Grande jogo as margens do Guaíba: ANÁLISE TÁTICA – INTERNACIONAL 2×2 River Plate

Por Luiz MartinsJoão Victor

Em um Beira-Rio lotado, com seu mar vermelho pulsante de torcedores, assim como em todos os jogos de libertadores, o duelo entre Internacional e River Plate, o primeiro grande adversário a pisar no gramado do estádio em 2019, consolidou dois contextos bem diferentes sobre cada um dos treinadores. De um lado, Odair Hellman, jovem treinador, que mesmo com um trabalho regular, não é unanimidade entre os torcedores. De outro, Marcelo Gallardo (seu primeiro jogo após punição recebida), um dos técnicos mais consagrados e experientes do Continente.

Vamos então ao jogo:

O primeiro tempo teve o Inter como principal força. A equipe formatada em um 4-1-4-1 conseguia vencer com tranquilidade as pressões altas que o River Plate ameaçava encaixar. Com Bruno, Edenílson e D’Alessandro sendo destaques nesta transição. Esta força transicional se torna um ponto positivo, com a entrada de Patrick nos 11 iniciais, por ser uma característica fundamental de seu modo de jogo. Já D´alessandro, que se posicionou um pouco mais fixado pelo lado direito, sem tanto poder de movimentação, para não comprometer a marcação sobre o lateral-esquerdo Angileri, foi importante nesse cenário transitivo pelo fato de acrescentar passes de mais qualidade próximo a área, tanto que o primeiro gol (marcado por Nico López) surge de uma jogada sua pelo corredor direito de ataque.

inter1Destaque para a principal zona de atuação de D´alessandro na partida. Movimentação entre a ponta direita e centro, da base até a entrada da grande área (Fonte: Instat /Edição: Luiz Martins)

O River esboçava algo em contra-ataques, mas a lentidão de Enzo Pérez e Bruno Zuculini comprometia a saída de bola dos argentinos, desta maneira cabia a Nacho Fernández aparecer como principal articulador na tentativa de ativar Borré e Pratto no ataque. Junto a baixa intensidade da equipe argentina, o Internacional demonstrava uma ótima consistência defensiva, realizando ótimo fechamento de linhas de passe, mesmo que D´alessandro e em algumas situações Nico López não realizassem a recomposição, ficando sempre como opções de puxar contra-ataques, tendo Dourado realizando a compensação na direita (dependendo do balanço defensivo) e Sobis fazendo este movimento pela esquerda.

inter2Marcação colorada no primeiro tempo, em duas linhas de quatro, com Dourado compensando D´alessandro, que ficava como opção de contra-ataque e Sobis no lado oposto, cobrindo a subida de algum adversário na esquerda. (Fonte: Instat /Edição: Juno Martins)

O segundo gol colorado surge de uma boa jogada de Edenílson que, mais uma vez escancarou a lentidão do meio do River Plate, em jogada individual concluiu acertadamente, para o desespero de Germán Lux, goleiro adversário. Aqui mais uma grande demonstração da força do perde e pressiona colorado, aliada a velocidade de transição, duas das principais características da equipe de Odair.

Vale destacar também o péssimo primeiro tempo do zagueiro central Martínez Quarta e do lateral-direito Montiel. Qualquer jogada que surgia pelo lado direito resultava em boa oportunidade para o colorado. Patrick e Nico López promoviam o caos com suas progressões velozes, tendo em Rafael Sóbis um apoio para pivôs (mesmo que o camisa 23 colorado, não tenha realizado uma boa jornada, se colocava sempre como opção) e em Iago uma alternativa para ultrapassagens em velocidade.

