Da diversidade a estagnação: O momento tático que vive a Liga Mexicana

Por Henrique Mathias

WhatsApp Image 2019-02-14 at 16.08.04Piojo Herrera e Pedro Caixinha se cumprimentam antes do começo da decisão do Apertura 2018.

Nos últimos 5 anos a liga do México se estabeleceu como uma das melhores do continente, atraindo grandes nomes do mercado sul-americano e também do europeu, demonstrando um poder de investimento cada vez maior. Somado ao material humano disponível, vivemos seguidas temporadas de muita diversidade tática, com projetos bem diferentes obtendo muito sucesso.

Além dos trabalhos estabelecidos e seus mecanismos defensivos e ofensivos é necessário destacar alguns pontos sobre o aspecto cultural do jogador mexicano e como consequência de sua liga. O jogador mexicano, de um modo geral, tem bom trato com a bola, capacidade criativa, boa qualidade no passe, pouca estatura e muita agilidade para se movimentar. Com esses trejeitos e com boas mentes ofensivas trabalhando por lá ao longo dos anos, Bielsa e La Volpe por exemplo, a liga MX nos acostumou com jogos de ritmo alto, muita intensidade, muita força na transição ofensiva e uma média alta de gols.

Com o sucesso de projetos ofensivos que iremos detalhar mais a frente, surgiram também respostas necessárias de equipes mais pragmáticas e com peso maior ao talento individual, lembrando que o jogo pertence aos jogadores. Dentro disto que acabei de falar, não posso deixar de começar destacando Piojo Herrera.

Piojo é um treinador com vasto conhecimento tático, muita experiência e um tato impressionante para se adaptar aos rivais. Contudo o que dita o norte de seus trabalhos são as peças que ele possui e partindo desse material humano disponível a confiança que ele deposita sobre suas referências.

Seja jogando em 4–4–2, em linha, para potencializar um ponta criativo e driblador. Seja no 4–4–2, em losango, para aumentar o funcionamento na zona central e controlar melhor as partidas. Seja no 5–3–2 para somar jogo direto e vencer a segunda bola. Não importando a ideia central, sistema de jogo ou funções dos atletas, Piojo Herrera sempre confia totalmente em seus homens e espera o retorno entre postura e bom desempenho.

Isso funcionou como contraproposta, se assim posso chamar, durante algumas temporadas e elevou a diversidade do jogo dentro do país, com Herrera levando suas ideias para a Seleção do México inclusive.

Enxergando o sucesso do rival dentro dessa metodologia de trabalho e precisando se reerguer, o Cruz Azul fez um mercado de peso um ano atrás, contratando jogadores como Pablo Aguilar, Ivan Marcone, Elias Hernandez e Milton Caraglio. E para levar o time de volta a um caminho vencedor apostou no Português Pedro Caixinha, que venceu o campeonato com o Santos Laguna em 2015.

Caixinha seguiu ideias bem similares com as de Piojo, trabalhando um 4–4–2 em linha, apostando no ritmo baixo e esperando controlar os rivais sem precisar ficar com a bola, pela negação de espaços e a falta de transição ofensiva oferecida.

Toda essa abordagem inicial me transporta até o motivo de estar escrevendo esse texto: o baixo nível de jogo e a pouca diversidade tática que vemos no Clausura 2019. Duas das mentes ofensivas que citei anteriormente e que irei destacar a seguir saíram do país, Pelado Almeyda e Turco Mohamed, e Tuca Ferretti que continua seu trabalho no Tigres se encontra em um momento de estagnação dos mecanismos já bem mapeados pelos rivais.

O que aconteceu com tudo isso foi onda de equipes que não tem qualidade individual ou hierarquia suficiente para apostar nesse jogo mais pragmático e de mecanismos que privilegiam o talento de suas peças, contratando treinadores medianos para fracos e o nível da liga despencando. O sucesso de Piojo e Caixinha fizeram muito bem ao América e ao Cruz Azul, porém para a liga o que aconteceu foi ruim.

Vamos falar um pouco sobre a diversidade tática de anos anteriores que citei, dissecando alguns pontos do trabalho de Tuca Ferretti no Tigres, Matías Pelado Almeyda no Chivas e Antonio Turco Mohamed no Monterrey.

Tuca Ferretti está à frente do Tigres tem 9 temporadas, tendo vencido nesse período 4 campeonatos, feito final em outros 2 e ainda por cima chegando duas vezes a final da Concachampions.

O projeto do Tigres ganhou um patamar de potência continental quando contratou André-Pierre Gignac e em volta do Frances, Tuca desenvolveu mecanismos muito bem trabalhados, onde pode perder e repor peças complementares, sem deixar o nível coletivo cair.

Utilizando como base o seu 4–3–3 característico, onde estão estabelecidas compensações defensivas que fazem sua equipe em momento defensivo se portar em 4–5–1 com muita ocupação na zona central.

