Times Históricos da Premier League: De Beckham à Ronaldo. As trilogias dos Red Devil’s sob a batuta de Sir Alex – Parte 1

Por Felipe Henriques

Seja sincero: Ser tricampeão nacional já é algo para ser comemorado com extrema euforia pela dificuldade de superar o equilíbrio dos adversários, os rivais mais próximos e as diferentes estratégias que se enfrentam ao longo de 30, 34 ou 38 rodadas. Aqui no Brasil, podemos lembrar do São Paulo treinado por Muricy Ramalho que, de 2006 à 2008, dominou o Brasileirão com um forte sistema reativo potencializado por uma defesa quase intransponível.

Na Europa, podemos mencionar o Barcelona de Pep Guardiola e Lionel Messi, tricampeão espanhol; A Juventus que desde a temporada 2011-12 reina no Campeonato Italiano ou o Bayern de Munique, imbatível na Bundesliga desde a temporada 2012-13. Na Inglaterra, apenas três equipes haviam conseguido o feito de um tricampeonato seguido em mais de 100 anos de história de liga inglesa: Huddersfield (1923-24/ 1924-25/ 1925-26), Arsenal (1932-33/1933-34/1934-35) e Liverpool (1981-82/1982-83/1983-84).

O Manchester United, que havia somado dois bicampeonatos seguidos na Premier League, flertou com um tricampeonato pela primeira vez na temporada 1957-58, quando vinha de seu primeiro bicampeonato, mas viu o Wolverhampton conquistar seu primeiro título nacional. 37 anos depois, após faturar as duas primeiras PLs da história, os comandados de Alex Ferguson viu o Blackburn de Kenny Dalglish e Alan Shearer levantar a taça na temporada 1994-95.

Como se não bastasse, o Manchester United conquistou mais um bicampeonato nacional entre 1995 e 1997, mas novamente viu o sonho do tricampeonato bater na trave com o Arsenal de Arsene Wenger, Dennis Bergkamp e Marc Overmars conquistando sua primeira Premier League. Foram quatro títulos em seis temporadas que só mostram como o United de Ferguson havia assumido o protagonismo no futebol da Inglaterra sem deixar qualquer dúvida.
Sendo assim, não havia como negar que a “Era-Ferguson” predominava nos gramados ingleses mesmo em diferentes épocas: A primeira com a consagração da “Classe de 92” com direito ao primeiro tricampeonato da Premier League e uma histórica conquista da UEFA Champions League, nos mais alucinantes acréscimos da história do principal torneio interclubes da Europa, que consagrou o coadjuvante Ole Gunnar Solskjaer nos gramados de Barcelona.

Foto/Reprodução: Chicago Tribune

Depois, sob o comando de um veterano Sir Alex, um time que tinha o mais novo astro do futebol vestindo a lendária camisa 7. Depois de Cantona e Beckham, Cristiano Ronaldo também conquistaria o título europeu, dessa vez em Moscou, além de conquistar mais um tricampeonato na companhia de Wayne Rooney e Carlitos Tevez, além dos já ídolos vermelhos Rio Ferdinand, Gary Neville, Michael Carrick e o lendário Edwin Van der Sar.

Na primeira trilogia, os Red Devil’s se depararam com a missão de superar um trauma para realizar um sonho, já que a “Ressurreição inglesa” dependia de uma conquista inglesa na UEFA Champions League que não ocorria desde a fatídica “Tragédia de Heysel”, em 1985, quando torcedores do Liverpool provocaram a morte de 39 torcedores da Juventus na decisão daquela temporada. Como conseqüência, os times ingleses foram banidos das competições européias por cinco anos.

Antes da inesquecível conquista no Camp Nou em 1999, Alex Ferguson percebeu a necessidade de seu time ser adaptado para atuar em grande nível nas competições européias mesmo após a grande vitória sobre o Barcelona de Laudrup, Koeman & Cia, em 1991. Mesmo assim, havia um grande desafio de superar os últimos campeões, Ajax (95), Juventus (96), Borussia Dortmund (97) e Real Madrid (98), técnica e taticamente. Evoluir era necessário.

