36 jogos depois, uma leitura tática sobre a fase de grupos da Copa do Mundo da França

Por Henrique Mathias e Pedro Galante

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Depois de 36 jogos e toda a definição das equipes classificadas, chegamos ao momento de avaliar o nível geral do Mundial de 2019, buscando acompanhar detalhes e destacar características da competição

Ao analisar futebol feminino é preciso considerar que por décadas a prática não foi permitida por lei às mulheres. Sabendo que a prática – e o tempo de prática – influenciam diretamente na qualidade do jogo, está explicado porque o futebol feminino mostrar uma dinâmica diferente – não pior ou melhor – que o futebol masculino. Posto isso, podemos falar da Copa do Mundo em si. O torneio mostrou um nível muito interessante e sintetiza o desenvolvimento e profissionalização da categoria. Além disso é fundamental citar o destaque que o torneio está recebendo.

Em campo, percebe-se que a maioria das partidas é marcada por uma equipe que se impõe ofensivamente e outra que resiste defensivamente. Basta reparar na disparidade de posse de bola e momentos de pressão. Quanto as equipes que assumem a postura de imposição, é interessante notar como nenhuma dela estrutura seu ataque usando pivôs. Raramente vemos uma jogadora de costas para o gol, seja uma centroavante entre as zagueiras ou uma meia na entrelinha. O resultado é um ataque que tende a fluir para frente sempre. Quando a bola avança para o último terço as equipes buscam concluir com velocidade e não rodar buscando o melhor momento de finalizar, até porque se a bola chegou até o ataque que dizer que já foi muito bem rodada na defesa. Em suma, há um maior peso da saída de bola na criação.

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Picos de pressão dos EUA em azul. Os visitantes tiveram 63% de posse, a Suécia 37%. (Foto: SofaScore)

Podemos ver diferentes formas de atacar. O Brasil, por exemplo, busca explorar o espaço nas costas da linha de defesa. Os EUA usam cruzamentos de regiões mais centrais, já que suas laterais atuam por dentro, e inversões pois suas pontas sempre estão coladas as linhas de lado. A França constrói com triangulações pelo lado, aproximando suas jogadoras para progredir e centralizar a jogada ao chegar na linha de fundo.

Outro ponto importante para trazer para a conversa é o modo como as principais equipes trabalham sua construção ofensiva, quais as similaridades e as diferenças. Vamos abaixo tratar de Estados Unidos, França, Espanha e Alemanha.

ESTADOS UNIDOS

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O alto número de setas formando um C na região da defesa americana mostra como há muita troca de passes entre as quatro defensoras e como as laterais atuam somente um pouco avançadas, participando mais da saída de bola. Além disso, percebe-se como a densidade de setas diminui próximo ao gol de ataque e a distância dos passes se torna mais longa, confirmando a verticalidade do ataque americano quando chega no último terço do campo.

FRANÇA

WhatsApp Image 2019-06-22 at 15.00.13 (1)A seleção francesa ataca buscando triangulações pelo lado do campo e pouco usa a região central à frente da área, também chamada de funil. O círculo vazio nesse setor comprova essa característica. Podemos ver também uma boa quantidade de cruzamentos, já que as construções ofensivas se dão pelos lados, ao chegar na linha de fundo é preciso centralizar a jogada para buscar finalização.

ESPANHA

WhatsApp Image 2019-06-22 at 15.00.12 (3)A Espanha mostra uma disposição mais equilibrada dos seus passes, trabalhando bem a bola pelo centro e chegando ao último terço tanto com passes pelo centro quanto pela ponta.

ALEMANHA

WhatsApp Image 2019-06-22 at 15.00.12 (2)A construção alemã se assemelha um pouco a dos EUA. Há muita troca de passes no primeiro terço entre as defensoras. Quando a bola avança, o jogo se torna mais vertical, os passes ficam mais longos e incisivos. As principais diferenças é que esses passes são mais paralelos do que em diagonal.

Vamos destacar um apontamento tático de cada equipe na fase de grupos.

GRUPO A:

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França

Treinadas por Corinne Diacre, as Francesas demonstraram muita qualidade em sua saída de bola, contando com variações importantes, mas sempre mantendo Amandine Henry como a peça fundamental de sua ideia de jogo. Trabalharam em 3-2 na estreia com Henry entre Renard e Bathy, com Thiney e Bussaglia a frente com meias que conduzem mais do que passam. Nos dois jogos seguintes trabalharam em 2-3 com Renard-Bathy com a ação primária e uma linha de 3 a frente, com as duas laterais em linha com a primeira volante, Bussaglia contra a Noruega e Bilbault contra a Nigéria, e com Amandine Henry sempre acompanhando o setor da bola, sendo quem dita o ritmo da equipe.

