Times históricos da Premier League – BLACKBURN 1994/95

Por Felipe Henry

Onde as zebras são azuis…

Antes das astutas raposas de Leicester chocarem o mundo do futebol com o seu conto de fadas, comandadas pelo técnico italiano Claudio Ranieri e que consagrou Kasper Schmeichel, N’Golo Kanté, Riyad Mahrez e James Vardy na história dos grandes jogadores da Premier League, outro time que usava a cor azul e era facilmente confundível com zebras devido a seu uniforme listrado reuniu um timaço sob o comando de um presidente apaixonado e milionário.

Na temporada 1994/95, o Blackburn era comandado por um torcedor fanático que sonhava em ver seu time campeão nacional e derrotar os principais times do país. Jack Walker era uma magnata da indústria metalúrgica inglesa e a partir de 1986, quando fez doações para a reforma do estádio Ewood Park, começou a se envolver de forma mais direta com o time de coração, assumindo a presidência em 1991 e investindo pesado para o sucesso dos alviazuis.

WhatsApp Image 2019-03-02 at 08.36.37Jack Walker tem uma estátua em Ewood Park. Foto/Reprodução: Trivela.

Se nas primeiras temporadas não houve muito sucesso na nova fase milionária dos Rovers, Walker foi buscar um novo treinador que teria que ser de primeira linha para causar um impacto, mesmo com o clube ainda figurando na segunda divisão inglesa. O escolhido viria de Liverpool, que acabara de conquistar um tricampeonato da liga e um bicampeonato da Copa da Inglaterra sob o seu comando: Kenny Dalglish, o maior ídolo da história dos Reds.

WhatsApp Image 2019-03-02 at 08.36.37Kenny Dalglish é considerado por muitos o maior ídolo da história do Liverpool. Foto/Reprodução: These Football Images.

Sir Kenneth Mathieson Dalglish ou “King Kenny” como é chamado pelos torcedores do Liverpool, consagrou a camisa 7 dos Reds com o total de 515 oportunidades e 172 gols, conquistando inacreditáveis 25 títulos. Os principais? Três Copas dos Campeões (Atual UCL) e oito campeonatos ingleses. Uma simbiose super bem-sucedida entre torcida e jogador, com amor e respeito recíprocos de clube, torcida e o escocês.

Porém, em Fevereiro de 1991, surpreendeu a todos ao se demitir do cargo de treinador alegando problemas de saúde e inaptidão para tomar as decisões corretas e comandar o time em campo. No documentário “Kenny”, sua família revelou que o histórico camisa 7 estava no auge de seu estresse pós-traumático causado pelo enorme envolvimento emocional no Desastre de Hillsborough e sem buscar qualquer tratamento.

WhatsApp Image 2019-03-02 at 08.36.37Kenny Dalglish e o capitão Tim Sherwood. Foto/Reprodução: Trivela.

Oito meses depois, Walker e Dalglish iniciariam uma vitoriosa parceria.

Walker afirmara a Dalglish que como técnico do Blackburn, teria menos pressão por resultados e títulos, muito embora, o milionário quisesse realmente ao menos uma taça em seu escritório. Na temporada 1991/92, os Rovers lideraram a Championship por três meses até sofrer uma sequência de seis derrotas e ir parar na sétima posição, tendo que correr atrás do prejuízo nas quatro últimas rodadas para conseguir uma vaga nos Playoffs de acesso.

Como técnico, Dalglish reunia duas características importantes para qualquer treinador que, independente de seu estilo de jogo ou forma de ver futebol, precisam ter para gerir o seu elenco de forma eficiente: Ser um bom construtor de equipe e um cara que saiba motivá-la para individualmente e coletivamente, renderem no máximo de sua capacidade. Na decisão da vaga, uma vitória sobre o Leicester em Wembley confirmou a estréia dos Rovers na Premier League na temporada seguinte.