Além disso, os adversários da Premier League também haviam ficado mais fortes como o então atual campeão Arsenal, de Arsene Wenger, o Chelsea de Tore Andre-Flo e Zola, até mesmo o West Ham de Ian Wright, Frank Lampard e Rio Ferdinand. Com a perda do astro Eric Cantona, o United contratou o trinitário-tobagense Dwight Yorke do Aston Villa, como novo homem forte do ataque, o zagueiro holandês Jaap Stam, do PSV Eidhoven e o ala sueco Jesper Blomqvist, do Parma.

Taticamente, a equipe atuava em um 4-4-2 com Beckham e Giggs abertos pelos lados, a dupla histórica Roy Keane e Paul Scholes centralizados, com Yorke e Andy Cole formando um ataque sensacional. O interessante é perceber como a equipe funcionava bem nas duas fases com o poder de marcação de Keane/Scholes para fechar os espaços frente a grande área defensiva e também com a visão de jogo e boa capacidade de lançamentos precisos de seu camisa 7, David Beckham somados à velocidade e habilidade de Ryan Giggs.

Relembremos como Beckham iniciou a temporada 1998/99: A Inglaterra chegava a Copa de 1998 como uma das favoritas ao formar um time que reunia jogadores experientes como Le Saux e Paul Ince, o craque e capitão Alan Shearer e jogadores que disputariam seu primeiro mundial como os jovens Gary Neville, Michael Owen e o astro David Beckham.

Após uma primeira fase que deixou todos com o pé atrás, terminando o Grupo em segundo com seis pontos, um atrás da líder Romênia, a partida das Oitavas de final contra a Argentina foi encarada como uma revanche sonhada pelos ingleses após a polêmica derrota para a Argentina no Mundial do México em 1986, com “La mano de Diós” de Diego Maradona. Beckham era a esperança dos ingleses para conseguir sonhando com o bicampeonato mundial.

Porém, mesmo após o camisa 7 ter feito um golaço de falta contra a Colômbia que garantiu a classificação, acabou caindo na catimba argentina e perdeu a cabeça após uma entrada violenta de Diego Simeone, por trás, que motivou Beckham a revidar com um pontapé e acabar expulso, frustrando toda a torcida inglesa com sua atitude e tornando-se um vilão culpado por mais um fracasso do “English Team” em Copas.

Foto/Reprodução: AS

Tudo bem que a revanche teve um gosto saboroso em 2002 quando Beckham marcou o gol da vitória que ajudou a eliminar os argentinos na primeira fase, mas o astro inglês era um craque sem tanto prestígio e com a missão de liderar o United rumo a maior conquista de sua história. Não só isso, mas segundo o “The Guardian”, a batalha pelo título da temporada 1998-99 foi uma das melhores da história do futebol inglês.

Beckham foi fundamental para a temporada perfeita: Foram nove gols (6 na Premier League, 2 na UEFA Champions League e 1 na Copa da Inglaterra) e 18 assistências (11 na PL e 7 na UCL), mas além das estatísticas, algumas das principais vitórias teve sua participação decisiva, como o gol que abriu o placar contra o Arsenal na semifinal da Copa da Inglaterra, em Wembley, vencida por 2-1 com um dos gols mais bonitos da carreira de Ryan Giggs.

Pela UCL, Beckham reencontraria Simeone na fase de Quartas de Final no duelo contra a Internazionale e, dessa vez, levaria a melhor ao acertar dois cruzamentos precisos para o doblete do matador Dwight Yorke na partida de ida, em Old Trafford. Pela semifinal, outra assistência na vitória por 3-2 sobre a Juventus, em Turim, para o gol de Roy Keane.