Noruega

4-4-2 como ideia inicial e muita liberdade posicional em campo ofensivo. Guro Reiten e Caroline Hansen como pontas que constroem por dentro, trabalhando sempre a ultrapassagem das laterais, numa equipe que sobe para o ataque com blocos grandes. Muito interessante o mecanismo de transição ofensiva de Martin Sjogren.

Nigéria

Aqui vamos destacar a coordenação da transição defensiva da Nigéria. A equipe de Thomas Dennerby tem dois desenhos distintos para a competição. 5-3-2 para os duelos onde busca se defender com linhas mais baixas e 4-4-2 quando quer agredir mais e ter maior força de transição. O que não muda é o modo como é uma equipe concentrada no que precisa fazer defensivamente, sabendo aumentar o número de peças nos setores e alcançar uma importante superioridade numérica. O 5-3-2 por vezes tem 8 defensoras dentro da sua própria área e o 4-4-2 vira 6-2-2 para defender, com as duas pontas retornando para defender nas laterais, enquanto as laterais ocupando a área da equipe.

Coréia do Sul

Uma das maiores decepções desta primeira fase, existe pouco o que se destacar em termos positivos, mas um grave problema em termos de defender sua área para se corrigir. Em termos gerais a equipe sul-coreana esteve quase sempre desconcentrada com suas marcas, perdeu facilmente o ponto de referência e deixou que suas rivais conseguissem criar ofensivamente por pura imposição física.

GRUPO B:

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Alemanha

Não foi uma primeira parte perfeita, em termos de desempenho, da equipe treinada por Martina Voss-Tecklenburg. Mas o objetivo foi alcançado a perfeição, com 3 vitórias, 6 gols marcados e nenhum gol sofrido. A Alemanha se caracterizou por ser uma equipe pragmática, muito concentrada, potente nos duelos físicos e que diferente dos principais rivais, USA e França, trabalhou a força do seu jogo por fora, com uma transição forte pelos flancos. Cruzamentos em propulsão, muitos desmarques das atacantes.

Espanha

O desempenho foi bom, mas alguns detalhes tiraram a possibilidade de passar em primeiro lugar no grupo. Como uma típica equipe espanhola, o time de Jorge Vilda trabalhou muito bem a construção ofensiva desde a primeira linha, com as zagueiras tendo papel fundamental com os passes longos. Contudo faltou arriscar mais no terço final, sair do ponto comum, das pontas que aparecem por dentro para somar passes e buscar uma bola que rasgue a defesa rival e deixe a companheira a ponto de marcar.

China

Jia XiuQuan me parece um treinador bastante dedicado ao trabalho defensivo e na busca por interiorizar em suas atletas, movimentos pré-definidos, que ajudam a tornar a decisão final mais simples. Vimos uma China sempre bem postada no 4-4-2, concentrada para defender, negando espaço pelos lados, sempre com uma dobra sobre a ponta rival e que buscava acelerar cada recuperação de bola, tendo a velocidade como arma ofensiva. Faltou capricho na decisão final.

África do Sul

Essa é uma equipe que poderia ter alcançado mais do que alcançou na participação. 4-4-2 com muita mobilidade no ataque, com uma transição ofensiva forte, participação das laterais em campo ofensivo. Mostrou bons mecanismos.

GRUPO C

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Itália

O trabalho de Milena Bertolini atingiu o seu ápice, com a classificação italiana em primeiro lugar na chave. Tivemos uma Itália muito aguerrida em sua busca por trabalhar a pressão alta, a capacidade de negar espaços em campo ofensivo e em cada recuperação buscar ser o mais vertical possível, trabalhando com lançamentos longos e com a transição em condução, por parte de Bonansea.

Austrália

Uma equipe muito australiana em termos de ideia de jogo. Sempre querendo ter a bola, sempre buscando atrair a pressão alta da equipe adversária e buscando trabalhar a construção com passes curtos até vencer a primeira linha de marcação e ter campo aberto para acelerar. Tomou a virada da Itália no primeiro jogo e perdeu a primeira colocação, mas é a melhor equipe do grupo e foi a melhor equipe do grupo nesta primeira fase.

Brasil

O trabalho do Vadão não é bom e isso pode acabar custando uma campanha mais longeva dentro do Mundial com a classificação na terceira colocação, mas o Brasil fez uma primeira fase positiva. Trabalhando entre o 4-4-2 e o 4-1-4-1, entre erros e acertos, foi uma equipe que contou muito com uma meia construindo desde o campo defensivo, Andressa Alves no primeiro jogo e Marta posteriormente, e que conta demais com a presença ofensiva de Cristiane para ter seus cruzamentos transformados em finalizações.

Jamaica

Seleção muito jovem e com muito para trabalhar. Tem velocidade e explosão nas peças de frente e vitalidade com as zagueiras, mas até o momento não sabe como utilizar isso da melhor maneira. A agressividade nos duelos apenas resultou em faltas e quebras do ajuste defensivo.

