O sistema, as interações dentro do processo metodológico e sua relação com a abordagem sistêmica

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Partindo do ponto que o sistema não se resume somente ao posicionamento/formação em que se encontra a equipe dentro de campo e para entender essa relação e interação dentro desse sistema é necessário desmembrar seus elementos:

  • Vivo (porque trabalha com seres humanos, o que está relacionado ao seu grupo de atletas).
  • Dinâmico (porque trabalha com pessoas pensantes e que cada um tem a sua forma de ver o jogo).
  • Complexo (pela junção de vários elementos).
  • Organizado (por ter vários movimentos premeditados).
  • Interativo (porque busca a relação entre os atletas, a atmosfera do jogo e de todo seu ambiente).
  • Caótico (porque é formado por um conjunto de ações distintas,).
  • Imprevisível (para os adversários, por fim, ambíguo pela sua diversidade de interpretação).

Diante disso podemos concluir que para indentificar essa relação dentro do jogo é necessário analisar todo o ambiente que pode fornecer alguma influência, buscar analisar e perceber a relação que os atletas tem entre si, com a torcida, com os árbitros e todas as outras pessoas que englobam o que se refere ao jogo.

Partindo da situação em que uma equipe enquanto um sistema complexo e dinâmico procura ser de alguma forma imprevisível para o adversário, ela também busca a interação de suas ideias afim de provocar ações coletivas de acordo com o que está premeditado em seu modelo de jogo.

Segundo Daniel Guindos “o todo tem que ser maior que a soma das partes”, assim dando a entender que o conjunto de ações individuais alinhadas a uma forma de pensar dentro de um modelo de jogo se torna um ganho maior do que os demais movimentos e ações desconectadas.

Um grande exemplo dessa junção são os pontas de Pep Guardiola. Eles tendem a usar movimentos aleatórios e imprevisíveis devido a capacidade técnica que condiciona o improviso, na base da velocidade e do drible, porém tem o papel importante na hora de dar amplitude a equipe, buscar infiltrações e gerar espaços, tudo isso alinhado a organização prevista nas ideias que são definidas no modelo de jogo.

O modelo é responsável por tentar prever situações e se aproximar ao máximo das ideias que podem representar de alguma forma a tradução da realidade, porém por mais que se tente lapidar nunca será idêntico ao que de fato acontece na prática.

O confronto entre o plano empírico e teórico é o responsável por levantar questionamentos afim de saber se a sua construção das ideias são adequadas para o contexto em que está inserido, é a discussão necessária para saber se o que de fato é pretendido desde a elaboração das ideias pode ser adaptado e executado na equipe em que está trabalhando, a ponto de se adequar em todos os aspectos que envolve o modelo de jogo.

Tendo em vista que o contexto é um dos componentes mais importantes para o julgamento das ideias, afim de saber se elas são apropriadas para o momento, ele envolve os seguintes elementos:

  • Jogadores a disposição.
  • Suas características.
  • Qualidades e deficiências.
  • Competição em que o clube está inserido.
  • Perspectiva de resultado dentro da competição.
  • A cultura da região.
  • O investimento financeiro.
  • A cultura do clube.

Essa análise tem influência na parte de compreender se o contexto permite aquela determinada forma de pensar e executar as ideias de jogo, assim como para saber se as variáveis quando juntas combinam ou não com a proposta inicial da formação determinado modelo.

Para contextualizar citarei os seguintes exemplos:

  • Ficaria desconectada uma ideia de jogar com posse, buscar controle e criação de jogadas usando a troca de passes tendo um grupo de jogadores com características mais físicas do que técnicas.
  • Ficaria desconectada uma ideia de jogo reativo, de muita intensidade e uso de transições rápidas sem contar com um grupo de jogadores que lhe ofereça características atléticas.
  • Ficaria desconectada uma ideia de jogo defensivo tendo a disposição atletas com características mais técnicas no sentido de criação e controle, e menos senso de marcação.

A natureza sistêmica é importantíssima na questão de potencializar os métodos práticos e teóricos para transmitir o conhecimento que se obtém no plano de jogo para a sua equipe de uma forma mais dinâmica.

Essa prática pode se tornar o grande diferencial de implantação aos treinamentos, pois além de alinhar vários aspectos treináveis reduz a quantidade de treinamentos necessários para trabalhar aquele determinado exercício, isso alinhado ao calendário pesado que os clubes enfrentam junto com a baixa dos seus atletas, faz com que a opção pelo método sistêmico se torne um válvula de escape para equalizar a semana de trabalho das equipes.

