Todocampista, box-to-box, psicologia e a participação do instinto e da intuição no futebol -Parte 1

Por Lucas Mateus e Breno Barbosa

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Carlo Dossi, escritor e influenciador da política italiana, já dizia: “A inteligência é feita por um terço de instinto – um terço de memória – e o último terço de vontade”.

Carl Jung, psiquiatra e psicoterapeuta suíço, dizia: “A criação de algo novo é consumado pelo intelecto, mas despertado pelo instinto de uma necessidade pessoal. A mente criativa age sobre algo que ela ama.”

Friedrich Nietzsche, alemão famoso por suas obras filosóficas, dizia: “Não é só a razão, mas também a nossa consciência, que se submetem ao nosso instinto mais forte, ao tirano que habita em nós.”

Ao analisarmos tais pensamentos, temos a similaridade de todos enaltecerem a importância e a influência do instinto na criação e desenvolvimento de algo.

Dossi descreve a inteligência como uma tríade, composta por instinto, memória e vontade. A inteligência, algo consciente, sendo composta por instintos, algo inconsciente, só demonstra como ambos os lados não são divergentes, mas harmônicos, suas junções formam o todo da personalidade humana.

Em interpretação simples, é claramente visível que para Carl o intelecto vinha do instinto, esse acionado por uma necessidade pessoal do indivíduo, sobre algo que ele possui amor sobre.

Nietzsche nos descreve um instinto mais forte, o coloca como tirano, como algo que comande, algo que seja superior, algo que lidere, que mande, que domine, a razão e a consciência.

Mas, qual o sentido de tal reflexão em um texto que, teoricamente, é pautado em futebol. Acreditem, o jogo é muito mais sobre instinto e intuição que sobre qualquer outra coisa. Talvez, seja dessa definição de instinto que possamos buscar algo relacionado a definição da “vocação natural para o futebol”, ou o tão falado talento.

O atleta tem uma relação de amor, das mais diversas formas, com o jogo, seus sentimentos, suas emoções, sua mente, tudo está voltado ali dentro das quatro linhas, é necessário permitir que ele tenha essa liberdade do instinto e da intuição, deve ser estimulado a qualidade do próprio jogador de, naturalmente, sentir as necessidades de cada jogo, usufruir de sua tomada de decisão, afinal o jogo é dele, ele é quem sente e quem decide.

O algo novo, citado por Jung, é algo que parte do próprio jogador, algo que ele faz, o algo diferente, algo que não venha de um sistema, mas sim do indivíduo, algo subjetivo, algo íntimo, algo intuitivo, algo dele, o jogo é dele, ele é do jogo, essa é a relação.

No futebol há a máxima da naturalidade para realizar tais movimentos que gerem situações, algo chamado de talento, esse talento vem de um instinto superior, um instinto que controle nossas ações sem que seja necessário interferências da razão e da consciência, o movimento que “saiu naturalmente, saiu no susto”, esse movimento é o que demonstra a influência desse tirano no jogo e nos jogadores.

Não há tempo suficiente para que pensemos em cada consequência de nossas ações dentro do campo, e é aí que entra o instinto, quando você não precisa “pensar” pra saber o que deve fazer, quando a sua mente é mais rápida que seu pensamento e já ordena que o corpo execute movimentos necessários naquela situação. Nessa visão apenas esse Instinto Tirano, conceituado por Nietzsche, é capaz de se “opor” ao caos do jogo.

Seguindo o pensamento de Dossi, podemos definir o instinto como inteligência do jogo, o jogador que interpreta os espaços de forma inteligente o faz com naturalidade, o faz por instinto, o faz pela inteligência, o faz pela memória e o faz pela vontade.

Dito isso, buscando inspirações em grandes pensadores a respeito do comportamento e mente humana, vamos buscar entender um pouco da função Todocampista e sua relação com o instinto e a intuição.

Todocampista: a função do jogador instintivo                          

Todocampista não se trata de uma posição,não se trata da ocupação de um espaço,Todocampista é uma função, ou seja, é uma ação, ou um conjunto delas, realizada em campo pelo jogador, uma função que se baseia nos momentos do jogo: de forma simples, é o jogador capaz de participar de todos os momentos com naturalidade e espontaneidade, sejam eles ofensivos, defensivos ou transicionais.