Depois de 27 anos, o Blackburn estava de volta à primeira divisão. Logo na temporada de estréia, conquistou um surpreendente quarto lugar. Na temporada 93/94, a terceira com Dalglish no comando, foi vice-campeão. Nas duas vezes, ficando atrás do Manchester United de Alex Ferguson e Eric Cantona. Walker havia investido pesado em contratações em sua primeira temporada na elite: £ 11,4 M, para começar a montar a base do futuro campeão inglês.

Logo de cara, o xerife escocês Colin Hendry havia sido umas primeiras contrações e ganharia uma dupla companhia nórdica com as chegadas do norueguês Henning Berg e o sueco Patrik Andersson, ambos os zagueiros de 23 anos. Para a lateral-esquerda viria um dos grandes laterais-esquerdos da história do futebol inglês: Graeme Le Saux chegaria após ser adquirido junto ao Chelsea. Para o meio-campo, Stuart Ritley, vindo do Middlesbrough e Tim Sherwood, destaque do Norwich, seriam peças importantes da equipe de Dalglish. Porém, ainda faltava o “Franchise Player”.

WhatsApp Image 2019-03-02 at 08.36.37Graeme Le Saux é, sem dúvida, um dos grandes laterais-esquerdos da história do futebol inglês. Foto/Reprodução: Jersey Sport.

Alan Shearer é, sem dúvida, um dos grandes artilheiros da história do futebol inglês. Após estourar com a camisa do Southampton e tornar-se o jogador mais jovem a anotar um hat-trick, atraiu o interesse de Manchester United e Liverpool, mas fechou com o Blackburn logo após a Eurocopa de 1992, se tornando a contratação mais cara da história do futebol britânico até então: £ 3,6 Milhões, sendo a grande aposta dos alviazuis para fazer história.

WhatsApp Image 2019-03-02 at 08.36.37Alan Shearer foi o MVP da Premier League 94-95. Foto/Reprodução: Premier League Brasil.

Se Shearer chegaria para ser o grande craque da equipe, ainda ganharia um aliado de luxo: Chris Sutton, destaque do Norwich e que havia marcado 25 gols na temporada 93/94 com apenas 21 anos, chegaria contratado por £ 5 Milhões. Antes dele, os meio-campistas David Batty e Paul Warhurst e o goleiro titular da seleção inglesa na época, Tim Flowers, completaram a lista de contratações para formar um timaço que seria comandado por Dalglish. Aliás, Flowers se tornou o goleiro mais caro da história do futebol inglês na época, contratado por £ 2,4 Milhões.

WhatsApp Image 2019-03-02 at 08.36.37Tim Flowers chegava ao Blackburn com status de estrela. Foto/Reprodução: Trivela.

Mas como Dalglish arrumava esse time em campo? Com o tradicional 4-4-2 com duas linhas de quatro, um esquema tipicamente inglês.

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Mas quem eram os jogadores que brilharam sob o comando de Dalglish?

Começando pela máxima de que todo grande time começa por um grande goleiro, Tim Flowers tornava-a verdadeira, já que fazia parte da seleção inglesa na época defendendo o English Team na Euro 96 e na Copa do Mundo 1998. Contratado junto ao Southampton, era um líder nato e difícil de ser batido, já que na temporada em que foi campeão teve um total de 17 clean sheets, sofrendo 33 gols em 39 jogos, sendo eleito o melhor goleiro da temporada.

Nas laterais, dois jogadores extremamente consistentes: Berg era um lateral-direito com características mais defensivas, que também poderia atuar como zagueiro central. Destacava-se por sua disciplina tática e força física que potencializavam seu poder de marcação.

Le Saux, por sua vez, era uma das principais válvulas de saída de bola com muita velocidade e capaz de criar boas chances de gol com sua potente perna esquerda, além de sua habilidade no último terço para ser um interessante elemento surpresa. Uma curiosidade é que Le Saux foi o destaque de uma partida entre Brasil v Inglaterra válida pela extinta Copa Umbro, vencida pelo Brasil por 3-1, por marcar um golaço de fora da área que abriu o placar no primeiro tempo.

