Individualidade: algo a ser respeitado

Por João Victor Cardoso 

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Em uma sociedade em que as concepções capitalistas nas relações (homogeneização de ações, mecanização do trabalho e superficialização das relações, por exemplo) estão cada vez mais difundidas é inevitável que o futebol também sofra respingos. Individualismos e subjetividades são suprimidos em busca de uma instalação que massifique e torne uma equipe algo menos caótico ou cheio de descaracterizações proporcionadas por meio de um lance que não está na cartilha do treinador, não foi planejado ou pensado para aquela ocasião, em outras palavras, o acaso.
O futebol brasileiro, historicamente falando, costumou ir na contramão disso. O camisa 10 com passe diferenciado, o ponta com o drible mágico, o centroavante com o domínio absoluto dos atributos de artilheiro e entre outras individualidades que acabaram por ser criadas e multiplicadas a partir destas terras. O que tem acontecido com a escola brasileira então? É notável que o sedutor jogo brasileiro (sintetizado pelas seleções de 70 e 82, por exemplo) tem perdido um pouco de seu brilho, recentemente. Mas por quê?

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Bom, uma das maneiras para se explicar essa queda da exuberância do futebol praticado por aqui está, a meu ver, na racionalização em demasia de certos atos. A supervalorização da tática, que teve como estopim o aparecimento de Pep Guardiola para o mundo, é um dos fenômenos que mais tem ligação com essa diminuição do aparecimento de individualidades criativas. Vejam que isso não se refere somente ao guardiolismo, óbvio que não, mas a um processo catapultado pelo aparecimento do treinador catalão que está a moldar uma grande parcela da nova geração de treinadores que, sem terem uma leitura de mundo adequada, acabam por estabelecer bases do modelo de jogo lá dos europeus aqui no Brasil.

O problema deste processo, além de toda a questão inconsciente de “espírito de vira-lata” que permeia o imaginário do povo brasileiro, está no esquecimento da história gloriosa que consolidou-nos como potência mundial e referência no futebol. Está perdendo-se algumas das características da “essência brasileira” (se é que podemos dizer que existe alguma com uma história tão rica e vasta), como a imprevisibilidade e irreverência com o estabelecimento de bases táticas que primam, primeiramente, pelo cumprimento da função pré-estabelecida pelo treinador.

É comum ver técnicos de garotos de 10, 11 ou 12 anos ir podando a liberdade criativa do jogador. Toda vez que a criança tenta criar algo novo a partir de sua imaginação é orientada a seguir o “protocolo”, vamos dizer assim, e dar um passe ao invés de tentar o improvável. Citemos um exemplo prático: menino de 11 anos em treino da escolinha pegou a bola e tentou passar por 5. Errado ou certo? A meu ver, corretíssimo. Primeiro por ser somente uma criança e querer explorar o lado lúdico do jogo, segundo pelo empirismo que irá adquirir para, em outros momentos, tomar a decisão correta, e terceiro: imagina se consegue?

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Remetendo ao pensamento do filósofo dinamarquês Søren Kierkegaard, é possível fazer alusão à crítica da racionalização em excesso do século XIX. Em Kierkegaard, há uma ênfase tremenda ao subjetivismo e à experiência pessoal e, vejam só, algo que está na raiz do futebol brasileiro! Nossos jogadores foram criados a partir do jogo de rua com aprendizado a partir de criatividade própria. Ali é onde desenvolvem os métodos imaginativos para, durante uma partida, explorar algo que empiricamente aprenderam e refletiram.

Importante ressaltar que minha crítica não está em Pep Guardiola ou ao jogo de posição de Cruyff e Michels, longe disso. Mas na utilização de métodos europeus na formação de jogadores que, por aqui e pela experiência própria, sempre se desenvolveram com perfeição. É, no mínimo, curioso que o “país do futebol” tente copiar, sem nenhuma adaptação ou contextualização, os modelos propostos pelos europeus. Valorizem mais a história da seleção brasileira. Dalí pode-se tirar muitas respostas para o futuro dela mesma.

@jvcardoso05

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6 comentários sobre “Individualidade: algo a ser respeitado

  1. Melhor texto que já li nesse site, brilhante quando relaciona essa mudança ao colonialismo que influencia o pensamento nas relações em geral e não só no futebol. Ainda complementaria que quando consideram a individualidade, tentam controlar ela a situações limitadas, como por exemplo, que o drible se restrinja as beiradas no terço final pra fazer o cruzamento. Estamos nos prendendo a uma mentalidade por demais controladora, quantificadora do jogo, desconsiderando o aleatório e o inesperado que a individualidade pode proporcionar. Fico feliz quando vejo um professor mais velho como o da escolinha em que meu irmão mais novo que tem 9 anos joga, ensinando exaustivamente coisas como tocar com o peito, corrida pra trás e depois o retorno dando o passe, chute, controle, cabeceio, manhas que vão ficando para trás com a supervalorização da orientação de posicionamento mais rígida e a quase que limitação total ao treino de dois toques por parte de alguns novos treinadores. Esse texto deve servir de inspiração e marco, para que todos os analistas, profissionais do futebol e torcedores, realizem o esforço de reunir o conhecimento sobre o nosso futebol em vídeos, entrevistas de técnicos antigos, análises de jogos emblemáticos, publicações de livros, para que este seja difundido. Modernizar sim, não ser purista, mas também não violentar traços positivos da nossa identidade e tornar o jogo desinteressante e sem desfrute para as crianças que iniciam no futebol e para os torcedores em geral. A trilha sonora da Copa de 1994, “Coração Verde Amarelo”, dizia que “o toque de bola é nossa escola”, só precisam entender alguns técnicos e analistas, que é o toque ao nosso estilo, com liberdade e intuição, e que qualquer influência de fora que seja incorporada, tem que ser mediada pela nossa história e cultura de jogo.

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      1. Por nada amigo, gosto quando um texto sobre futebol tem o cuidado de contextualizar as nossas relações sociais e nossa história para além do próprio futebol, porque se não partimos daí, erramos no diagnóstico. Para complementar, minha preocupação é que para além de ganharmos ou do estilo me satisfazer enquanto um acompanhante assíduo de futebol(seja ele posicional ou funcional), temos que atentar para o fato de que as outras pessoas que acompanham mas não são tão fanáticas por futebol e normalmente só acompanham seu time ou sentem o jogo de um modo não tão apegado a análises minuciosas, podem ir perdendo o interesse no jogo. O cara que chega do trabalho cansado na quarta de noite e que tira o domingo para abrir sua cervejinha, também está ali para se entreter, se emocionar, viver grandes histórias das quais pode guardar lembranças, por isso a preocupação de todos aqueles que lidam com o futebol também deve levar em conta a necesssidade de manter o interesse e o entusiasmo das pessoas com o futebol. Hoje em dia crianças e adultos tem várias outras oportunidades de entretenimento pelo celular ou computador, se não nos preocuparmos em fazer com que as experiências de ver um jogo na tv/computador ou no estádio seja algo prazeroso de se fazer, desfrutar, as pessoas vão simplesmente descartar isto do seu cotidiano.

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