Todocampista, box-to-box, psicologia e a participação do instinto e da intuição no futebol – Parte 2

Por Lucas Mateus e Breno Barbosa

WhatsApp Image 2019-03-08 at 21.52.04Freud, inconsciente, instintos e o Futebol.

Em um primeiro estudo, Freud havia imaginado a personalidade e a mente humana com apenas duas divisões: consciente e inconsciente.No lado consciente morava a razão, as decisões que tomamos através de pensamentos completos e levando em conta todos os fatores, no lado inconsciente vive os instintos, coisas que fazemos naturalmente, coisas que sequer pensamos, mas já estamos realizando, apesar de ter aprimorado e se aprofundado muito nesse estudo, essa base se manteve. Freud afirmava que a parte soberana era justamente o inconsciente, a parte maior e mais densa, nisso ele desenvolveu todo seu grandioso e importantíssimo estudo que o levou a ser conhecido em todo o mundo.

O Todocampista é uma função que exige muito da intuição, do instinto, da naturalidade nas tomadas de decisões as acelerando e tornando elas frequentes, aprimorando-as e potencializando esse lado do atleta. Saber quando e como se posicionar, se movimentar, moldar-se pelo movimento da posse, atuar em todos os espaços e partindo de diversos pontos, exercer o máximo possível de funções de forma natural, participar de todo o jogo, buscar ele, isso torna o indivíduo um Todocampista “Natural”.

O inconsciente do indivíduo voltado para tais funções o torna natural naquilo, saber trabalhar essa naturalidade e melhorar ainda mais o que já bem realizado pelo material humano é fundamental na formação dos Todocampistas atuais, essa parte é o que torna essa função diferente das demais. Não existe função que represente mais essa influência da intuição, dos instintos, do inconsciente no jogo.

NabyKeïta do RB Leipzig

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O atual camisa 8 do Liverpool, herdeiro de Gerrard, atraiu interesse de Klopp por possui essa naturalidade em ser o Todocampista do RB Leipzig. NabyKeïta impressiona em todos quesitos, apesar de ainda não ter demonstrado todo seu futebol na Premier League.

Naby parte de qualquer lugar do campo, seu ponto inicial pode ser qualquer um, conduz em qualquer orientação corporal, busca constantemente a posse, associa-se intuitivamente com seus companheiros, temporiza e distribui com muita facilidade, possui um bom movimento de pressing, ocupando o espaço na frente de seu adversário, fechando a linha de passe, mas também sendo agressivo e buscando o desarme, possui bom senso de pós-perda. Apesar de se destacar em cenários transicionais, ele possui um bom dote para cenários organizacionais, podendo romper linhas em condução, encontrar rupturas, finalizar de média distância, quanto exercer funções defensivas de forma pressionante. Naby é um Todocampista maravilhoso.

Mas, no Liverpool ele ainda não exerceu essa função, o mais próximo disso foi no jogo contra o Burnley, até por isso ele se encontra com certa dificuldade de se adaptar e encontrar seu melhor sob comando de Klopp, até por estar muito mais como potencializador que como potencializado. Naby acaba exercendo funções de meia pela esquerda, centralizando e liberando o corredor para os ataques de Robertson, em um 4-4-1-1, um Double-Pivot, mas preso a base, ou apenas acelerando com a posse.

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Quando se destacou na Bundesliga, na temporada 16-17, Naby foi fundamental no sistema dos alemães, e seu mapa de calor nos mostra muito disso:

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Esse mapa mostra tudo de como o natural de Naby é ser um Todocampista, ocupando todo o setor do meio, grande parte do setor ofensivo e do setor defensivo, procurando sempre a posse, quando atacava, construía, criava, participava de todos os momentos, buscava ser o epicentro do time. O instinto de Naby é ser um Todocampista, ele não se sente confortável ao esperar a bola, mas sim a buscando, tendo seu controle, acelerando, temporizando, conduzindo, criando, construindo, ele se sente bem quando obedece a seus instintos e sua intuição.

Há nuances disso em suas participações pelo Liverpool nessa temporada, sempre buscando a posse, sempre conduzindo, sempre buscando estar sendo uma opção de passe, uma opção de jogo, mesmo que esteja passando por um mau momento.