O Tigres dos últimos anos tem:

  • Saída de bola em 3+2 com um dos zagueiros tendo muita responsabilidade ofensiva com passes verticais. Por anos foi o Brasileiro Juninho que exerceu esse papel.
  • Laterais que atacam por dentro.
  • Meias complementares, sendo: um organizador para ditar o ritmo e direcionar o jogo e outro que trabalha atacando espaço e oferecendo linhas de passe.
  • Uma dinâmica ofensiva bem interessante onde seu terceiro meia agride a área para ser o homem mais avançado e centroavante da equipe retorna ao meio para oferecer apoios e atrair os zagueiros para longe da área. Tendo em certos momentos Rafael Sóbis e até mesmo Andre-Pierre Gignac jogando como um meia/interior por boa parte das partidas.

WhatsApp Image 2019-02-14 at 16.08.04Andre-Pierre Gignac desempenhando a função de um terceiro homem de meiocampo. (Highlights Futebol Mexicano – Youtube)
WhatsApp Image 2019-02-14 at 16.08.04Posicionamento médio do Tigres com Gignac sendo um autêntico camisa 10. (Sofascore)

Com Matías Pelado Almeyda o Chivas renasceu das cinzas depois de anos terríveis, onde o fato do clube só utilizar jogadores mexicanos e o sucateamento que ocorreu com sua categoria de base proporcionou equipes de pouca qualidade técnica, levando os torcedores do Rebaño Sagrado a sequentes humilhações.

Almeyda chegou a Guadalajara para fazer com o Chivas o mesmo que seu professor, Marcelo Loco Bielsa conseguiu no rival Atlas nos anos 90 e conseguiu. Com um trabalho sério para captar talentos mexicanos de baixo custo e melhorar o trabalho de base do clube.

Durante sua passagem pelo clube variou entre o 4–3–3, o 5–4–1 e 4–2–3–1 sempre utilizando:

  • Perseguições individuais, marcando muitas vezes em bloco médio.
  • Tendo a posse de bola como importante mecanismo defensivo.
  • Potencializando o jogo do centroavante Alan Pulido para lhe entregar bastante em movimentos longe da área e em desmarques de ruptura, sendo Pulido vital para somar saídas e apoios.
  • Quando atuava com linha de 5, sua equipe impressionava pela coordenação para retornar do momento ofensivo com inteligência e cedendo muito pouco em espaços.
  • Saída de bola escalonada, priorizando juntar peças em campo defensivo e atrair os rivais.
WhatsApp Image 2019-02-14 at 16.08.04Highlights Futebol Mexicano – Youtube

Almeyda venceu no clube 2 Copas MX, 1 Campeonato Mexicano e 1 Liga dos Campeões da Concacaf.

Por fim temos que falar sobre Antonio Turco Mohamed no Monterrey. Turco não conseguiu cumprir a principal meta da diretoria, tendo batido na trave ao perder a final do campeonato mexicano para o rival Tigres. Entretanto venceu uma Copa MX e contribuiu para um nível de jogo excelente do torneio em 2016 e 2017, sendo ele responsável pelo time mais intenso e elétrico do país no período.

O time que montou no Monterrey era ligado na tomada no sentido de recuperar bolas em campo ofensivo. Seja quando recuperava a bola perto do meio campo, como quando se utilizava do jogo direto com Rogelio Funes Mori, o que viria a seguir é verticalização pura.

Pontos de destaque do estilo da equipe:

  • O centroavante argentino Rogelio Funes Mori foi um nome muito importante no momento que o time viveu. O argentino era fundamental para a continuidade dos ataques da equipe, oferecendo muito jogofora da área.
  • O time do Turco Mohamed tinha versatilidade, adaptação e verticalização nas veias. Um 4–3–3 simples nas medidas táticas, mas que exigia muita leitura de jogo e muita concentração.
  • Os dois pontas que utilizavam eram jogadores parecidos: Capacidade de drible, velocidade e muita fumaça.
  • Carlos Sanchez era fundamental como um meia hibrido, que fornecia soluções em condução, criando opções de passe e principalmente organizando a transição defensiva.

Esses detalhes das equipes que dominaram a liga mexicana em torneios anteriores, servem para demonstrar a diferença de mecanismos e opções táticas, sendo isso fundamental para a diversidade dos projetos e para o nível alto da liga.

Não existe maneira certa ou errada de se jogar, tampouco é minha intenção ressaltar qualquer ideia de jogo que seja como superior. Contudo está sendo complicado assistir o atual Clausura, com equipes muito espelhadas, pouca diferença de ideias de jogo, muitos gols surgindo através de falhas individuais. Precisamos de um frescor, de alguém que desafia essa lógica geral que estamos assistindo no torneio em 2019, para que tenhamos de volta a liga intensa, divertida e diversa que aprendemos a amar.

@riquemathias

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