Profissionais brasileiros no exterior – Entrevista com o técnico André Gaspar

Por Breno Barbosa

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O futebol brasileiro é referência pela capacidade em revelar diversos craques para o mundo e montar seleções memoráveis, no qual ganhou o status de “país do futebol”. Além do histórico em possuir muitos jogadores de qualidade, o Brasil vem sendo destaque pelo ótimo nível dos profissionais que integram às comissões técnicas das equipes brasileiras. Diversos clubes europeus e asiáticos vem apostando nos nossos profissionais e confiam neles para desenvolverem o esporte dentro dessas regiões. O MW Futebol, inicia hoje, uma série de entrevista com convidados que estão no exterior e irão relatar um pouco do cotidiano futebolístico fora do país.

O primeiro convidado foi André Gaspar, 46 anos, técnico do Daegu FC, equipe do futebol sul-coreano. Atualmente, o Daegu FC está nas primeiras colocações da K-League (Campeonato Coreano) e foi campeão da FA CUP 2018 (Copa da Coréia). Após passagem pelo Bragantino-BRA, André Gaspar vem realizando um ótimo trabalho no futebol coreano, inclusive adquiriu uma enorme experiência exercendo outras funções no futebol, o brasileiro já foi gerente de futebol e auxiliar técnico, além de ter sido
jogador profissional.

  • André Gaspar segurando a taça de campeão da FA CUP 2018 (Copa da Coréia)

MW Futebol: O que é mais difícil: Implantar uma ideia de jogo ou gerir um elenco?

André Gaspar: Acredito que seja gerir um elenco, pois quando temos jogadores de qualidade, fica fácil implantar uma idéia de jogo. Entretanto, para gerir um elenco com média de 30 jogadores,cada um tem sua personalidade,educações e culturas diferentes, etc. Ficamuito complicado para conseguir agradar a todos os atletas.

MW Futebol: Como manter um grupo que compre as idéias do treinador?

André Gaspar:Você precisa transmitir confiança aos jogadores, isso é o mais importante, desta forma eles irão acreditar nas suas ideias e nas implantações realizadas, consequentemente irão cumprir dentro de campo.

MW Futebol: Qual a importância de equivaler a parte tática, técnica, psicológica e estratégica? E, qual trabalha com mais ênfase?

André Gaspar:Acredito que todas as partes são necessárias e importantes, tanto técnica, tática ou psicológica. O mais importante é você unir tudo, extraindo um pouco de cada coisa e implantado no futebol, no dia-a-dia, nos treinamentos, nos jogos. É essencial absolver o máximo dos atletas dentro de campo.

MW Futebol: Como você se adapta diante do contexto da partida?

André Gaspar: Antes dos jogos, procuramos estudar cada adversário e sua características. É claro que, cada partida tem suas peculiaridades, podemos ter surpresas no início do confronto, mas nos dez, quinze minutos iniciais, nós procuramos analisar o oponente e passar alguma outra situação para os jogadores, que não tenha sido destacada na nossa preparação.

MW Futebol: Antes de assumir o Daegu FC, você disse, em entrevista ao site “globoesporte.com”, que: “Na Coréia, o futebol é muito dinâmico. Tem pouca qualidade, claro, mas é de muita força”. Mantém a mesma visão?

André Gaspar: Como falei, realmente é muito dinâmico, um jogo bastante corrido e disputado, enquanto a qualidade vem aumentando ao passar dos anos, mas a força e o dinamismo sobressaem dentro de campo.

MW Futebol: Você atuou como auxiliar técnico do Bragantino (sendo interino em alguns momentos) e hoje é técnico no futebol coreano. Quais são às principais diferenças de funções?

André Gaspar: Como eu joguei futebol, acho que fui caminhando de acordo com os anos, esse processo de jogador, auxiliar, agora treinador principal, isso foi muito importante,pois creio que não dei um salto maior que a perna, fui conhecendo o dia-a-dia, os bastidores, principalmente como auxiliar técnico. Aprendi como é ser treinador, um gerenciador de ideias e isso foi fundamental no meu amadurecimento para quando chegasse esse momento de técnico profissional, eu tivesse minhas próprias ideias e conceitos, para serem colocados em prática.

MW Futebol: Além da experiência na beira do campo, você teve um período como gerente de futebol. O que aprendeu e como isso ajuda na sua profissional atual?