O seu maior destaque é sua condução, isso se aplica quando ele ganha metros sob controle da bola, ele consegue passar por adversários com tamanha facilidade que impressiona, muito disso potencializado pelo seu ótimo jogo de pés, o permitindo trocar direções curtas e velozes, tem em seus passes a capacidade de ativar mecanismos ofensivos com extrema facilidade, encontrar rupturas, possui uma boa finalização de média distância, um ótimo drible ainda no primeiro toque, uma capacidade incrível de se movimentar, ler o espaço, os movimentos, ler o jogo, gerar superioridades e ser sempre o jogador a controlar o ritmo, junto de Firmino isso será lindo de ver.

Keïta tem em seu inconsciente exercer essa função, a única coisa que seus comandantes precisam fazer é potencializar essa função e ai terem um dos melhores Todocampistas da atualidade, ainda não o vimos em Anfield, mas por ser uma função tão especial, precisa-se de tempo e adaptação, um jogador especial como ele precisa de “tratamento privilegiado”.

Naby ainda precisa de acelerar suas tomadas de decisões, seus movimentos técnicos e sua distribuição, ainda me parece meio egoísta nesse ponto, mas ali transborda talento, nítido de se ver a naturalidade com que ele ler e sente o jogo, apesar de estar em baixa.

Alguns dos melhores jogos de Keïta na Alemanha, tiveram esses mapas de calor, mostrando toda essa movimentação, consequência das funções que exercia, sua busca pela posse e por possuir seu controle.

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É incrível como sua participação acontece em todos os momentos, como se ele estivesse ligado no 220v por todo o jogo, intenso nos combates e nas transições, mortal no ataque, Naby é genial. Imagino quando ele estiver no seu potencial máximo, o quão bom ele será, afinal ele não apresenta limites, ele parece ser imparável.                                                    

Lucas Paquetá do Flamengo

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Uma das maiores joias do futebol brasileiro nos últimos anos, Lucas Paquetá se desenvolveu de forma balanceada e intuitiva nos conceitos do meio campo, se destacou no Flamengo por consegui participar em posições diferentes, foi interior, meia direita, meia esquerda, falso nove, meia atacante, Lucas Paquetá é completo.

Quando deslanchou no Flamengo, sob comando de Reinaldo Rueda, Lucas se destacava pela sua leitura do jogo, sua intuição, participação no ultimo terço. Canhoto e de bom físico, ele logo foi usado como falso nove, ainda nas finais da Copa do Brasil em 2017, o menino destacava pela sua entrega e participação em todos os momentos da partida.

Em 2018, ele se desenvolveu com o potencial de Todocampista, mesmo que essa nunca tenha sido as ordens de seus comandantes para o camisa 11 rubro-negro. Lucas era ativo em todo o jogo, construía, dava sustento físico na saída de bola, recuava para participar dela e potencializar Diego, aproximava-se da base da jogada, se postava entrelinhas, recebia em zonas de finalizações, bola parada, participação na pós-perda, e centro de ligação dos contragolpes, Lucas tem como atributo sua boa estatura, o permitindo fazer paredes, disputar bolas altas ofensivas e defensivas, lidar bem contrapressão, alinhado a sua habilidade com a bola, ele destruía as pressões adversárias com muita facilidade.

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O mapa de calor acima diz respeito ao Brasileirão 2018, mostra como Lucas ocupava, principalmente o corredor interno pela esquerda, mas aparecia constantemente em todo o campo, partindo de qualquer espaço, participando em todas as situações. Destaco as suas chegas a zona de construção e saída de bola, além das zonas de entrelinhas e finalização. Lucas era completamente espontâneo em sua leitura de jogo, buscando ocupar os melhores espaços, sempre buscando a posse, associando-se e criando superioridades para os mecanismos rubro-negros.

Isso o fez ser até explorado ao limite por Barbieri, tentando transformar ele em um potencializador, quando era um jogador para ser potencializado, Paquetá quando era acionado em situação de vantagem era o melhor jogador da equipe e de todo território nacional, com Dorival ele foi muito efetivo no ultimo terço, além de mais poupado fisicamente, o menino continuava participando como um Todocampista, porém, mais avançado no espaço do campo.

