Quando ser corajoso não é suficiente para vencer um tricampeão europeu – ANÁLISE TÁTICA AJAX 1 x 2 REAL MADRID

Por Gêra Lobo

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Quando Mazroun efetuou o primeiro desarme da partida na intermediária do campo merengue aos 34 segundos de partida, havia um recado muito claro sendo passado pelo time de Amsterdã para o atual tricampeão europeu: Haveria pressão para dificultar ao máximo qualquer iniciativa da equipe de Solari em sair jogando com a bola no chão. Não à toa, foram treze desarmes do Ajax em dez minutos de partida que ocasionaram perigosas finalizações na área adversária.

Defensivamente, o Ajax apresentou recursos interessantes ao variar seu posicionamento tático do 4-3-3 para o 4-1-3-2, 4-2-3-1 e até mesmo um eventual 4-2-2-2, sempre com linhas altas e compactas para dificultar a saída de bola do Real que se conseguiu ir para o intervalo sem ser vazado deve agradecer muito a Sérgio Ramos e sua soberana liderança em sua grande área, mesmo quando não havia espaço devido a forte e corajosa pressão holandesa.

WhatsApp Image 2019-02-14 at 16.08.04Foto/Reprodução.

Aliás, coragem é a palavra que melhor pode descrever a partida do Ajax contra o Real, principalmente por buscar sempre o gol e sem limitar-se em proteger seu campo com linhas baixas para conseguir um eventual contra-ataque. Nada disso: Intensidade alta, posicionamento inteligente e forte marcação à linha de passe com superioridade numérica mesmo em fase defensiva, sempre usando o lado esquerdo como preferido para avançar.

Mesmo assim, foi pelo lado direito que as duas principais chances foram criadas, ambas com avanço do lateral-direito marroquino Noussair Mazraoui, com direito a uma finalização cruzada que passou perto da meta defendida por Courtois. A segunda, o camisa 10 sérvio Dusan Tadic, que iniciou a partida como falso 9, recebeu na área e mandou a bola na trave.

Devemos também destacar as atuações fluídas de Hakim Ziyech e David Neres que conseguiam aproveitar os espaços na defesa do Madrid seja com a bola dominada com velocidade e habilidade ou sem a bola, sempre aparecendo como opções de passe para Donny Van de Beek, que atuou como o organizador da equipe nas entrelinhas da defesa madrilenha.

O interessante foi que no momento do gol bem anulado de Tadic, o Ajax não exercia uma pressão tão sufocante já que havia recuado suas linhas de marcação e buscando os encaixes individuais, mas mesmo assim esteve longe de sofrer na primeira metade da partida, muito pelo fato de continuar buscando pressionar o portador da bola para não permitir um avanço até a área.

WhatsApp Image 2019-02-14 at 16.08.04Foto/Reprodução

O Real tinha a bola, mas não dominava; Diferente da imposição tática feita por Erik Ten Hag no 1T, onde pelo menos nove dos treze desarmes foram realizados no campo ofensivo. Crucial para uma equipe com uma proposta tão corajosa e que não vive o momento apresentado na fase de grupos, quando chegou a ameaçar a liderança do Bayern.

No 2T, o Ajax já voltou mais recuado visando o contra-ataque, mas cedendo espaços pelos lados, com boas investidas de Bale e Reguillón. Porém, quando houve mais uma variação defensiva, dessa vez para o 4-1-4-1, quando Van de Beek lançou David Neres em profundidade, às costas da defesa espanhola, onde o brasileiro hesitou e parou em Courtois.

Momento antes de sofrer o gol de Benzema, o Ajax já estava cedendo espaços nas entrelinhas e não mostrava a mesma intensidade na marcação para pressionar e recuperar a bola, tornando-se uma marcação cautelosa, de espera; No lance do primeiro gol sofrido, justamente Mazroun que vinha sendo o melhor jogador da equipe em fase defensiva, não foi páreo para a velocidade de Vinícius Jr que atraiu toda a marcação para si, deixando Benzema livre para abrir o placar.

Com a desvantagem no placar, o Ajax voltou a ter uma postura de ocupação no campo ofensivo para retomar a posse mais próximo ao gol adversário, com Ziyech chamando a responsabilidade criativa e com a entrada de Kasper Dolberg no lugar de Lasse Schone, recuando Tadic e tendo um homem de referência no ataque.

