A psicologia por trás da queda de um treinador

Por Gabriel Mieli Fortuce

No dia 18 de Dezembro de 2018 Mourinho acabou tendo seu trabalho interrompido no Manchester United (a 3° demissão consecutiva) antes do término da temporada 2018-19. O que está por trás de tantas interrupções do trabalho de um treinador que é considerado, por muitos, o melhor do mundo ?

Para entendermos a reação em campo das equipes de Mou, vamos entender como o português trabalha psicologicamente seus times. Mourinho é um treinador que gosta de desafiar seus jogadores para que eles nunca se acomodem e caiam na zona de conforto, por isso o luso critica tanto seus jogadores publicamente, sem medo, e de maneira quenão aja dúvidas de quem está falando. Foi assim com Luke Shaw, quando disse em uma coletiva que o jogador deveria trocar de “cérebro futebolístico”, ou quando disse em uma entrevista para a rede de TV americana Univisión que o mesmo jogador já citado, além deMartial, Lingard e Rashford não possuem maturidade em nível pessoal, de caráter e de personalidade”. E apontou-os como “pouco produtivos”. Assim também ocorreu com o elenco do Chelsea e com as estrelas do Real Madrid (Onde conseguiu que Sérgio Ramos, Casillas, CR7 e outros virassem a cara para o luso), seus 2 últimos trabalhos antes da passagem pelo United, ambos também saindo pela porta dos fundos.

WhatsApp Image 2019-03-06 at 11.46.19Mourinho em uma das coletivas em que “ataca” seus jogadores.

Essa abordagem pode ser produtiva em muitos momentos, como foi no Porto, seu trabalho de maior destaque, por ter ganho a ChampionsLeague com uma equipe que não é acostumada a isso, um exemplo disso é em um jogo contra o Real Madrid no Bernabeuna temporada do título europeu, quando percebeu o medo em seus jogadores e disse-lhes para pedir autógrafos para os rivais se estivessem realmente sentindo-se inferiores a eles. Porém tudo que tem excesso não é bom. Estudos dizem que caso o ser humano esteja em uma tarefa mais desafiadora do que suas reais capacidades ele irá se estressar e em consequência disso o seu desempenho não será dos melhores, Mou tem feito exatamente isso com seus jogadores, exigindo-lhes muito, colocando-lhes sob pressão, deixando-lhes muito estressados e tendo o rendimento baixo como consequência.

Como nos estressamos quando estamos sob pressão ?

Temos duas estruturas chamadas amigdalas cerebrais no sistema límbico (parte do cérebro que comanda nossas emoções), que são responsáveis por detectar perigo e ameaças no nosso mundo externo, quando isso ocorre o nosso corpo reage para nos proteger, passa então por sobrecarregar nossa corrente sanguínea de hormônios como adrenalina (acelera o metabolismo) e cortisol (hormônio do estresse) e o cérebro passa a trabalhar em busca de uma possível memória para a resolução do problema da maneira mais rápida e eficaz possível, e no caso de jogadores de futebol, o que ocorre é que preferem um jogo de riscos quase nulo, como tocar para os lados excessivamente ao invés de tentar progredir, bolas longas ao invés de curtas, volantes e zagueiros não irão compactar o time ofensivamente por medo de deixarem espaços atrás e haverá buracos entre os setores (um dos grandes erros táticos do United sob o comando de Mou)e etc, pois as chances de erros são menores e, mesmo que não queiram, jogar assim passa a ser um extinto de “sobrevivência”.

WhatsApp Image 2019-03-06 at 11.47.09Uma Amigdala cerebral.

Outra coisa que Mourinho não entendeu é a mudança de gerações, pois hoje não basta um treinador chegar em um jovem como Pogba, que tem 33 milhões de seguidores no Instagram, e dizer-lhe que irá transforma-lo no melhor meio campista do mundo como era possível fazer com Frank Lampard em 2004, onde nem Orkut existia ainda. Gerações diferentes exigem tratamentos diferentes, o jogador atual tem muito mais chances de achar-se melhor do que realmente é, pois a mídia é muito maior, assim como o contato com os fãs, e a frequência dos elogios, em consequência o treinador precisa encontrar novos meios de motivar seus atletas.

Enfim, Mourinho vem sobrecarregando muito seus jogadores mentalmente, consequentemente vemos o desempenho de suas equipes abaixo do esperado em seus últimos trabalhos, pois o jogo mudou e hoje o que comanda o futebol são as tomadas de decisão e em uma equipe onde há jogadores estressados haverá comprometimento de decisões tomadas dentro de uma partida. Para treinadores que estão em atuação por muito tempo e querem manter-se no topo é necessária a constante modificação no trato com os jogadores, porque a sociedade evolui e a mentalidade das pessoas muda. Para encerrar a melhor frase que define esse texto é do filósofo Mario Sérgio Cortella, e que talvez explique o momento do treinador luso “Mudar é difícil, mas não mudar é fatal”.

@fortuce_gabriel

Se você quiser me acompanhar e saber mais sobre desenvolvimento pessoal e saúde mental, me acompanhe no Instagram: @gabrielfortuce.

Caso queira ter contatos com um conteúdo mais aprofundado sobre o jogo de futebol com análises de equipes, de treinamentos, de conceitos táticos e da situação do futebol brasileiro me siga neste outro Instagram: @entrelinhasdojogo

Me chamo Gabriel Mieli Fortuce, sou estudante de medicina, futuro psiquiatra e terapeuta. Também me interesso muito a fundo pelos detalhes do jogo de futebol, pois tenho a intenção também de ser treinador em alto nível.

2 comentários sobre “A psicologia por trás da queda de um treinador

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s