André Gaspar: Tive essa experiência durante um ano, foi o maior prazer, pois nessa vida temos sempre que procurar aprender e ser uma pessoa melhor. É muito bom, aprendi muito com a parte logística e atualmente como treinador, me preocupo com a logística, alimentação dos atletas, acho que o técnico é isso, é um gestor de pessoas e hoje é necessário observar todos os detalhes, pois podem fazer a diferença.

MW Futebol: Considera que a profissão de treinador é desvalorizada no Brasil?

André Gaspar: Não sei dizer se a questão é ser desvalorizada, mas no Brasil, infelizmente, existe uma falta de profissionalismo. Os diretores, gerentes, deveriam analisar muito bem antes de contratar um treinador, acertar realmente na escolha e não demitir após dois, três meses, sem deixar o tecnico realizar seu trabalho. Então, eu percebo que os treinadores brasileiros são capacitados, porém mal reconhecidos no Brasil, isso passa muito pelas atitudes dos dirigentes.

MW Futebol: Faz alguns meses que conquistou a FA CUP 2018 (Copa da Coréia), como foi essa experiência?

André Gaspar: Foi uma sensação maravilhosa, o Daegu em dezesseis anos de existência, nunca tinha sido campeão e a gente conseguiu entrar na história do clube. No início do ano (2018), era um time desacreditado, inclusive a imprensa apontava como um candidato ao rebaixamento da K-League (Liga da Coréia) e nós demos a volta por cima, realizamos uma boa campanha na Liga e nos sangramos campeões na Copa.

MW Futebol: Quais técnicos são suas referências?

André Gaspar: Existe alguns treinadores que eu procuro me assimilar, no momento tem os europeus Pep Guardiola e Klopp, além de outros brasileiros, como Felipão, Vanderlei Luxemburgo e Parreira que fizeram história e são consagrados, desta forma procuro me espelhar nesses grandes profissionais.

MW Futebol: Existe alguma dificuldade na comunicação com os jogadores do Daegu FC?

André Gaspar: Claro que existe, sempre que estamos em outra país, uma outra língua, temos sempre essa dificuldade, porém faz cinco anos que estou na Coréia, então aprendi a falar um pouco e conto com um intérprete de confiança, ele me auxilia bastante e a comunicação não vem sendo um grande problema para mim.

MW Futebol: O futebol coreano mantém um padrão, não evoluindo com tanta frequência. Acredita que a falta de técnicos estrangeiros na K-League faz total diferença?

André Gaspar: Eles realmente são um pouco fechados, não sei se o problema é a falta de treinadores estrangeiros ou até mesmo a categoria de base. O sistema por aqui é meio diferente, o atleta vem direto da universidade, então ele é obrigado a estudar até os dezessete anos, somente após esse período, o garoto vai para um clube sub-17, fazendo a transição para o sub-20 e depois o profissional. Então, não tem muitas categorias de base, igual no Brasil que existem sub-11, sub-12 sub-13, sub-14, sub-15 e sub-16, na Coréia os clubes não tem essa característica, eles pecam nisso. Sobre os técnicos estrangeiros, acredito que é necessário abrir mais as portas, do ano passado até o momento, vieram mais estrangeiros, está tendo uma evolução e torcemos para continuarem nesse caminho, pois todas as ideias são bem-vindas e esses treinadores chegam para somar.

MW Futebol: Trabalhou por muito tempo em um time de menor expressão no Brasil e sabe que existe uma certa “pecarierdade”. A estrutura do futebol coreano, é bem diferente?

André Gaspar: Conheço bem o Brasil, pois trabalhei como atleta em vários times medianos, disputei série A3, série A2, série A1 (primeira divisão), série C, série B, passei por doze clubes, sei que existe muitas dificuldades. Porém, aqui na Coréia, a parte financeira e a estrutura não são os problemas, talvez a maior dificuldade seja essa organização para captar e formar os atletas. Mas, na parte estrutural, não posso reclamar, talvez seja a melhor que presenciei na minha vida.

O MW Futebol gostaria de agradecer ao mister André Gaspar, pela forma que foi atencioso durante a entrevista e respondeu com clareza todas as perguntas. Desejamos sucesso nessa trajetória, sabemos da sua competência e esperemos que possa brilhar ainda mais na Coréia, e até mesmo retornar ao Brasil e comandar clubes do primeiro escalão. Aos leitores que quiserem acompanhar um pouco mais do trabalho desenvolvido pelo professor André Gaspar, ele tem perfil no Instagram e Facebook, basta procurar por “ @hc.andregaspar “ e seguir todos os passos de mais um promissor técnico brasileiro.

@brenobmarketing

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