Futebol e sua relação com a rua

Por Alif Oliveira

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“Quem aprendia na rua continuava aprendendo melhor que os alunos das escolinhas. (…) Na rua todo mundo ensina todo mundo; é criança ensinando criança, é mais velho ensinando o mais novo. A rua tem a pedagogia da liberdade, da criatividade, do desafio e até da crueldade.”– João Batista Freire, Pedagogia do Futebol.

A rua foi durante tempos, a primeira e unicamente escola na formação de nossos jogadores de futebol. Em tempos de avanço diário da tecnologia e afins,raramente se vê crianças a jogar com a pelota, a descobrirem sozinhos, os segredos e curvas da bola, a desviarem de pedras, buracos, vidros, e das irregularidades que a rua lhes apresentava, ainda que importunas pelo caminho trilhado. A qualquer hora e qualquer lugar, para a criança era possível realizar o espetáculo do futebol em um jogo praticado na rua, onde qualquer objeto significante a uma bola, era realizado a um ambiente em que ela poderia criar resoluções de várias situações, criações de dribles e jogadas, tomadas de decisão, autonomia e confiança para jogar sem ter alguém para limitá-la.

A bola em princípio era feita de meia com objetos dentro, ou de borracha e até a chamada bolas de leite que fazia curvas inimagináveis. E os jogos e partidas que mal tinha horário ou resultado para terminar, o que muita das vezes os levava a competir de forma retumbante para a conclusão do jogo. Para não verem seus calçados novos estragarem, por inúmeras vezes jogavam descalços. Não era raridade ver os dedos do pé machucados pelo concreto, pedras e objetos encontrados pelo caminho da rua. Raramente existia interferência externa de adultos, a não ser muitas partidas assistidas, incentivando e comentando entre eles, que logo, algum daqueles meninos mais tarde, seria jogadores profissionais.

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Tendo o futebol um grande impacto sociocultural e esportivo, isso provoca logicamente uma enorme atração para a prática atual, e normalmente, é na rua que por hábito, começa a paixão e o gosto por este esporte, sendo iniciado por muitos meninos e meninas de forma espontânea, sem qualquer estudo e base teórica na orientação para tal aprendizagem. Este período que geralmente antecede a entrada para clubes, revela para nós a extrema importância no desenvolvimento do jogador com a bola e o conhecimento sobre o jogo. “No entanto, mais do que lamentar a extinção do futebol de rua, é importante reconhecer e aproveitar o ganho que torna esse esporte tão rico, nas condições que lhe traz ao desenvolvimento das habilidades para o jogo.” (Júlio Garganta).

Rinus Michels, ex jogador e treinador holandês e descrito como criador do futebol total, diz que “o futebol de rua é o sistema educacional mais natural que pode ser encontrado. Se analisarmos o futebol de rua, concluiremos que a sua força reside no fato de jogar diariamente de uma forma competitiva, com uma preferência de jogo em qualquer situação, fazendo-o normalmente em grupos pequenos”. Pelé, Cruyff, Maradona, Romário, Zidane, Rivaldo, Ronaldinho, Neymar, Messi, De Jong, Rodrygo, David Neres, Vinícius Júnior e Jadon Sancho. Parece que todas suas vidas foram passadas a um único habitat, que é a rua. Olhando suas histórias, não custemos a crer que a grande estrela do futebol mundial em 2026 deva estar agora, neste momento, em uma favela do Rio de Janeiro ou num bairro de Buenos Aires a passar fome.

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“No meu bairro em Porto Alegre passei a infância a jogar bola. Nunca me separava da bola, driblava, driblava, driblava sem parar. Jogava na rua com os meus amigos, mas também jogava horas sozinho ou com o meu cão. Na minha casa, tem bolas por todo o lado. Aproveito todas as oportunidades para improvisar um pequeno jogo no jardim, ou para me descontrair a fazer habilidades. A bola é a minha melhor companhia, é o objeto que mais amo na vida. Quando chove, jogamos com uma bola de tênis na sala. Na minha infância, a minha mãe podia me proibir de quase tudo, inclusivamente de sair, mas nunca de jogar bola”. (Ronaldinho Gaúcho, a uma revista portuguesa, 2004).

Liberdade e criatividade em perigo constante

O futebol é um hábito que se adquire na ação do homem,o futebol não se ensina, aprende-se fazendo. Um dos principais pontos do futebol de rua é que quase não se tem intervenção de adultos. “Antes, aprendia-se futebol nas ruas de terra ou campos de várzea. Não havia treinadores e acadêmicos, os meninos lidavam livremente com a bola. Com a urbanização acelerada, os garotos hoje aprendem a jogar em escolinhas com técnicos, preparadores físicos e equipamentos esportivos de primeira qualidade. Disputam campeonatos competitivos e perderam a liberdade. A espontaneidade desapareceu” (Rivelino, ex-jogador profissional). A realidade de hoje, é um futebol treinado e mecanizado, onde sobra pouco espaço para a criatividade, para a magia, para a liberdade e respeito pela bola.