Todocampista, na grande maioria dos casos, é um homem de meio-campo, esse deve saber se movimentar, ter fisicalidade, velocidade, passe, controle, atributos defensivos, construir, criar, finalizar, acelerar, temporizar, em todos os espaços e corredores do campo de jogo, afinal ele terá de buscar a bola, e não a bola buscar ele, tal fato o torna uma função de sistemas anti-posicionais, incialmente.

No cenário atual, se analisarmos rigidamente, encontraremos pouquíssimos jogadores que realizem essa função de forma tão completa, se tornando uma função especial no futebol, uma função única de algumas equipes, um elemento que pode construir novas estruturas, criar novas situações, gerar o jogo de maneira diferente, logo não é fácil tornar a equipe apta a esse jogador, já que a equipe deve girar ao entorno dele, torna-lo o epicentro da equipe, o foco, o líder, o principal elemento do jogo.

O Renato Augusto de Tite

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A Seleção Brasileira de Tite contava com um homem que se encaixava nessa função, sendo fundamental para a nossa classificação a Copa do Mundo de 2018. Renato Augusto era o Todocampista de Tite, em um sistema anti-posicional. Renato tinha como foco a construção, a criação e a compensação das movimentações de seus companheiros, esse último ponto o tornou o Todocampista de Tite.

Como o sistema de Adenor se baseava principalmente nos desmarques, associações e movimentação de seus jogadores, um jogador como Renato era fundamental, suas compensações das movimentações permitiam que a equipe mantivesse o mínimo de sua estrutura, para que em casos de perda da posse, estivéssemos prontos para o balanço defensivo. Renato compensava as movimentações de Paulinho, Marcelo e Neymar, ou seja, compensava um interior de infiltração, um lateral esquerdo e um ponta esquerda, ou seja, ocupava o local antes ocupado por eles na associação, permitindo variação e mobilidade dessa, que, além dos quatro, tinha a participação de Coutinho.

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Como o Brasil tinha um ataque assimétrico, ou seja, que formava um lado forte e um fraco, sendo esquerda e direita, respectiva e preferencialmente, e Renato estava sempre próximo da bola, seu campo de atuação se concentra mais no lado esquerdo. Observe que em todos os três exemplos citados acima, Renato ocupa toda a faixa da esquerda, passando em todas as alturas, evidenciando assim sua compensação nas movimentações de seus companheiros.

Com a bola na direita, Renato partia de sua intuição, poderia exercer a função de Paulinho, como um infiltrador, ou poderia aproximar-se para gerar associação naquele lado, como o time se moldava pela bola, nessa situação a direita era o lado forte.

Logo que assumiu o comando da Seleção Brasileira, Tite convocou dois de seus “homens de confiança”, Paulinho e Renato Augusto, ambos foram fundamentais nesse sistema assimétrico, o primeiro sendo a arma do lado fraco nas infiltrações e o segundo como o Todocampista. Esse sistema só foi possível graças aos dois, Renato como potencializador das associações na esquerda e Paulinho como potencializado ao receber em infiltração.

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Indico para leitura.

Renato sempre foi um jogador de boa técnica, físico, leitura e interpretação do jogo e do espaço, apesar de não ter começado nessa função, ele foi se criando nela com o tempo. No Brasil de Tite, Renato exercia uma leitura incrível dos mecanismos, do espaço e do tempo, sabia como e onde se posicionar, ocupar e criar o espaço, lia os movimentos de seus companheiros para se colocar no lugar certo, compensando as movimentações, seu papel era crucial. Na saída de bola, participava ativamente, com seus companheiros de meio campo, dando apoio aos defensores.

Em uma ideia geral, Renato era um Todocampista do sistema de Tite, um compensador de movimentos e movimentações, um leitor de espaços e do jogo, o jogador elo para o sistema, que não permitia sua desestruturação. Nesse sentido ver-se muito da inteligência do jogador formado no Flamengo, em toda sua carreira adaptou-se a diversas posições, até se transformar num jogador capaz de compensar movimentações e se caracterizar como um Todocampista.

