Segredos do campeonato brasileiro

Por Rodolpho Moreira

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Quase duas décadas após a adoção do sistema de pontos corridos no Campeonato Brasileiro, as premissas fundamentais do modelo já foram entendidas. Seja qual for o objetivo de uma equipe na competição, é sabido qual a pontuação necessária para cumpri-lo. Aprendemos muito sobre o acúmulo de pontos, mas pouco discutimos a respeito de como produzir mais pontos.

A edição de 2018 teve o campeão Palmeiras enaltecido como o time com menos jogadores utilizados. Dezenove posições abaixo, o Paraná foi a equipe com maior variação de atletas. Os clubes estavam extremados pela posição na tabela e também pelo uso de seus elencos. Antes desta ‘antítese Palmeiras-Paraná’, esta relação discrepante entre o primeiro e o último colocado só havia ocorrido uma única vez desde 2006, ano em que o atual formato de disputa foi implantado.

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Embora tal sincronia extremista não seja usual, é suficiente para suscitar dúvidas: como saber, por exemplo, se Avaí e Paraná ocuparam a “lanterna” pela utilização excessiva de jogadores ou se esse excedente se deu por estarem performando mal desde o começo?

A verdade é que esses são casos no qual não podemos nos basear – ao menos não isoladamente. Existem vinte equipes no campeonato, e as duas que ocupam a melhor e a pior colocação são pontos fora da curva. O comportamento coletivo das vinte equipes é muito mais importante do que o das que ocupam os extremos: você não saberá o que fazer apenas observando o campeão prosperar e nem o que não fazer só de olhar enquanto o time de menor pontuação afunda.

O quadro abaixo considera três diferentes médias para cada uma das últimas treze edições do Campeonato Brasileiro:

  • a média de jogadores utilizados pelos times do “G6”, o cobiçado grupo das seis melhores equipes que leva à Libertadores;
  • a média das equipes do “Z4”, a indesejável zona de rebaixamento que sepulta para quatro participantes o declínio à Série B;
  • a média “geral” do campeonato, isso é, considerando todas as vinte equipes.

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A primeira inferência ao comportamento do gráfico é óbvia: as seis melhores equipes utilizam em média menos jogadores do que as quatro últimas. Este foi um padrão quase intransgressível, com um único desvio tendo ocorrido em 2017, edição em que os piores se comportaram como os melhores. Mas antes de destrinchar esta exceção, é preciso entender como os melhores agem para alcançarem o topo.

O topo é um posto democrático e desapegado. Uma equipe pode ocupá-lo por trinta e sete rodadas e não ser campeã caso seja ultrapassada somente na última. Foi quase o que aconteceu com o Grêmio, em 2008. Quando o tricolor gaúcho venceu o São Paulo pela 20ª rodada daquele ano, estabeleceu uma diferença de 11 pontos para o rival paulista, além de consolidar a liderança assumida desde a 14ª rodada. O título gremista parecia questão de tempo.

O problema com as façanhas das grandes equipes é nossa tendência de atribuí-las ao peso da camisa e dispensar as análises fundamentais para entendê-las. Um novo título do São Paulo, que fora bicampeão em 2006 e 2007, já seria um grande feito. Porém, com o enorme desafio de reverter uma diferença de 11 pontos em 18 jogos, sem confronto direto com o principal concorrente, a proeza seria colossal. E foi: o São Paulo conquistou o título. Contudo, a magnitude desse triunfo ainda é equivocadamente atribuída ao peso da camisa são-paulina, e não a uma lógica cadeia de eventos.

Passadas as dez primeiras rodadas da competição (ou, como chamaremos daqui em diante, Bloco 1), os dois primeiros colocados eram também as duas equipes com menor variedade de jogadores.

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No “Bloco 2”, os times que produziram mais pontos foram também os que menos escalaram jogadores “novos” (isto é, aqueles que não haviam atuado nas dez rodadas iniciais).

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Na conclusão da 20ª rodada, a classificação geral do campeonato tinha como líder justamente o Grêmio, time que tinha o menor uso de atletas na competição:

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A recuperação do time do Morumbi nas rodadas que se seguiram, uma imbatível sequência de 12 vitórias e 6 empates, parecia inexplicável, mas o São Paulo se valeu de um expediente raro e historicamente bem-sucedido: não utilizou nenhum novo jogador nos “Blocos” 3 (da 21ª à 30ª rodada) e 4 (da 31ª à 38ª rodada), algo que só ocorreu outras três vezes desde 2006: em 2010, com Corinthians e Cruzeiro, e em 2011, com o Internacional, todas estas campanhas que resultaram em classificação à Libertadores.

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O Grêmio, time com menos alternância de jogadores nos dois primeiros blocos, liderava a competição no início do Bloco 3. O São Paulo, único time a não utilizar novos jogadores nos dois blocos finais, passou por eles invicto. E embora o objetivo deste texto e da pesquisa que o embasou seja trazer um pouco de lógica ao caos do futebol, é preciso admitir: não existe uma fórmula para o sucesso. Para classificar o futebol como ciência, devemos reconhecer seu caráter inexato.

