Como temos observado o jogo?

Por Pedro Galante

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A observação é parte fundamental do método cientifico. O primeiro passo para formar conhecimento sobre qualquer objeto é observá-lo. Na sequência há o resto do processo: formulação de tese, testes, reformulações – se necessário – para chegar a uma conclusão. De qualquer forma, foquemos na observação.

Para que o conhecimento produzido seja válido a observação deve ser objetiva, deve se observar o objeto e somente ele; sem permitir que questões externas e posteriores influenciem a observação.

No cenário da análise do futebol, tem acontecido uma desvalorização e desvirtuação da observação como meio de obter conhecimento. Pessoas tem preferido aprender conceitos em livros do que vendo o jogo. E não há problema nenhum com a literatura – ela é muito válida na verdade – mas esse distanciamento do jogo é perigoso pois deixa os conceitos cada vez mais fechados, mais excludentes.

O jogo tem uma natureza caótica, é impossível organizar e entender ele por completo. Grande parte – e a parte mais mágica, diria eu – só se pode sentir. Qualquer tentativa de criar conceitos é falha em alguma instância. Da mesma forma que nenhum homem se banha no mesmo rio duas vezes, nenhum jogador faz a mesma jogada duas vezes. Isso não tira o valor dos conceitos e da intenção de conceituar o futebol e suas partes, na verdade só os valoriza mais.

Se o jogo é caótico e mais sensível que conhecível, os conceitos são a única ferramenta para tentar entendê-lo. No entanto é preciso conhecer suas limitações.

Limitações que tem aumentado graças ao citado movimento de desvalorização da observação. Ter contato com um conceito fora do jogo, influencia no momento que o indivíduo volta ao contato com o jogo, e essa influência desrespeita a condição básica (objetividade) para que a observação funcione dentro do método cientifico.

É claro que compreender os conceitos fora do jogo pode ser mais fácil, e até mais recomendado para quem se inicia no universo da tática. No entanto, isso se limita a conceitos mais simples, muitas vezes relacionados a ocupação do espaço – amplitude e profundidade, por exemplo. Conforme os conceitos vão se tornando mais complexos e tornam-se mais influentes a ação e a interação humana, é essencial formar esses conceitos a partir do jogo.

Tomemos um sistema defensivo como exemplo: são tantas as variáveis que influenciam esse momento (posição, posição corporal, movimento e distância de jogadores, adversário e bola, além de outros fatores externos) que é impossível que um conceito como o de defesa a zona explique por inteiro de forma detalhada o sistema defensivo de tal equipe. As particularidades são inúmeras.

Continuando no exemplo, o processo para caracterizar uma defesa não deve ser o de conhecer os princípios estruturais de defesa e os métodos de marcação e buscar “encaixar” a equipe nesses conceitos. Seria mais produtivo, uma observação objetiva da equipe nesse momento, percebendo os detalhes, buscando padrões, para posteriormente comparar essas informações com os conceitos existentes e chegar a uma conclusão. E na conclusão há de se perceber como existem peculiaridades da equipe que não se encaixam no conceito.

Esse método descrito é mais interessante para a análise, pois leva a uma experiência mais precisa do que é a equipe. Pode acontecer que a equipe tenha comportamentos que mesclam dois conceitos, ou até mesmo que não se encaixem em algum conceito.

Vamos a outro exemplo, agora no ataque. Existem três tipos de ataque segundo a academia e literatura: contra-ataque, ataque rápido e ataque posicional. No entanto, surgiram materiais muito interessante na internet a cerca de um novo tipo de ataque: o ataque funcional.

A quem interessar vale a pesquisa mais profunda, mas em termos simples o ataque funcional é um ataque que diferente do posicional, se organiza pela bola e não pelo espaço. Os jogadores vão a bola. É um estilo com muitas assimetrias e movimentações.

É claro que o fato de não ser um conceito consolidado pela literatura e academia, faz com que o proceder com esses conteúdos demande maior cuidado, mas não tira a validade de tudo que é apresentado. Ainda mais quando se verifica os conceitos no jogo e há uma explicação lógica para que os mesmos não constem em fontes mais consolidadas.

O ataque funcional representa muito do jeito sul-americano de praticar futebol. Aos poucos vem ganhando espaço no futebol europeu, mas não era praticado no velho continente. E os movimentos visando tornar o futebol ciência aconteceram majoritariamente na Europa. Sem experimentar o ataque funcional, é natural que nenhuma literatura acerca do tema fosse produzida.

Imagine se fechar somente nos conceitos fornecidos pela academia e deixar de entender uma forma tão interessante de conceber o jogo.

É por isso que devemos ter cuidado ao olhar para o jogo. Para conclusão, fica a frase do brilhante Júlio Garganta: “O futebol é demasiado arte para ser ciência e demasiado ciência para ser só arte.”

@pedro17galante

 

 

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