analista pode contribuir com o desenvolvimento técnico, aprimorando a fórmula individual dele, sempre voltada a evolução. Não é visado tanto o resultado em si, mas sua performance para chegar o mais pronto e capacitado ao elenco principal.

MW FUTEBOL: Como é o relacionamento entre o analista e o treinador? Os dados que serão analisados é de acordo com que a comissão técnica pede?

Gustavo Jabor: O relacionamento precisa ser o mais próximo possível, pois precisamos interpretar a ideia de jogo que é proposta ao time, e como ficamos em um visão privilegiada (vendo a partida de cima, tendo visão para todo o gramado) conseguimos fazer a interpretação e leitura do confronto. Então, passamos um feedback avaliativo nosso e analisamos aquilo que foi proposto pelo treinador, então é necessário o convívio para entender o que ele deseja e depois chegar a conclusão se está sendo executado. Os dados são sempre discutido entre a comissão técnica, só assim chegamos no conjunto final.

MW FUTEBOL: Qual a importância com a comunicação dos demais setores do clube?

Gustavo Jabor: A comunicação é fundamental em todos os setores, pois ali conseguimos fazer a interpretação do que está acontecendo, seja de forma coletiva ou individual dos atletas. Todos os setores precisam estar interligados e realizando essa comunicação, para melhor desempenho do time. A comunicação é fundamental para demonstrar os aspectos positivos e negativos.

MW FUTEBOL: Quais qualificações você precisa para ser analista?

Gustavo Jabor: A principal qualificação é ter uma boa visão de jogo e saber interpretar o que acontece na partida. Isso para analisar adversários, interpretar tudo o que foi pedido pelo treinador e também dar sua própria opinião. É necessário entender os dados físicos e técnicos, leitura de mercado, interpretar o atleta individualmente e coletivamente. Quando montar vídeos e fazer palestras, poder demonstrar tudo de forma clara e objetiva, fazendo com que o atleta entenda toda a mensagem transmitida. Acredito que essas características são fundamentais.

MW FUTEBOL: Como é a experiência em trabalhar no Botafogo-SP e qual foi a sensação em conseguir dois acessos nacionais?

Gustavo Jabor: A experiência é a mais positiva possível, pois o Botafogo é um dos clubes mais tradicionais do interior paulista e do Brasil. Então considero ser uma satisfação e orgulho muito grande em trabalhar no Botafogo. São mais de sete anos no clube, com experiências variáveis, tive o prazer de disputar vários tipos de campeonatos, por exemplo: O Paulistão série A, a Copa Paulista, Campeonato Brasileiro série D, série C e até chegar na série B. Cheguei na Copa Paulista, no qual é uma competição para os times que não tem calendário cheio, disputei a série D com recursos financeiros escassos, viagens longas, poucas informações acessíveis sobre os adversários, foi um enorme desafio, no qual tive uma boa experiência e adquiri muita bagagem. Conseguimos superar todas essas dificuldades e divisões inferiores, estamos no processo de evolução e vem sendo uma satisfação enorme trabalhar no Botafogo. Um trabalho comprometido e árduo, que hoje colhemos os frutos. No Campeonato Paulista série A disputei sete vezes, chegando em cinco quartas de finais. Eu tive o prazer de ser campeão nacional (série D), algo que a instituição nunca tinha conseguido e fico honrado em fazer parte desse processo. No outro acesso, contra o Botafogo-PB, vencemos nos pênaltis, com gol no último minuto do tempo regulamentar, estádio lotado, uma expectativa enorme e foi um momento indescritível, jamais irei esquecer. Nessas partidas do acesso para a série B, o goleiro Thiago defendeu dois pênaltis do Marcos Aurélio e com uma parcela de contribuição do departamento de análise de desempenho, pois tínhamos levantado o retrospecto das últimas seis cobranças do Marcos Aurélio, no qual fizemos a leitura do canto preferencial e passamos todas às informações ao Thiago.  É gratificante ver esse crescimento do Botafogo e saber que faço parte desse imenso projeto.

                                     ChilexUruguaiImagem: Arquivo pessoal.
  • Gustavo Jabor ao lado da comissão técnica passando informações aos jogadores do Botafogo-SP.

O MW Futebol gostaria de agradecer o analista de desempenho Gustavo Jabor pela forma que nos recepcionou e por sanar diversas dúvidas dos nossos leitores. Temos certeza que o conteúdo foi de qualidade e desejamos todo o sucesso em sua trajetória, sabemos do seu potencial e esperamos que conquiste seus objetivos.

@brenobmarketing

 

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