Com Barbieri ele era o potencializador de Vinicius, Diego, Everton Ribeiro e Henrique Dourado, sempre participando partindo de trás como um segundo homem de meio, sacrificado pela pós-perda má efetuada, junto de Cuellar, corria muitos metros de forma defensiva e construtiva, o que o levou a uma queda física.

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Com Dorival Júnior, Paquetá atuava mais no ultimo terço do campo, como um meia criativo, sendo potencializado, não potencializador, continuava como Todocampista, mas agora com menos obrigações transicionais, focando no descanso de seu físico, junto de Uribe, era o que menos acumulava funções defensivas nos blocos baixos e médios, buscando ter seu ápice quando a equipe atacava, muito devido ao cansaço de toda a temporada brasileira. Mas, mesmo sendo poupado ele continuou participando de todos momentos com muito êxito e tranquilidade, sua intuição o levava a isso.

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Apesar de não ser um motorzinho como Naby, Paquetá se destaca como construtor por ter uma boa leitura do jogo, uma boa devolução de primeira, participação com passes, temporização e controlador de ritmo, o jovem, atualmente no Milan, tem um potencial incrível para ser um dos melhores do mundo nessa função, para isso precisa de alguém que o potencialize nessas situações do jogo, melhore algo que ele já é extraclasse fazendo instintivamente.

Além de Lucas ter uma maior capacidade de finalização e assistências, Naby é mais um acelerador de construções, dinamizador do jogo, mais construtor que criador, a questão é onde ambos participam melhor, mas ambos participam em todos os momentos.

Todocampista e box-to-box, apesar de similaridades, funções diferentes

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Box-to-box, em tradução livre, área-a-área, ou seja, quando um jogador chega de uma área a outra, participa do momento defensivo e ofensivo.De características mais físicas, de intensidade e imposição, o box-to-box vem crescendo nos últimos anos, e algumas pessoas confundem essa função com a de Todocampista.

Diferenciar ambas funções é simples, basta focarmos no espaço ocupado por elas, enquanto o Todocampista deve partir de todo o campo, deve saber se movimentar por todo ele,  já que suas tomadas de decisões serão o epicentro do sistema da equipe, o box-to-box, apesar de participar efetivamente de todos os momentos, se limita a um corredor, se limita a um movimento vertical de ir e voltar, partindo do corredor vertical do espaço denominado halfspace, corredor interior-lateral.

O futebol inglês nasceu da fisicalidade, nasceu da condução, o “abaixar a cabeça e correr”, nesse contexto se desenvolve uma função que ocupa uma linha vertical do campo, correndo sempre pra cima e pra baixo, buscando dar fisicalidade, velocidade para ganhar metros, capacidade de imposição, nisso se destaca Kanté, transformado nessa função por Sarri:

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Postado no espaço do “segundo homem de meio”, o jogador dessa característica vem se desenvolvendo em todo o mundo, por ser um conceito bem atual do futebol mundial, muito usado para potencializar a famosa pressão pós-perda, dando físico no ultimo terço do campo, possibilitando um jogador com físico suficiente para uma infiltração, ganhador de metros em velocidade ao receber e conduzir em vertical, entre alguns outros aspectos. Sua movimentação pode ser representada dessa forma:

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A diferença das funções se dá pelo espaço, pelo domínio desse, enquanto o Todocampista deve dominar todas as zonas do campo, unir a técnica ao físico, de forma equilibrada, o box-to-box é um jogador muito mais de físico que técnica ofensiva, elo físico da sua equipe, se preocupando com o corredor interior-lateral, ou halfspace, são funções até parecidas, por todas estarem diretamente envolvidas nos 4 momentos do jogo, mas o Todocampista é um conceito mais complicado de se adequar.

Encerremos usando uma frase de Kant: “Todo o conhecimento humano começou com intuições, passou daí aos conceitos e terminou com ideias”.

A intuição não pode ser deixada de lado num esporte tão humano, tão subjetivo do indivíduo, não podemos deixar que essa característica morra, isso acontece quando enxergamos os jogadores apenas como robôs que seguem normas, muito pelo contrário, são eles quem fazem o jogo, o trabalho do técnico é potencializar esses talentos. A função de Todocampista é simplesmente o resumo desse elemento do jogo, um elemento fundamental para o lado jogador da relação.

@12Brenobarbosa e @LucaM008

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