Juninho Paulista (que ainda não atuava pelo Middlesbrough), Ronaldo e Edmundo marcaram os gols da vitória canarinho. Tim Flowers, David Batty e Alan Shearer também atuaram pelo English Team nessa partida que foi disputada em Wembley.

Continuando na linha de defesa, havia uma dupla que somava experiência e juventude. O veterano escocês Colin Hendry, que curiosamente iniciou a carreira como atacante, atuou na equipe de 1991 à 1998, tornando-se ídolo da torcida e uma das principais referências em campo, sinônimo de liderança para os torcedores.

Já Ian Pearce tinha apenas 20 anos e era o complemento perfeito para Hendry, já que tinha a velocidade que o seu veterano companheiro já não tinha.

WhatsApp Image 2019-03-02 at 08.36.37Colin Hendry virou ídolo da torcida do Blackburn. Foto/Reprodução: RTE.

Por falar em liderança, Tim Sherwood era o capitão e ponto de equilíbrio da equipe em campo, gerando estabilidade e ditando o ritmo de jogo em campo. Era um volante que protegia bem a sua defesa, mas também gostava de iniciar as transições ofensivas com boa qualidade no passe. Aliás, qualidade não faltava para o talentoso meio-campista que pensava o jogo e tinha um toque refinado para distribuir o jogo de forma direta.

Ao seu lado, David Patty perderia a temporada com uma grave lesão, cedendo lugar ao jovem Mark Atikns, que era lateral-direito de origem, que não se intimidou com a missão de substituir um importante elemento no meio-campo e era um jogador que avançava com qualidade ao ataque, além de formar uma dupla de muita estabilidade com Sherwood.

WhatsApp Image 2019-03-02 at 08.36.37Tim Sherwood era o líder da equipe em campo. Foto/Reprodução: Birmingham Mail.

Pelos lados do campo, Stuart Ripley e Jason Wilcox eram jogadores de características parecidas, já que ambos eram muito úteis nos cruzamentos e que facilitavam o trabalho da dupla de ataque, além de também serem disciplinados taticamente e contribuírem na fase defensiva, muito por uma idéia de jogo que era baseada em fechar bem os espaços e acelerar no contra-ataque, algo bem comum do futebol inglês em sua primeira década.

No ataque, Shearer e Sutton fizeram tanto sucesso que a parceria ficou eternizada com a sigla “SAS”. Era entrosamento puro… A ponto de juntos somarem 49 gols em um total de 80 ao longo da temporada. Sim, o Blackburn sofria poucos gols e marcava muitos, não a toa, terminou a temporada com o melhor ataque da competição, muito pela eficiência da dupla e da compreensão que Sutton dava a Shearer, craque do time e um dos mais inteligentes centroavantes da história do futebol inglês.

Sutton era um cabeceador espetacular e que não se importava em servir o seu companheiro e, mesmo não tendo tanta qualidade, tinha o seu alto grau de importância no time de Dalglish, já que poderia aproveitar os cruzamentos e trabalhar tanto como pivô, tanto como definidor.

Shearer até hoje é ídolo do Blackburn e do Newcastle, sendo um dos finalizadores mais temidos pelos adversários e queridos por quem teve a honra de vê-lo atuar por seu time de coração. Além disso, é no mínimo curioso que ambos tenham sido treinados e até mesmo aperfeiçoados, porque não, por um técnico que era simplesmente mortal nas finalizações.

WhatsApp Image 2019-03-02 at 08.36.37Chris Sutton e Alan Shearer formaram uma dupla de ataque simplesmente mortal na conquista do título. Foto/Reprodução: Jimdo.

Jogadores apresentados, hora de falar da temporada que não seria fácil. Afinal, os concorrentes ao título eram bem fortes, com o bicampeão Manchester United de Cantona & Cia, o Liverpool das estrelas Ian Rush e John Barnes, além das promessas Robbie Fowler e Steve McManaman, o Tottenham de Jurgen Klinsmann e Gheorghe Popescu e o Newcastle de Andy Cole. Concorrência pesada, mas nada que intimidasse.

