Por que Jardine não deu certo?

Por Pedro Galante

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Depois que Guardiola e seu Barcelona encantaram o mundo, todos quiseram fazer algo parecido. No Brasil não foi diferente, no entanto, vemos treinadores que optam por modelos de mais posse de bole e jogo posicional com muitas dificuldades de aplicar suas ideias. O exemplo mais recente aconteceu no São Paulo Futebol Clube.

André Jardine foi multicampeão na base, praticando um jogo de posição muito acertado. Quando chegou ao profissional, trouxe consigo essa ideia. O trabalho de Jardine durou cerca de quatro meses, é quase não foi possível ver o equipe desempenhando o futebol que se propunha. Por que?

O primeiro grande erro de Jardine foi a incoerência. Se o seu discurso pregava um jogo ofensivo, com toques velozes, a sua escalação apontava para outro caminho. Por diversas vezes o treinador insistiu na dupla Jucilei-Hudson que é lenta e pesada. No ataque, escalou Pablo e Diego Souza juntos, convidando o time a arriscar lançamentos sem nem pensar.

Mas para além da incoerência há algo mais complexo. Houve partidas, onde o time escalado tinha condições de propor o jogo, mas ainda assim não conseguia o fazer. A questão aqui é a dinâmica e a atitude dos jogadores.

Quando falamos em jogo de posição, ou um jogo mais posicional, alguns conceitos surgem instantaneamente. Amplitude e profundidade para abrir o campo, jogo entrelinhas para avançar, triangulações e proximidade. Esses são conceitos importantes sim, mas tem pouco valor por si só. São questões mais estruturais, que se referem a ocupação do espaço.

Jardine faltou mesmo com esses conceitos básicos. No segundo jogo contra o Talleres, por exemplo, não se via aproximações ou jogo entrelinhas.

WhatsApp Image 2019-02-14 at 16.08.05São Paulo x Talleres. Perceba que não há aproximações ou triangulações. (Foto: Instat/ Pedro Galante)

Mas como dito acima, houveram partidas, onde o São Paulo apresentava essas questões estruturais, e ainda assim não rendia bem. O jogo contra o São Bento é um bom exemplo.

WhatsApp Image 2019-02-14 at 16.08.05São Paulo x São Bento. São Paulo apresentou as estruturas posicionais, mas não criou quase nada. (Foto: Instat/ Pedro Galante)

Isso acontece, pois, a estrutura é apenas a base do jogo de posição. A verdadeira mágica está na atitude com a bola. A ideia é trabalhar com vantagens. Se o goleiro for atuante com a bola no pé, sempre que a equipe tiver a bola, o jogo será um duelo de 11×10. Inicialmente, essa superioridade numérica está na defesa, já que esse jogador a mais é o goleiro. Quando alguém pressionar o goleiro, haverá um jogador livre a frente. E assim o time busca avançar no campo.

A animação abaixo é de uma situação extremamente simplificada, mas mostra como o goleiro ajuda a construir superioridade e como progredir com elas no campo.

Esse mecanismo também é conhecido como atrair para liberar. Quando um adversário é atraído, libera espaços em suas costas. Jardine apresentou essas ideias já no seu primeiro dia, mas o time não conseguiu desenvolver.

Outra questão importante é esconder a intenção do passe com o gesto corporal. Ao orientar o corpo para um lado, o adversário faz uma corrida para fechar a linha de passe, mas o portador da bola conduz a mesma para o outro lado, no espaço vazio.

Arboleda é o único jogador que tentava incorporar isso ao seu jogo. No vídeo, vemos como ao ameaçar um lançamento, Arboleda desloca o adversário e consegue fazer o passe para Bruno Peres. Se todos os jogadores adotassem esse comportamento, o time faria passes melhores, deixando o companheiro que recebe em melhores condições.

E é de suma importância que essas atitudes estejam presentes desde a saída de bola. Uma saída de bola lenta, que não constrói superioridade resulta em um ataque burocrático.

Guardada as devidas proporções de qualidade técnica dos jogadores e nível de jogo dos campeonatos, vejo o vídeo a seguir mostrando a saída de bola do Manchester City. Atente-se aos conceitos aplicados.

Aqui tratamos especialmente do trabalho de Jardine, mas essa falta das questões atitudinais apresentadas acima é um problema comum em qualquer equipe que busca propor o jogo em solo brasileiro.

@Pedro17galante

4 comentários sobre “Por que Jardine não deu certo?

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