Contra o Tottenham, na partida decisiva da Premier League e contra o Bayern de Munique, na final da UEFA Champions League, todos olhavam com atenção para o talento de David Beckham que, a cada toque na bola, parecia criar uma chance de gol a partir do nada. No mês de Maio/1999, em um espaço de dez dias, Beckham seria ainda mais pressionado mesmo após ter mostrado um desempenho de craque protagonista mesmo que tenha outras temporadas com mais gols e assistências ao longo de sua carreira.

No dia 16, o United receberia o Tottenham em Old Trafford e contou com um gol de seu camisa 7 para empatar a partida, conseguindo a virada e o título com Andy Cole. Dez dias depois, mais um título chegaria com duas assistências que resultaram nos gols inesquecíveis marcados por Teddy Sherringham e Ole-Gunnar Solskjaer nos acréscimos do 2T no Camp Nou. Decisivo e letal, Beckham ainda seria eleito o segundo melhor jogador do mundo pela FIFA em 1999, ficando atrás apenas de Rivaldo, que atuava pelo Barcelona.

Não podemos esquecer que na temporada 1998/99, o United ainda conquistou a Copa da Inglaterra ao bater o Newcastle de Shearer e treinado por Ruud Gullit por 2-0, confirmando o “Treble” inédito e histórico para os diabos vermelhos com gols de Sherringham e Paul Scholes. Em Dezembro de 1999 ainda teve a vitória sobre o Palmeiras em Tóquio, na final do Mundial Interclubes: 1×0, com gol de Roy Keane após cruzamento de Ryan Giggs.

Nos dias atuais, Beckham poderia ser um modelo de ponta construtor pelo lado direito, já que o velocista da equipe era Giggs. Mesmo considerando que temos um esquema tático mais compacto principalmente no meio-campo com a crescente importância de dominar o território do adversário e neutralizar as ações do adversário, podemos imaginar que o rápido raciocínio de Beckham, caso não fosse um jogador mais focado em sua “carreira de celebridade”, possibilitaria a ser um jogador de alto nível.

Outro ponto interessante foi abordado pelo jornalista Jonathon Aspey para o excelente site “These Football Times”, analisando que Beckham foi o “Regista que o English Team nunca teve”, fazendo uma interessante comparação com a adaptabilidade de Andrea Pirlo na nova função que realizou quando se transferiu do Milan para a Juventus e a capacidade de ambos de controlar o ritmo de jogo através da posse de bola no meio-campo que são ampliam seu futebol a muito mais do que limitá-los a grandes batedores de falta.

Nas duas temporadas seguintes, Becks liderou o Manchester United em assistências (15 na temporada 1999-00 e 12 na temporada 2000-2001), contribuindo de forma decisiva para que sua equipe tivesse o melhor ataque das duas temporadas, incluindo os 97 gols do bicampeonato que ainda teve 46 gols somados de Andy Cole (22) e Yorke (24), sem contar os 15 gols de Solskjaer, reserva da mortal dupla ofensiva. Um dos maiores ataques da história do clube.

Ao longo de sua passagem pelo United, Beckham marcou 85 gols e realizou 38 assistências em 394 partidas. Sem dúvida, simboliza uma geração vitoriosa que dominou a Premier League ao longo de uma década, sob o comando de um excelente gerenciador de pessoas.
Ferguson lidou com Cantona, Beckham e Cristiano, possibilitando que os três rendessem em altíssimo nível para representar e tornar lendária uma mística camisa 7, mesmo com personalidades diferentes.

Hoje, resolvi focar mais no desempenho de Beckham dentro dos gramados, assim como farei na Parte 2 desse texto falando sobre Cristiano Ronaldo. Até porque, na minha modesta opinião, apesar de toda a sua fama extra-futebol, o astro inglês fez o suficiente para ser chamado de craque, principalmente quando teve Ferguson ao seu lado.

@lipe_henry

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