Kevin De Bruyne de PepGuardiola

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Quando PepGuardiola chegou no Manchester City, em 2016, Kevin De Bruyne já estava lá, um jovem potencial belga que havia se destacado em solo alemão, onde o próprio Guardiola havia trabalhado. Logo quando começou a ser trabalhado pelo catalão, o meio campista começou a se desenvolver em diversos aspectos do jogo, evoluiu como meio campista de criação, como construtor, como finalizador e como marcador.

Os maiores destaques para Kevin são seus passes, incrível como ele conecta os setores da equipe, se movimentando e acionando seus companheiros em passes de todas as distancias, é assustador a sua facilidade para encontrar passes longos de uma precisão incrível, Kevin é usado nas construções 3-2 da equipe, descendo o campo, enquanto David Silva se posta nas entrelinhas, aproximando-se de Fernandinho e sendo um dos maiores pesos construtores dessa estrutura.

Na estruturação dessa 3-2, geralmente, tínhamos: Walker – Stones – Laporte + Fernandinho – De Bruyne. O retorno do belga era focado em anular a pressão no meio campista brasileiro, criando uma situação de superioridade qualitativa e numérica no setor, visando sair pelo chão, quando houve a lesão de Kevin, Pep passou a utilizar Delph, Zinchenko e até Bernardo Silva nessa função, já que o meio campista brasileiro sofre um pouco em situações em que ele se encontra  pressionado. Foto de Leonardo Mirando (GE).

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O camisa 17 se movimenta sempre buscando proximidade da posse, organizador e ritmista, ele sempre busca e é buscado pela posse, sendo o grande responsável, ao lado de Fernandinho, para acionar os mecanismos de amplitude e profundidade, conta com uma ótima finalização de longa e média distância, usado muito contra defesas extremamente fechadas.

O belga se desenvolveu muito no aspecto defensivo, evoluindo sua intensidade posta nas pós-perdas dos citizens, em forma organizacional muito ativo no momento de defender em seu próprio campo, sabendo cortar linhas de passes, exercer pressão ao portador e proteger suas costas. A evolução de Kevin sobre comando de PepGuardiola o tornou um Todocampista, mesmo que pareça absurdo Josep fazer uso de um conceito tão “anti-posicional”, afinal iria “contra” o seu Jogo de Posições, mas o catalão soube ler e interpretar as necessidades do seu principal jogador, evoluir suas fraquezas e o tornar um dos, se não o melhor, meio campista do mundo.

Na temporada de 17/18, Kevin foi um dos melhores jogadores do campeonato inglês, e teve tal mapa de calor durante toda a Premier League, note como sua participação é muito ativa em toda a zona do último terço, bem presente no segundo terço, onde ocorre a construção, isso demonstra muito de como De Bruyne é a ligação da transição construção-criação da equipe de PepGuardiola, essa que por muitas vezes ocorre internamente, ou seja, priorizando o jogo interior da equipe.

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Destaque para sua participação ativa no terço ofensivo do Manchester City, sua capacidade de receber nas entrelinhas e encontrar uma assistência ou até uma finalização o potencializava como um jogador mortal nesse momento, Kevin reage muito bem contrapressão, se orienta bem para receber no espaço e buscar seus companheiros para o prosseguimento da jogada.

Abaixo alguns de suas melhores performances na campanha do título da PL, a crônica é a mesma, funcionando entre os momentos de construção e criação, ligando os setores tão bem divididos da equipe, ele é quem foge da normalidade, é o jogador responsável pela imprevisibilidade e tomadas de decisões desse time.

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Para encerrar essa primeira parte, deixo a vocês um pensamento de JaimesBalmes, filosofo e teólogo espanhol: “Uma das características do gênio é a intuição: ver sem esforço o que os outros somente descobririam com grande trabalho”. Talvez nada seja mais atrativo no futebol que fazer o difícil ser fácil, isso é o que define os grandes craques, e é nisso que mora o talento através da intuição e do instinto.

Na próxima parte, iremos tratar sobre o estudo de Freud, sua influência no futebol e a diferença entre box-to-box e o Todocampista.

@LucaM008 e @12Brenobarbosa

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