O que há com o Grêmio?

Por Maurício Wiklicky

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Nessa análise tentarei resumir o que aconteceu com o Grêmio nessa última semana, nos jogos contra o Ceará, Juventude e Atlético. Uma derrota, um empate e uma vitória, uma reconstrução de um modelo de jogo perdido ao longo do ano. Desfalques, vendas, auto-confiança, pensar que manteríamos o alto nível sem treino, e um Gauchão que sabemos que engana muitos. E o principal erro desse foi ter acreditado que poderíamos jogar com três atacantes (quando Marinho entra no lugar de Alisson lesionado no primeiro jogo do ano). Marinho se foi, agora a consciência tática deve ser reconstruída. Falarei dessa reconstrução comentando sobre as quatro fases do jogo (não incluirei a quinta que é a bola parada), que são: ORGANIZAÇÃO DEFENSIVA, TRANSIÇÃO OFENSIVA, ORGANIZAÇÃO OFENSIVA E TRANSIÇÃO DEFENSIVA, o ciclo do jogo.

fases do jogo

ORGANIZAÇÃO DEFENSIVA

Jogo contra Ceará: Renato opta mais uma vez com Michel de zagueiro. Um erro já visto outras vezes. Mais um gol contra, pois ele não é da posição. Deixo claro que Michel não é o culpado, e sim sacrificado na posição. Veja abaixo o primeiro gol do Ceará, e a falha coletiva que há, exemplo claro de todas falhas de organização em um lance:

Ordem cronológica do 1° gol do Ceará:

• lateral com marcação encaixada
• depois vemos Michel marcando no meio campo (1° erro)
• Geromel se desloca para esquerda
• Capixaba e Everton não acompanham
• Rômulo não marca de perto o jogador que faz assistência
• Thaciano e Matheus Henrique deixam dois jogadores do Ceará livres, pois chegam atrasados

Jogo contra Juventude: temos que considerar o adversário, um time da série C. Ao mesmo tempo um time que depois que perdeu de 6 contra o Grêmio veio em evolução, com organização tática defensiva. Renato manteve o erro, com Michel de zagueiro. Porém dessa vez o Grêmio não teve problemas, pois o Juventude quase não atacou, e quando fez foi pelas laterais, nas costas de Capixaba e Leo Moura, que são laterais ofensivos.

Jogo contra Atlético: finalmente o tão aclamado zagueiro Rodrigues fez sua estreia. Parece que a teimosia de Renato com Michel na zaga terminou. Com Rodrigues temos o zagueiro jogando na zaga e nosso melhor volante de contenção no meio campo. O Grêmio fica mais protegido e organizado. Renato fez o simples, e o Grêmio fez uma partida sólida defensivamente. Não se viu tantos buracos na defesa. Os jogadores respeitaram suas posições e suas funções. O Grêmio volta a marcar por zona, que o consagrou nos grandes títulos. A zaga e os laterais ficam menos expostos, tendo menos confronto 1 x 1. Apesar disso ainda ocorrem erros de recomposição dos extremas na marcação e falhas individuais de posicionamento de Leonardo e Juninho Capixaba (esse último com várias deficiências defensivas, o que faz com que Cortez seja titular absoluto).

TRANSIÇÃO OFENSIVA:

Jogo contra o Ceará: nossa escalação mostrava um meio campo formado por Romulo, Matheus Henrique e Thaciano centralizado. Comecem a analisar nos próximos jogos essas três posições para analisar a transição ofensiva. Obviamente que um zagueiro (mais raro), ou laterais e extremas participam da transição (vamos deixar claro que todos jogadores precisam participar de todas fases do jogo no futebol atual), mas os dois volantes e o meia centralizado sempre participarão da jogada. Contra o Ceará apenas Matheus Henrique fazia essa transição, pois ele começava o jogo e tinha que organizar o time ofensivamente. Romulo se mostrou até agora muito lento e com passes burocráticos. Thaciano não sabe jogar centralizado, e ficava como um segundo atacante, não sendo opção de jogo. Com isso o Grêmio não tem controle de jogo, demonstra muita desorganização, onde as laterais são bem marcadas e o meio campo fica improdutivo.