GRUPO D

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Inglaterra

Liga forte e trabalho sério, só poderiam resultar em boa participação no Mundial. Phil Neville teve sempre o 4-1-4-1 como escolha de sistema de jogo e trabalhou muito bem para potencializar as peças que possui. As laterais construindo por dentro, a volante afundando para fazer a compensação defensiva entre as zagueiras, pontas profundas e responsáveis pelo desequilíbrio ofensivo e uma atacante que faz de tudo e mais um pouco dentro do campo, trabalhando bem os desmarques, mas também abrindo espaço para a infiltração das meias.

Japão

4-4-2 como sistema de jogo, meio-campistas trabalhando pelas pontas, duas atacantes com a mobilidade como maior característica. O Japão foi sempre Japão na primeira fase, trabalhando as mesmas ideias que reproduz seja na seleção principal ou na equipe que foi campeã do último Mundial Sub-20.

Argentina

Merecia mais pelo que jogou a seleção argentina, que ainda conta com uma debilidade física evidente e que precisa evoluir no modo como se movimenta em campo ofensivo, trabalhando melhor sem a bola para ajudar a companheira que tem a posse. Ainda assim defenderam com muita coragem, mostraram evolução na transição defensiva, um problema de todo o ciclo antes da Copa.

Escócia

Viu a classificação escapar das mãos depois de abrir 3-0 contra a Argentina na última rodada, mas a realidade é que a equipe treinada por Shelly Kerr, fez um Mundial abaixo do que poderia. Mesmo com bons momentos no segundo tempo contra a Inglaterra e no primeiro tempo contra Argentina, faltou fluidez na zona central, faltou um trabalho mais efetivo de construção ofensiva, com uma saída de bola muito anárquica, sem trabalhar o melhor de suas peças.

GRUPO E

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Holanda

Sarina Wiegman segue trabalhando os conceitos que levaram a Orange a consquistar a Eurocopa. Saída em 2-3, laterais que trabalham muito bem da linha lateral para o centro do campo, pontas bem agressivas e quase sempre coladas a linha lateral, com uma atacante que precisa de poucas chances para botar na rede. Vivianne Miedema é aquele tipo de atacante que cria toda uma preocupação apenas por sua presença e acaba resultando em erro defensivo das zagueiras rivais.

Canadá

Mais uma equipe que teve o 4-4-2 como sistema base para a competição, mas com peculiaridades no funcionamento. Foi a equipe que melhor soube trabalhar o jogo na entre linha, com Beckie, a ponta pelo lado esquerdo sempre buscando trabalhar numa zona central quando a equipe recupera a bola e com a lateral esquerda se transformando em ala. Com isso teve quase sempre um 3-4-2-1 como desenho ofensivo para agredir.

Camarões

Alain Djeumfa merece muitos elogios pelo que conseguiu fazer com Camarões nesta competição. Ainda que tenha peças individuais abaixo do nível das outras equipes do grupo, conseguiu encontrar saídas coletivas para montar um 4-3-3 muito vertical, agressivo, pautado pelo jogo exterior e pela força dos cruzamentos. Equipe concentrada, aguerrida e muito forte fisicamente.

Nova Zelândia

Participação ruim da equipe treinada por Tony Readings. Teve o 5-3-2 como escolha de sistema de jogo, mas não soube trabalhar bem o ritmo baixo das partidas, buscando negar espaços e somar saídas apenas com jogo direto. Sua equipe sofreu para manter um posicionamento adequado e permitiu mais do que deveria nos contra-ataques.

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Estados Unidos

Intensidade nos duelos, coordenação apurada nas transições, saída de bola sustentada, laterais que constroem por dentro com uma qualidade acima da média… Jill Ellis tem em suas mãos uma equipe assustadora, que pode jogar de muitas maneiras diferentes, com muitos mecanismos diferentes e continuar muito forte. Versatilidade no melhor sentido possível é o que define essa equipe.

Suécia

Única equipe que utilizou o 4-2-3-1 em todas as rodadas, conseguiu trabalhar muito bem um jogo forte por dentro, contando com laterais mais defensivas e mais fortes no 1×1 e dependendo muito da capacidade criativa de Kosovare Asllani para chegar aos gols. Asllani tem a qualidade técnica de uma camisa 10 sul-americana.

Chile

Tem a melhor goleira do planeta, Christiane Endler, e apenas isso explica terem chegado com possibilidade de classificação para a última rodada. Equipe falha na transição ofensiva, sem conseguir somar saídas com efetividade. Defensivamente erros em todos os quesitos, apresentando uma fragilidade assustadora nos duelos pelo alto.

Tailândia

Complicado até tirar alguma coisa para destacar na equipe de Nuengrutai Srathongvian. Atletas muito abaixo em termos de competitividade e intensidade física. Fica a experiência de jogar no maior palco do mundo.

@riquemathias @Pedro17Galante

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