O que esperar do Brasil na Copa do Mundo?

Por Henrique Mathias e Ícaro Caldas Leite

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Estabelecer um modelo de jogo demanda tempo, ideias, contexto cultural, grupo de trabalho e compreensão/assimilação dos atletas diante aos pedidos de um treinador. Portanto é correto dizer que mesmo que todo treinador tenha suas inspirações, um trabalho jamais seguirá a mesma modulação de um outro. Ainda que se trate de um mesmo treinador.

Por exemplo, Pep Guardiola com Barcelona, Bayern e City. Ainda que na cabeça do Pep nada esteja diferente, o que eu não acredito, o grupo de trabalho mudou de clube para a clube, modificando a cultura de vida e de jogo em cada clube e tornando cada trabalho único.

O que busco dizer com isso, é que não existe certo ou errado quando se trata de pensar o jogo, existe execução que funciona e que não funciona, seguindo esta série de fatores que descrevi acima, e até o momento, o trabalho do Vadão não tem funcionado.

Desde que assumiu o comando técnico da seleção, o treinador busca implementar um sistema de jogo muito voltado a pressão alta, roubos de bola e verticalidade após recuperar a bola. Abaixo vamos acompanhar detalhadamente o que observei e compreendi das ideias do nosso treinador.

Momento defensivo:

Vadão tem trabalhado seus sistema defensivo através de uma marcação por encaixes e com perseguições longas, mas o que isso significa?

Nosso sistema defensivo trabalha com responsabilidades individuais, assim sendo, em cada partida o treinador tem como ideia, designar uma atleta para acompanhar uma rival específica em campo, fazendo daquela sua missão defensiva na partida. Desta maneira, o jogo brasileiro fica muito condicionado a abordagem mais agressiva e física.

Problemas

A coordenação para que o funcionamento de um sistema de encaixes seja produtivo, é fator fundamental e os encaixes têm formado de maneira pouco coordenada nos jogos do Brasil, assim sendo existe muito espaço entre as linhas, muito por conta de uma lentidão no escalonamento defensivo.

Virtudes

Nossas atletas têm uma boa capacidade física para pressionar alto, assim sendo conseguem ir bem no que diz respeito a abordagem agressiva em busca de um roubo de bola. Com uma melhora na coordenação como buscamos defender, o efeito seria muito positivo.

Brasil feminino pressao

Em termos gerais, com Vadão nosso sistema defensivo é físico, agressivo e caótico.
Com um bom funcionamento nos transforma em uma equipe que sufoca as adversárias, recupera muitas bolas em ofensivo e tira a confiança das atacantes rivais.

Com um funcionamento abaixo do esperado, o que acontece é que perdemos rendimento muito rápido, não conseguindo manter uma comunição efetiva dentro do campo e ficando assim sempre na corda bamba, onde uma ação equivocada se transforma em chance de gol para às adversárias.

Momento Ofensivo:

Como nossa ideia é pressionar alto, utilizar encaixes e roubar a bola em uma zona avançado, nada mais acertado do que buscar um ataque vertical, com muito foco nos contra-ataques e no corredor lateral.

Dentro do 4-4-2 utilizado pela seleção, existem zonas de pressão, com as atacantes pressionando muito alto na parte central, as duas meias que atuam aberto sempre em vigilância com as laterais rivais e a dupla que atua por dentro alternando seu posicionamento, para sempre ter uma pressionando a volante rival e a outra sendo a sobra, posicionada para ajustar o time em uma quebra de linha defensiva.

Quando recuperamos a bola, o cenário que buscamos é encontrar a equipe rival desajustada, com peças fora de sua zona de ação e desta maneira somar metros com rapidez, seja com passes curtos e sempre para a frente ou com a condução, o 1×1, como elemento de progressão.

Nos últimos jogos a nossa equipe pecou em algumas leituras, o que limitou nossa produção ofensiva. É preciso aumentar o leque de opções quando as adversárias fecham a linha de passe e também aumentar a confiança no passe final, aquele dado no ultimo terço do campo.

Problemas

Excesso de individualidade, pouca movimentação das peças ofensivas e uma quebra na criação de volume ofensivo, o que acaba por limitar o nosso poder de fogo.

Virtudes

Nossa qualidade criativa, nosso poder de improvisar. O sistema não está lapidado, mas pequenos ajustes, como aumentar o número de vezes em que as atacantes retornam a zona central para oferecer uma linha de passe ou aproximar as peças e saber a hora de retroceder para criar o espaço e depois voltar a agredir, deixaria nossa equipe muito letal. E são ajustes que podem acontecer após um período maior de trabalho contínuo.

Notas individuais:

Marta – Não existe muito o que falar sobre a Rainha em termos de acerto técnico ou capacidade criativa, porém duas coisas me causam preocupação para o Mundial.

1 – Obviamente o fato dela ter sentido uma lesão na fase de preparação, o que pode acabar fazendo com que entre em campo longe das condições ideais.

2 – O modo como Vadão a tem utilizado no momento defensivo. O treinador vem pedindo a Marta que feche o lado esquerdo do campo, recompondo como uma ponta e obrigando muito dela fisicamente. Vadão é quem manda e é soberano, mas eu tenho direito de discordar desta ideia. Marta é o que toda equipe do mundo queria ter.

Brasil feminino 442Marta aberta na segunda linha de quatro do Brasil.

É o poder de fogo, a capacidade de eliminar rivais com um drible, é a que pensa a frente dos demais e num lance consegue clarear toda uma partida
Acredito que deveriamos proteger seu aspecto físico, preservar o frescor do seu jogo, para quando estivermos com a bola, fazer tudo girar em torno dela, como o pilar ofensivo da seleção.

Formiga – É quem ajusta o trabalho defensivo e inicia as transições ofensivas. Aos 41 anos de idade, continua sendo uma peça imprescindível para o nosso sistema de jogo.

O que esperar do Brasil na Copa do Mundo?

É certo que o trabalho do Vadão não chegou ao Mundial no encaixe esperado e que a confiança não está alta como em Copas anteriores, mas o futebol é muito imprevisível e pequenos ajustes podem fazer uma diferença incrível.

O que podemos esperar é uma equipe dedicada, agressiva, que vai pressionar alto e jogar com toda a vontade do mundo. Para o bem e para o mal, temos uma equipe que deixa tudo dentro do gramado e nos resta esperar o que vai prevalecer: o risco ou a recompensa.

@caldasicaro e @riquemathias

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