A visão sistêmica busca alinhar vários elementos na sua forma de abordar, transmitir e executar as ideias de jogo, tudo isso numa tentativa de buscar uma conexão entre os elementos treináveis, que são eles:

  • Tático.
  • Técnico.
  • Físico.
  • Psicológico.

O método busca a interação entre os elementos tornando o processo mais dinâmico e produtivo. Diante disso se torna importante esse tipo de abordagem no sentido de se assemelhar ao que acontece de fato na competição, eliminando as teorias mecanicistas e com isso ajustando o seu tempo de trabalho de uma forma que consiga elaborar e treinar todas as valências num período mais curto de preparação.

O grande exemplo é o trabalho feito entre Guardiola e Lorenzo Buenaventura, preparador físico que acompanha o técnico catalão desde 2008. Ele é uns dos responsáveis por alinhar os métodos táticos para o entendimento do jogo no processo de preparação física, uma forma de abordar sistematicamente os exercícios para geração de comportamentos não deixando de lado a importância da preparação física e sim ajustando toda rotina de treinamentos para torná-la produtiva no quesito tático e com bastante intensidade, como mostra esse trecho abaixo tirado do livro “Guardiola confidencial” onde relata um pouco da função de Buenaventura nos times de Pep:

“Se tivesse que ir para a guerra, o primeiro soldado que Guardiola recrutaria seria
Lorenzo Buenaventura.”

“Buenaventura aprendeu com Seirul·lo a metodologia dos microciclos estruturados, que se baseia em pequenos ciclos de treinamento, de três a cinco dias, dedicados ao trabalho de alguma capacidade física: força de resistência, força elástica ou força explosiva, dependendo do jogador e do momento da temporada. Sempre utilizando a bola, o treinamento simula as condições técnico-táticas da partida seguinte. Ou seja, os jogadores treinam exatamente como jogam. E em cada minuto do treinamento estão presentes os princípios de jogo que Guardiola propõe.
Em todas as sessões, dá-se prioridade a determinados objetivos técnicos e táticos que Guardiola e Buenaventura estabeleceram: um dia é a saída de bola; no outro, a pressão depois de perder a bola no ataque, e assim por diante. A primeira sessão de trabalho do novo Bayern tem um protagonista: a bola.
Rummenigge estava curioso para descobrir como seria: “Quero ver logo os treinamentos para saber o que Pep mudará na equipe”. Matthias Sammer disse o mesmo com outras palavras: “Agora é o momento de conhecer Pep, de ele nos conhecer e de trabalharmos juntos da melhor maneira possível”. Para Rummenigge, Sammer e especialmente para os jogadores, o primeiro treino guarda uma grande surpresa. Não haverá corridas contínuas, nem séries de mil
metros, nem circuitos de musculação, nem atividades de atletismo: só uma montanha de bolas.”

Lorenzo recebendo instruções de Pep durante um treinamento no CT do Bayern de Munique.

Com relação ao processo de treino, podemos dizer que a característica essencial é ser “específico” para o que se propõe. Logo após as ideias do modelo é necessário saber exatamente qual tipo de atividade/exercício vai abordar da melhor forma o que o treinador quer que de fato aconteça no jogo. Esse processo é o responsável por criar mecanismos que serão repetidos a medida que as situações se assemelhem dentro das partidas.

“Treinar como se joga” está relacionado a “especificidade”, e com base nisso segue no link abaixo um exemplo de mecânicas ofensivas abordadas em treino de forma específica ao cenário que acontece no jogo:

Importante trazer exemplos de cenários para se analisar antes de abordar algum tipo de comportamento nos treinos, são eles:

  • Tempo do jogo.
  • Espaço do jogo.
  • Inferioridade/superioridade numérica.
  • Materiais/estruturas.
  • Estratégias.
  • Regras.
  • Resposta/Percepção/Feelling.

A partir disso se elabora uma série de situações para operacionalizar as mecânicas de acordo com o contexto.

A importância de alinhar todos esses conceitos e práticas é ter uma preparação mais organizada, dinâmica e produtiva. Para isso é necessário um trabalho conjunto de todo departamento de futebol do clube, desde o treinador ao analista de desempenho, do diretor de futebol ao preparador físico, cada um com seu papel imprescindível na hora gerar informação e executar ações para produzir as rotinas de treino.

@SampaioKleyton1

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