Houve invencibilidade na arrancada inicial de sete jogos que levou os Rovers para a vice-liderança do campeonato e, com a eliminação prematura na Copa da UEFA para o Trelleborg/SUE, o foco na Premier League ganharia ainda mais força. Porém, foi a partir de Novembro que a equipe embalou de vez embalando onze vitórias seguidas até Janeiro, assumindo a liderança e tendo apenas um empate nesse período.

O time era compacto, com o jogo fluído pelos flancos e, principalmente, consistente. O nível de competitividade era tão alto que forçou o Manchester United a se movimentar na Janela de Transferências de Inverno e contratar o atacante Andy Cole, junto ao Newcastle, para formar uma dupla de ataque capaz de rivalizar com a dupla do Ryverside. Porém, também em Janeiro, Cantona acertaria a famosa voadora em um torcedor do Crystal Palace, sendo suspenso por todo o resto da temporada.

O curioso é que o Manchester United venceu as duas partidas contra o Blackburn, tanto no Ewood Park em Outubro (3-2), quanto em Old Trafford, em Janeiro (1-0). Mesmo assim, parecia que algo estava faltando no fim da temporada. Era Cantona, que se há duas temporadas havia chego e fortalecido os Red Devil’s na busca pelo título, agora ficaria marcado por ter prejudicado a sua equipe de uma forma fatal.

A briga pelo título manteve-se exclusiva entre os comandados de Ferguson e Dalglish até o final da temporada, com Alan Shearer garantindo a liderança com seus gols rodada após rodada e com o United logo atrás com um Andy Cole que já chegava mostrando bons números. A seis rodadas do fim, a vantagem era de oito pontos favoráveis ao Blackburn e o tão sonhado título estava perto para torcedores e jogadores. Porém, não seria nada fácil confirmá-lo.

Alguns especialistas afirmam que o time estava visivelmente nervoso para garantir o título, conquistando apenas duas vitórias nos últimos cinco jogos, o que quase fez com que o sonho se transformasse em um pesadelo difícil de ser esquecido. Na última rodada, a vantagem era de apenas dois pontos e o Blackburn precisaria enfrentar justamente o Liverpool, de “King Kenny”, em seu estádio favorito: Anfield Road. Já o United, enfrentaria o West Ham, no Upton Park, em Londres.

Shearer abriu o placar e deu a sensação de que tudo terminaria bem para os Rovers, mas Barnes e Jamie Redknapp, aos 45’ do 2T, viraram a partida para os Reds. Com isso, a esperança do título estava com o West Ham, que não poderia perder para o United, para assim garantir o título inédito do Blackburn. Porém, com o goleiro Ludek Miklosko fechando o gol em Londres, a partida terminou 1-1 e Walker pôde viver o seu sonho de criança: O Blackburn era campeão inglês.

WhatsApp Image 2019-03-02 at 08.36.37O time do Blackburn comemorando o inédito e histórico título da Premier League. Foto/Reprodução: Premier League Brasil.

Kenny, eleito o melhor técnico da temporada, voltava ao topo do futebol da Inglaterra ao ser um dos raros treinadores que foram campeões ingleses por duas equipes diferentes, assim como Hebert Chapman e Brian Clough. Mas do que isso, montou uma equipe altamente competitiva. Shearer foi o artilheiro da temporada (34 gols) e eleito o craque do campeonato.

Atualmente, o Blackburn disputa a Championship e não figura na Premier League há sete temporadas. Por isso, não podemos nos referir a esse feito de uma outra forma que não seja considerá-lo uma zebra, conquistando um título histórico para os seus torcedores jamais esquecerem.

Ao menos na Premier League, as surpresas costumam se pintar de azul.

@Lipe_Henry

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