Jogo contra o Juventude: Maicon e Matheus Henrique são os volantes, Jean Pyerre no meio. O trio é o considerado titular. Eis aqui o grande problema da criação do Grêmio: VELOCIDADE. Matheus Henrique é um condutor da bola. Maicon e Jean Pyerre são os organizadores. Até aí tudo bem, porém quem desses é veloz? E digo velocidade na criação das jogadas, na busca pelo espaço, nos desmarques de apoio (termo usado atualmente quando se refere ao jogador sair da marcação adversária e ser opção de passe ao companheiro que está com a bolada, sendo apoio da jogada)? NENHUM DOS TRÊS. Então, na minha análise Matheus Henrique, Maicon e Jean Pyerre não podem jogar juntos. Repito, o problema da transição do Grêmio e a velocidade, ao qual tínhamos com o excelente passe vertical de Douglas e depois com a movimentação de Arthur e principalmente Luan.

Jogo contra o Atlético: Matheus Henrique fora devido ao cartão. Com Rodrigues na zaga Michel vai para a sua posição de primeiro volante e começamos a voltar a ter uma cara de time (sim eu repeti o que escrevi acima de propósito). Maicon tem mais liberdade para atacar, pois sabe da maior proteção de Michel. Tudo passa pelo capitão. O Grêmio teve seu grande sucesso com a saída de bola com qualidade e velocidade, além da movimentação dos jogadores do meio campo. Sem um substituto de Luan (não vejo Jean Pyerre pronto e suas características são diferentes de Luan. Ou se joga com um centroavante móvel, ou Jean Pyerre será reserva), a presença de Maicon para a criação de jogadas e organização do time é essencial.

maicon

Maicon muito presente, em especial no primeiro tempo onde o Grêmio controlou o jogo.

ORGANIZAÇÃO OFENSIVA:

Jogo contra o Ceará: sem os jogadores para pensar o jogo, o Grêmio fica dependente de uma jogada individual, que se resume em Everton. André vinha em evolução até esse jogo. Estava participando das jogadas, e como a bola não chegava ele saia mais da área, porém no jogo contra o Ceará não produziu nada. Os laterais se mostraram, como ao longo da temporada, fracos no apoio. Na direita falta coordenação de Leonardo com Alisson. O lateral gremista sempre centraliza as jogadas (exemplo do segundo gol do Ceará, que veremos com mais detalhes abaixo). Já na esquerda falta capacidade técnica de Capixaba, que contra times de menor expressão se mostrou bem, mas que agora não corresponde mais.

Jogo contra Juventude: outra péssima atuação do nosso ataque. Foram poucas tentativas de gol (10), sendo 5 em gol, nenhuma realmente que levasse perigo ao gol adversário. A palavra do jogo contra o Juventude foi ambição, ou a falta dela. Um consequência de uma transição ofensiva sem velocidade, falta de mobilidade para ficar preso nas duas linhas de marcação do organizado Juventude. O Grêmio sem movimentos coordenados, e lentos foi de fácil marcação para o time da serra gaúcha. Leo Moura que poderia ser uma opção técnica preferiu se resguardar na marcação.

Jogo contra o Atlético: com um minuto de jogo já criamos mais chances de gol que o jogo contra o Juventude. Ímpeto é a palavra do jogo. Foram 24 finalizações no jogo, sendo 8 certas, com grandes defesas de Victor. Maicon organizando, com Everton e Alisson fazendo as jogadas pelos lados. Novamente faltou um pouco da parceria de André e Jean Pyerre, que tiveram chances de gol e não converteram. O pênalti perdido por André decretou sua substituição no intervalo, e a estrela de Vizeu, com bola colocação e potência no chute, fez aparecer o novo titular do ataque tricolor, que tem o mesmo número de gols de André no ano, com 1/4 do tempo. Outra alteração, essa por lesão, foi a entrada de Tardelli. Movimentação, triangulações, inteligência. É inegável que Tardelli em plenas condições será titular desse time. Porém, não esperem a recomposição dele para marcar. Sendo assim, o time mudará, pois não poderá jogar com dois volantes, um meia de criação, Tardelli e Everton. Mais um desafio para Renato.

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A mudança.

TRANSIÇÃO DEFENSIVA

Jogo contra o Ceará: aqui vejo o principal problema do Grêmio este ano. Junto com a transição ofensiva lenta e desorganizada, podemos considerar a transição defensiva com o mesmo problema. Como já escrevi em outras analises esse ano, a entrada de Marinho foi extremamente prejudicial para equipe, pois ficamos com três atacantes, e não mais extremas. Com apenas três jogadores no meio, sendo que um só recompõe e não marca, e essa é a função dele em um time organizado (Jean Pyerre), outro cansa no segundo tempo com a sobre carga (Maicon) e com um um primeiro volante que preza mais pela qualidade e controle de bola que na marcação, sobrecarregava a zaga. Aliado a isso problemas básicos de jogadores a frente da linha da bola, laterais subindo ao mesmo tempo e problemas técnicos e físicos dos nossos laterais. Um verdadeiro caos, que podemos ver em detalhes no segundo gol do Ceará:

  • Leonardo centralizando a jogada
  • 7 jogadores na frente da linha da bola
  • Capixaba atacando ao mesmo tempo
  • Os dois volantes na frente, sem cobertura
  • Leonardo e MH não conseguem tirar a bola
  • Everton não recompõe
  • Leonardo volta trotando, parece um pouco descompromissado (como muitas vezes)
  • 5 jogadores do Ceará contra Geromel, Michel e MH
  • Michel de zagueiro

Jogo contra o Juventude: ninguém falou, mas aqui foi um começo da reestruturação do time. O time ficou muito mais postado e organizado, com um dos laterais e um volante ficando na intermediária, assim evitando possíveis contra ataques. Falarão “mas era o Juventude”, sim, mas era o adversário que tínhamos no momentos para começar a voltar a ter uma postura de time. Não sofremos nenhuma jogada pelo meio, e pouquíssimas nas costas dos laterais.

Jogo contra o Atlético: novamente vemos uma postura mais organiza. A consistência na recomposição, contra os rápidos Luan e Cazares era essencial. A presença de Michel já garante mais isso. No primeiro tempo de domínio através da posse de bola, o Galo quase não contra atacou. Já no 2 tempo, o Atlético teve maior domínio, sendo assim ataques mais estruturados, e dos poucos contra ataques conseguimos estar organizados.

Falta muita coisa, foi só uma pequena evolução após jogos tão ruins contra o Ceará e Juventude (esse último na parte ofensiva). Mas é um alento até a parada da Copa América. Mudando algumas peças, o jogo mudará.

@mwgremio

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8 comentários sobre “O que há com o Grêmio?

  1. Análise perfeita amigo !!!!
    Na minha opinião , o Renato deveria sacar Jean Pierre ,jogar com Michel, Matheus Henrique e Maicon mais centralizado, com liberdade . Tardelli eu testaria como falso 9 .

    Paulo Vitor
    Léo Gomes
    Geromel
    Kannemann
    Cortez

    Michel(Cao de guarda)
    Matheus Henrique
    Alisson(Tardelli)
    Maicon
    Everton

    Tardelli(vizeu)

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  2. Eu tenho uma ideia de mudança de sistema para reaproveitar as potências encontradas no elenco, sei que é inexequível dada a frequência dos jogos e a cultura curto-prazista focada no resultado que é estimulada principalmente pelo modelo jornalistico sensacionalista, mas vai lá: Pensando nos quatro momentos, defesa por zona; transição ofensiva, sob duas formas de variações principais, lançamentos longos buscando atacar os espaços vazios no ultimo terço ou transições lentas buscando envolver o time adversário no campo defensivo enquanto os meias armadores avançam buscando espaço livre no campo ofensivo; ataque(momento determinante neste sistema), movimentação livre e incisiva, utilizar ao máximo as capacidades e habilidades dos jogadores de criação (trabalhar metodologias de treinamento que desenvolvam cada vez mais as potências técnicas dos jogadores aliadas ao conceito de liberdade criativa-associativa); transição defensiva marcada por pressão no portador da bola pelos jogadores do setor.
    Escalação:
    Goleiro- P. Megiolaro, promissor, irá possibilitar a transição ofensiva cadenciada ou a saída com maior precisão nos lançamentos longos.
    Defensores Centrais- Geromel e Kannemann, agressivos e velozes (caso saía Kannemann se necessitaria urgentemente de uma reposição de alto nível).
    Laterais- Matheus Henrique e Michel, associativos no estilo Guardiola, construtores iniciais de jogadas (ao contrário dos tradicionais laterais ofensivos, estes jogadores acrescentariam na construção das jogadas e, defensivamente, ao manter posição, resguardariam a defesa).
    1º Volante- Leonardo Gomes, todo-campista, Posição semelhante a desempenhada por Casemiro e Fabinho.
    2º Volante/ Meia-central: Jean Pyerre, extremamente técnico com muito potencial para desenvolver ainda, precisaria imediatamente desenvolver inteligência tática defensiva para fazer a leitura de quando precisaria ser mais defensivo ou mais ofensivo conforme as situações do jogo, papel decisivo para equilibrar o sistema.
    Meias criativos- Luan e Patrick, função principal criar oportunidades de gol, movimentação livre no ultimo terço de campo.
    Atacantes/ Extremos: Éverton e Tardelli, partindo dos lados do campo e buscando a infiltração. Total liberdade para driblar e finalizar.
    Atacando- 2.3.1.4; Defendendo- 4.4.2

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