De tanto pressionar no campo adversário, a jogada do gol de empate nasceu exatamente assim quando Lucas Vásquez foi desarmado pelo argentino Nicolás Tagliafico e Tadic lançou Neres que desde a esquerda fez uma assistência açucarada para Ziyech empatar. Era um prêmio merecido após tanta luta e intensidade no jogo sem bola.

Porém, isso cobra um preço e na maioria das vezes é um desgaste físico no fim da partida. Foi exatamente isso que aconteceu e defensivamente o Ajax voltou a apresentar espaços entre as linhas e não conseguia mais acompanhar o ataque espanhol, principalmente Marco Asensio e Mariano Díaz.

Quando Casemiro abriu para Dani Carvajal avançar pela direita e encontrar Marco Asensio, era evidente que a equipe holandesa já não tinha o mesmo fôlego e nem a mesma organização defensiva, já que o camisa 20 avançou livre pela esquerda, às costas dos marcadores.

Fica a sensação de que um melhor aproveitamento nas chances criadas resultaria em uma vitória que seria merecida por tudo o que foi apresentado no 1T e após correr atrás do resultado mesmo tendo retornado em uma voltagem inferior do intervalo.

Entretanto, não podemos esquecer da ótima partida do brasileiro David Neres e o quão perto esteve de ser bem sucedida a corajosa estratégia de Erik Tem Hag.

A expectativa, mesmo com a boa fase, era um jogo extremamente complicado para o Real Madrid, e foi o que aconteceu. Ligado nos 200 por hora, o Ajax começou mordendo os merengues de uma maneira incrível, que impossibilitou os atuais tricampeões de criarem algo, no máximo em alguma falha nessa pressão em blocos altíssimos, que gerava espaços para corridas de Vinicius Jr ou Gareh Bale. Tirando isso, foi um verdadeiro domínio holandês. Porém, o Madrid soube sofrer, mesmo passando perto sair atrás no marcador.

Essa pressão durou por praticamente todo o primeiro tempo. No segundo, continuou, mas em menor frequência, e aí os visitantes souberam aproveitar. Porém, mesmo assim, o que se viu do time de Santiago Solari foi um time como poucas associações e triangulações positivas, além de falta de apoio e de criatividade. Com o Ajax sendo inteligente na forma como marcava no seu campo, o Madrid continuava criando pouco em situações de troca de passes. No frame abaixo, Benzema, como de costume, desce para receber, mas a defesa holandesa não o acompanha, o que quebra qualquer chance de espaço vazio. Além disso, faltava uma presença maior entrelinhas no merengue.

WhatsApp Image 2019-02-14 at 16.08.04Percebam a falta de alguém mais por dentro. Benzema ajuda nisso, mas desceu para buscar em outro setor (Foto: Reprodução)

Defensivamente, o Real Madrid, quando não esteve com a bola, se comportou muito bem, mais uma vez. As grandes chances criadas pelos holandeses vieram em recuperações no campo dos espanhóis, com a alta pressão. Claro que, de vez em quando, por atuar com a última linha bem avançada, o Madrid tomava algumas bolas nas costas, mas isso não aconteceu tanto. Sem a bola, organizado no seu campo, mais uma vez dedicação máxima em fechar espaços. O Ajax não teve tanto espaço assim para criar entrelinhas, graças as bolas leituras dos homens de meio, principalmente Casemiro. organizado no seu campo, mais uma vez dedicação máxima em fechar espaços. O Ajax não teve tanto espaço assim para criar entrelinhas, graças as bolas leituras dos homens de meio, principalmente Casemiro.

WhatsApp Image 2019-02-14 at 16.08.04Foto: Reprodução.

Mesmo com uma atuação bem abaixo do esperado, o atual tricampeão soube aproveitar as chances que teve, principalmente nos contra-ataques, e saiu com uma vitória e vantagem grandes de Amsterdam. O grande destaque individual ficou para Sergio Ramos, que, suspenso para o jogo de volta pelos cartões amarelos, fez uma partida quase que impecável, sendo perfeito nos cortes, interceptações e, principalmente, na leitura de jogo. Uma atuação gigante em um jogo extremamente complicado.

@gerinhalobo_

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