A antiga lógica que estava referente ao futebol de rua, ou seja, o prazer no jogar futebol não pode ser retirado; é necessário que a criatividade seja a norma, por qual diz Jorge Valdano em que “a escola primária do futebol é o respeito pela espontaneidade e pela exercitação de habilidades”. Reparemos em equipes europeias buscando jogadores no continente sul-americano?! Neste continente, digamos empobrecido, o futebol de rua ainda é muito popular, tal como o talento, a liberdade e capacidade de improviso. Hudson Martins, ex colunista do MW futebol e atual colunista da Universidade do futebol e pesquisador no Laboratório de Estudos em Pedagogia do Esporte (LEPE) defende que “a partir de treinadores e treinadoras, estamos não apenas cerceando o jogar dos nossos pequenos e pequenas, como tolhendo sua criatividade, sua perspicácia, seus pequenos lampejos de desobediência – que também estão na raiz do nosso jeito de jogar futebol. Temo que todo este percurso esteja levando nossas crianças e jovens a um estado de equivalência, de mediocridade, todos causados por um jogar domado”. Os jovens passavam/passam horas a treinar os seus movimentos técnicos de passe e chute, usando paredes como parceiros silenciosos. Para que o futebol possa desenvolver adequadamente, ele terá que seguir uma ideologia: “Um futebol que não desautorize os sonhos e a emoção. Um futebol criativo, generoso e valente”. (Jorge Valdano)

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Desaparecimento do futebol de rua é um problema

“Sem dúvida que uma das razões para a falta de qualidade técnica de muitos jogadores, é resultado do lugar onde esses jovens aprenderam a jogar futebol. No meu tempo, a academia mais popular para descobrir os segredos deste esporte era a rua”. (Johan Cruyff)

É cada vez mais raro vermos crianças a jogar futebol em campos improvisados. O aumento do trânsito e da criminalidade banal são duas razões encontradas para esta situação, enquanto os desenvolvimentos de tecnologias atingem o ápice do mundo moderno e a passividade das crianças. Vários autores como Cruyff, RinusMichels, Klismann e Júlio Garganta encontram-se na mesma linha de pensamento, ao falar que hoje em dia é muito difícil encontrar ruas nas qual se possa jogar, verificando uma tendência crescente para a diminuição dessa prática. É o resultado do desenvolvimento das cidades, que foram invadidas pelo tráfico e da diminuição do tempo e espaço.

Na opinião de Gerson (ex-jogador profissional) “o futebol de hoje é diferente. É mais força física e intensidade, e menos arte. Johan Cruyff, por sua vez, compara o jogo de hoje a “um jogo de máquinas”, enquanto Valdo (ídolo do PSG e ex-jogador profissional) se refere que “hoje é mais fácil de jogar do que antes, porque não existem muitos jogadores de rua. O jogo é simplesmente mais precário e físico, falta inspiração, e o responsável é o desaparecimento do futebol de rua.” Para Tostão (colunista da Folha e ex-jogador profissional) “a grande diferença entre o Brasil e outros países consiste na alegria e na forma criativa de jogar, e onde se encontra isto, é na rua (….) o que lamentavelmente tem se diminuído”. E se hoje é difícil encontrar ruas em que se possa jogar, torna necessário para o nosso futebol encontrar estratégias que se possam voltar novamente ao futebol de rua.

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Sem dúvida, uma das razões da falta da qualidade técnica em muitos jogadores tem a ver com o lugar que os jovens começam a jogar futebol. “Agora vejo que há muitos jogadores físicos (….) há poucos jogadores atualmente que saibam usar ambos os pés”. (Johan Cruyff) – a rua permite a aquisição de experiências de uma forma completa e lúcida. O progresso do futebol moderno tem contribuído para o desaparecimento deste futebol “pobre” e indispensável, provindo repercussões negativas nas aquisições de certos hábitos e habilidades. Aqueles que dispõe de uma plataforma ampla de experiências, de emoções, de razões, podem recorrer a um grande repertório criativo. “Sem a rua, meu cardápio de soluções não era o mesmo” (Sócrates, ex-jogador profissional e médico). Johan Cruyff relata em seu livro “Me gustaelfútbol”, que quando era treinador do Ajax, “ia treinar muitas vezes com os meninos de 10 anos, não para o campo mas sim para a rua” (…) porque na rua, você cai, se arranha, se machuca, dói e sangra”. Com a introdução de um campo molhado, incomum, está você originando a antecipação, a rapidez. Você aprende a chegar primeiro, a soltar a bola antes e passá-la rapidamente.

“Enquanto isso, os garotos do Rio na arquibancada. Sem perder um jogo. Cada jogador do Fluminense era um professor para eles. (…) Eles podiam bater bola dentro do campo. A bola de pneu, que os moleques só chutavam quando ia fora (…) [Já] Os moleques do Retiro da Guanabara, não podendo ter nada disso. Nem o campo, nem a bola, nem a chuteira, nem as meias, nem as camisas. Jogando na rua, de pé no chão, com bola de meia” (Mario Filho, “O Negro no Futebol Brasileiro”, 2003).

Hoje, os futuros jogadores estão aprendendo, precocemente, nas escolinhas, a tática, as regras, a participação coletiva e escolhendo posições em campo, sem passar pelo estágio de diversão dos meninos de rua. O resultado dessa inversão é a transformação progressiva do alegre, lúdico e criativo futebol brasileiro, num esporte burocrático, disciplinado e feio” (Tostão,Folha de S.Paulo, 1999).

@Alif_OR14

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