O jogo é competição, e cada um compete como pode

Por Davi Magalhães

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Vivemos em tempos aflorados, onde o debate parece cada vez mais perder força. Discordar de alguém virou sinônimo de desrespeito. As redes sociais potencializam isso. Deixando o diálogo de lado. A imposição de ideias parece prevalecer sobre a exposição de ideias. Se o futebol é um reflexo da sociedade, no esporte mais popular do mundo, não é muito diferente.

Assim como na sociedade, os treinadores pensam o jogo de forma diferente (ainda bem). Afinal, ninguém é igual. Por isso, cada treinador compete de um jeito. O problema é que muitos analistas têm uma preferência quanto à maneira de jogar de uma equipe. Eles acabam desmerecendo ou pautando a análise de jogo pela preferência do “jogo bonito”

“Perguntas-te se gostas de futebol ou se gostas da tua ideia de futebol”

Luís Cristovão, comentarista e analista futebolístico.

Essa frase de Luís Cristovão, em seu ótimo texto sobre o tema, explicita muito bem a diversidade de ideias no jogo de futebol, e como essa diversidade é benéfica. Gerando reflexão, debate e assim, mais aprendizado sobre esse esporte maravilhoso. Que além de nos encantar e emocionar, é capaz de nos ensinar com as tantas maneiras de se jogar futebol e aos que pretendem analisar o jogo, é sempre preciso compreender os motivos de determinada maneira de jogar, não se limitando a egoístas preferências de jogo, desmerecendo quem possui uma maneira diferente de enxergar o jogo. Em todas as maneiras de se jogar futebol, há uma ideia por trás, onde procura resolver o mesmo problema: marcar o gol e não sofrê-lo. Afinal, tudo é uma questão de ponto de vista!

O futebol é o esporte onde o improvável mais vezes acontece. É o chamado “acaso”. Talvez isso que o torne tão apaixonante. Não existindo assim, uma maneira certa de praticar o jogo, ou uma fórmula para vencer. Um exemplo disso, é o título do Leicester da Premier League na temporada 2015/16, onde o improvável feito dos comandados de Ranieri quebrou inúmeras casas de apostas. Surpreendendo a todos obtendo sucesso jogando de uma maneira peculiar, sem não dar nem um espetáculo e encantar os fãs pela forma de jogar da equipe. Em outras palavras, eles não “jogavam bonito”. Mas, encantaram de uma outra forma, desafiando os gigantes da Premier League e conquistando um título improvável executando muito bem as ideias do treinador Claudio Ranieri.

Por mais que se tenha preferência a um tipo de jogo, é preciso tomar cuidado para não analisar de maneira errônea uma partida de futebol ou uma equipe. Pois, todas as formas de jogar são válidas. Essa diversidade de ideias sempre beneficiou o futebol, gerando reflexão aos pensadores do jogo, e consequentemente, novas tendências de jogo. A linha de 4 defensores surgiu em 1947, para tentar anular a eficácia do ponta de lança Ademir, jogador do Fluminense que atuava muito bem vindo de trás e marcando muitos gols contra os 3 zagueiros rivais. Flávio Costa, então treinador do Vasco, para solucionar esse problema recuou Ely, até então volante, para jogar entre um zagueiro e outro lateral. O intuito era anular as chegadas do ponta de lança adversário. O posicionamento desse quatro beques virou uma tendência, e mais tarde, o Brasil consagraria o esquema jogando em um 1-4-2-4.

“Um adversário fraco te enfraquece”

Mário Sérgio Cortella, professor, educador, filósofo e palestrante.

Essa frase dita pelo professor Mário Sérgio Cortella ilustra muito bem isso. Nas dificuldades que o ser humano cresce. Vemos isso no melhor treinador do mundo na atualidade. Pep Guardiola é um treinador que costuma refletir muito sobre o seu time, como atuar. Isso deve muito ao fato dos ótimos adversários que o treinador já enfrentou. Quem não se lembra dos sempre tensos confrontos entre Guardiola e Mourinho. Dois treinadores que adotam filosofias de jogo bem distintas. Os recentes duelos entre Guardiola e Klopp também representam muito bem isso. Em cada duelo, os treinadores precisam quebrar a cabeça para encontrar maneiras de superar o adversário atuando da maneira em que acreditam.

José Mourinho e Pep Guardiola protagonizaram históricos confrontos nesta década.

Pois, é com esse choque de ideias que os treinadores procuram evoluir. Trazendo ideias de jogo e as adaptando no cenário atual. Criando novas tendências de jogo. Contribuindo para o futebol, que assim como nós, muda com o passar do tempo. Cabe a nós, acompanhar, entender e respeitar todas as formas de competir. Afinal, todos procuram resolver o mesmo problema: marcar o gol. E se o futebol, é um jogo de competição, cada um compete de uma forma.

@magalhaesDavi_

3 comentários sobre “O jogo é competição, e cada um compete como pode

  1. Parabéns, por mais um ótimo e reflexivo texto, sobre futebol e seus melindres. Vejo o futebol como um desporto bem democrático e cada pessoa, por seus conhecimento vê o jogo que alcança, e, o que não pode acontecer, é vc, em quanto analista, querer direcionar o seu gosto por um tipo de jogar, e sim analisar o contexto apresentado de cada modelo, embora, ele possa ter a preferência, só, não pode influenciar e sim ter a neutralidade na análise do jogo. Valeu o texto.

  2. Acredito eu que o debate deva passar pelo significado da expressão “propor o jogo”, seria ela ligada apenas a equipe que possua a posse da bola? Não penso de tal forma, prefiro acreditar que propor o jogo é quem melhor realiza suas determinadas estratégias a fim de possuir ou não a posse de bola, vejamos como exemplo o Liverpool de Jürgen Klopp que controla as ações de seu adversário sem mesmo necessitar de ter números exorbitantes de posse. Como você mesmo disse, o jogo é competição e cada um compete como pode, ou como deseja.

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