Mais uma vez, os erros na estrutura argentina ficaram evidenciados. Com sua marcação em 4-3, pois Pratto, Borré e, dependendo, Ferreira ou Nacho deixavam de recompor, para serem opções nos contragolpes, as laterais ficavam com muito espaço para serem exploradas, sobrecarregando Montiel e Angileiri nas organizações defensivas.

inter3Marcação defeituosa do River, deixando espaços pelas laterais, que eram bem exploradas pelo Inter, mesmo que demonstrasse uma boa compactação. (Fonte: Instat /Edição: Juno Martins)

Com o placar a seu favor, o time do Inter contou com uma baixa inesperada, Bruno, que era um dos melhores jogadores na partida, tendo ótima leitura de espaço e conseguia ser um diferencial nos dois lados do campo, sentiu uma lesão e deu lugar a Zeca, que não está em seu melhor momento na temporada. Com a entrada do jogador, o setor defensivo colorado, foi desfigurado e o River já demonstrou indícios de melhora, ainda no primeiro tempo, conquistando um gol, em cobrança de pênalti.

Já no segundo tempo é quando surgem as figuras dos treinadores. Gallardo, precisando da vitória para ficar em condições melhores no grupo, se permitiu arriscar e acertou. Sacou Martínez Quarta e Cristian Ferreira para colocar Camilo Mayada e Nico De La Cruz, mudando toda estrutura da equipe. River antes estruturado em um 4-3-1-2, mudou radicalmente para um 3-4-3; Montiel, Zuculini e Pinola formaram o trio de zaga, dando mais fluidez à saída de bola e estabelecendo a equipe em campo adversário. Mayada e Angileri faziam as alas, na tentativa de criar mais espaços na defesa colorada, abrindo o campo de forma horizontal (amplitude) e Pratto aparecia afundado entre os zagueiros (profundidade), mas ele diversas vezes, com uma simples movimentação, saia bastante da área, para tabelar com Nico de la Cruz e Mayada, configurando uma formação 3-2-3-2, demonstrando toda a metamorfose que o técnico Gallardo conseguiu implementar na equipe.

Dessa maneira, Gallardo soube aproveitar o desgaste físico do Inter. Nico López e D’Alessandro não voltavam tanto para marcar e faziam com que Edenílson e Patrick tivessem que se desdobrar na marcação, sendo totalmente sobrecarregados no setor de meio-campo e em diversas situações, obrigando Rodrigo Dourado a subir a marcação e desguarnecer o seu setor, à frente da dupla de zaga. Assim surge o homem da partida, Nico De La Cruz. O uruguaio aproveitou o latifúndio que se abriu no meio do Inter, acuado em seu próprio campo e sem criar em situações de contra-ataque. De La Cruz partia da meia-esquerda com liberdade para flutuar na entrelinha, no espaço entre o volante, lateral e zagueiro, que estava totalmente exposto e articular os ataques argentinos. Justamente em uma dessas progressões, De La Cruz encontra Matías Suárez que sofre falta de Víctor Cuesta (uma falta totalmente desnecessária realizada pelo zagueiro argentino). Na cobrança de falta, De La Cruz (de novo ele) marca um belo gol para empatar o jogo.

inter4Nico de La Cruz recebia a bola sempre no setor entre meias, lateral e zagueiro (conhecido como meio-espaço), assim causando estragos na defesa colorada. Ele foi um dos destaques da partida. (Fonte: Instat /Edição: Juno Martins)

Odair não soube alterar sua equipe, sujeitando-se a pressão alta dos Millonarios. O treinador fez algumas alterações, na tentativa de retomar o controle da partida, mas todas ineficazes para recolocar o Inter no jogo. Promoveu a entrada de Parede e Wellington Silva, nos lugares de D´alessandro e Sobis, muito por questão de desgaste dos dois veteranos e melhorar a recomposição, porque sofria dificuldades na marcação dos lados do campo. É preciso que o técnico colorado se conscientize para os próximos jogos, pois em jogos de Libertadores, essa visão do treinador, que Gallardo teve por exemplo, é crucial e em uma fase mais decisiva, como se demonstra sempre em jogos de mata-mata de Copa, uma leitura rápida da partida e alterações, sejam de peças ou de formações táticas, decidem uma partida a seu favor.

@jvcardoso05

@ojunomartins

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