Não existe fidelidade garantida entre as melhores posições e o uso dosado do elenco. Ainda bem: se o sucesso fosse produto apenas de uma baixa variação de jogadores, qualquer indivíduo com um básico domínio matemático estaria apto a comandar grandes equipes. Mas técnicos de futebol precisam de outros conhecimentos além dos aritméticos.

Os Segredos do Campeonato Brasileiro revelam que a estabilidade dada aos treinadores é tão importante quanto a sequência concedida aos jogadores. Do rol dos times campeões nacionais dos últimos treze anos, apenas dois levantaram a taça efetuando trocas de técnico: o Flamengo, em 2009, e o Palmeiras, em 2018. Os números médios comprovam que existe uma relação entre performance e continuidade de trabalho – as equipes mais prósperas são aquelas com menor rotatividade de treinadores.

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Ainda em 2008, podemos notar a relação inversamente proporcional entre pontos feitos e trocas de técnico. As quatro equipes rebaixadas (Figueirense, Vasco, Portuguesa e Avaí) foram comandadas por um total de 16 diferentes profissionais, e todas trocaram de técnico pelo menos duas vezes. Já dos seis melhores times, apenas um não iniciou e encerrou a competição com o mesmo treinador, e o melhor entre os melhores, São Paulo, era o que detinha o profissional com maior longevidade no cargo.

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Um estudo minucioso nos números e eventos do Campeonato Brasileiro revelou uma série de segredos que não podem ser percebidos apenas assistindo às partidas da competição. É difícil reunir num único texto uma pesquisa que engloba treze anos, e o objetivo deste artigo-piloto e de outros que o seguirão é provar que um melhor desempenho individual das equipes brasileiras e coletivo do futebol nacional está atrelado a um melhor uso do material humano existente: menor variação de atletas, projetos de longo prazo para treinadores e o reconhecimento de que, embora seja possível encontrar novas formas de vencer, será sempre impossível encontrar uma fórmula para a vitória.

@rodolphomn

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10 comentários sobre “Segredos do campeonato brasileiro

  1. Considerando a vivência de muitos jogos já assistidos observei o fato de que os times por diversas vezes apresentam uma melhora significativa na primeira partida sobre um novo comando. Poderíamos assimilar a um asmático que recebe um cilindro de oxigênio.Sua melhora é imediata, mas quando o efeito do imediatismo cessar, mesmo conectado à um cilindro de oxigênio ele vai voltar a sentir falta de ar.

    No entanto os números mostram que a rotatividade de técnicos leva a campanhas ruins, como provado nos estudos mostrados acima. Esse cenário me leva a concluir que podemos aplicar esses padrões que se repetem na construção de nossas linhas para um jogo, levando em consideração o tempo de trabalho de um técnico no comando de uma equipe e seu desempenho frente a trajetória de técnicos antecessores, desde que o técnico atual não tenha feito mudanças significativas no elenco.

    O modelo matemático do desempenho assemelha-se a uma parábola, onde o desempenho positivo imediato da mudança seria a assíntota esquerda. Com o passar do imediatismo seu desempenho vai piorando até chegar ao vértice, momento de pior desempenho, onde os técnicos normalmente são destituídos do cargo. No entanto caso a instituição resolva bancar a pior fase do técnico sua performace pode melhorar formando a assintota direita e levando o técnico a sair do clube apenas por troca de patamar, transferindo-se a um clube de maior expressão, ou não.

    Podemos comparar os casos de Roger Machado no Novo Hamburgo FC , transferindo-se ao Grêmio posteriormente. O caso de Fábio Carille na sua primeira passagem pelo Corinthians e até mesmo o caso de Sir Alex Ferguson do United (esse um caso incrível de um técnico que teve maus resultados, mas que o clube resolveu suportar o vértice da sua parábola de desmepenho, e que acabou por ter uma assíntota direita inacábavel que o levou a deixar o clube por falta de objetivos a serem alcançados a pela idade avançada), entre outros tantos.

    Enfim, parabéns pelo artigo. Muito bem escrito e fundamentado. Estou ansioso pelos próximos e lhe deixo a vontade para argumentar as minhas considerações acima.

    Desculpe pelos erros de português que possam aparcer, mas escrita em um celular é ruim e escrevi enquanto aguardava uma consulta ao dentista.

    Grande abraço.

    Glaucio Teichmann.

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    1. Glaucio,

      Tudo bem?

      Te agradeço pelo riquíssimo comentário. É legal pra quem escreve ver uma interação tão bacana quanto essa sua.

      Acho que seu comentário traz pontos muito aditivos e que serão discutidos em breve. Quando você falou de Sir Alex Ferguson, chegou ao exemplo mais extremo da classe de treinadores que sofre desse mal – trabalhos interrompidos no momento de maturação das ideias. Zetti disse uma vez que a estabilidade do técnico vitorioso é de 3 jogos. Com três insucessos em sequência, vira consenso que o treinador já não é capaz de extrair mais do elenco, e jamais considerado que ele e seu grupo passam por uma natural oscilação. Ninguém consegue manter 100% de rendimento em 100% do tempo.

      Fique ligado no Twitter do MW (@mwfutebol) para mais novidades e também no meu pessoal, onde falo integralmente de futebol (@rodolphomn).

      Grande abraço.

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