Times históricos da Premier League: 1992/93 – ANO UM

Por Felipe Henry

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Premier League é uma das principais ligas nacionais do mundo atualmente e possui uma identidade já conhecida seja na qualidade técnica das equipes, do dinamismo das partidas ou dos estádios sempre lotados. O modelo deu certo, mas houve uma longa caminhada até chegar lá.

Hoje, começamos uma série aqui no MW Futebol para contar a história tática e técnica da Premier League desde a primeira temporada, em 1992-93. O “ano um” da remodelada liga inglesa foi conquistado pelo Manchester United, o primeiro sob o comando do lendário técnico “Sir” Alex Ferguson e que apresentava uma equipe forte que tinha nomes como Peter Schmeichel, Ryan Giggs, Mark Hughes e Eric Cantona para quebrar o jejum de mais de duas décadas sem títulos.

Aliás, Giggs e Cantona seriam pilares de uma equipe que iniciou mal a temporada, mas que evoluiu justamente após a chegada do polêmico atacante francês, que trocou o então atual campeão Leeds United pelos Red Devil’s em Novembro de 1992, tornando-se fundamental no 4-4-2 que Ferguson migrava eventualmente para o 4-1-3-2.

Se hoje vemos uma liga repleta de estrangeiros entre os principais protagonistas, raramente víamos até mesmo outro europeu como astro principal da liga, sem serem galeses, irlandeses, escoceses… Enfim, britânicos em geral.

Se hoje vemos uma liga que evolui cada vez mais taticamente, na época era comum vermos equipes montadas com duas linhas de quatro, ataques pelos flancos, cruzamentos, enfim tudo que define o estilo “Kick and Rush”, tão tradicional na Terra da Rainha. No time de Alex, havia o seguinte XI inicial após a chegada de Cantona à Old Trafford:

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Todo grande time começa com um grande goleiro. Entretanto, Peter Schmeichel vinha de temporadas instáveis que não o garantiam como goleiro realmente incontestável da equipe. Porém, viveria a primeira grande temporada de sua carreira, que o firmou como o maior goleiro da história da Dinamarca, do Manchester United e um dos grandes da história do futebol. Peter tinha o espírito de liderança que o fez virar lenda em Manchester.

caxirola-bahia-brown-1-originalPeter Schmeichel e seu filho, Kasper, atual goleiro do Leicester e da seleção dinamarquesa. Ambos campeões ingleses e ídolos em seus clubes. Foto/Reprodução: BT.

Na linha de quatro defensores, destaque para o experiente Steve Bruce, capitão da equipe e que marcou dois gols decisivos na vitória de virada sobre o Sheffield Wednesday no dia 10 de Abril. Para muitos, o jogo que virou a chave a favor dos Red Devil’s na briga particular com o Aston Villa pelo título da primeira temporada da Premier League.

Steve Bruce, aliás, é justamente o atual técnico do Sheffield Wednesday e é conhecido como um treinador competente em acessos desde a Championship à Premier League, com o Wigan Athletic e o Hull City, por exemplo. Como jogador, Bruce venceu três títulos da Premier League e três Copas da Inglaterra no Manchester United, bem como uma Taça da Liga com o Norwich City.

caxirola-bahia-brown-1-originalSteve Bruce com o troféu em suas mãos. O zagueiro era o capitão da equipe que está na história como a primeira a conquistar a Premier League. Foto/Divulgação: Premier League.

Na linha de quatro meio-campistas, vemos nomes históricos como Paul Ince, icônico volante do United e do English Team na década de 1990, contratado junto ao West Ham com apenas 21 anos em 1989. Em meio a um time histórico, Ince destacava-se por ser um jogador habilidoso, de muita qualidade nos passes e finalizações, mas principalmente pela raça e seu espírito de liderança, a ponto de apelidar a si mesmo de “The Guv’nor” – ou seja, O Chefe!

Paul Ince ficou seis temporadas em Old Trafford e conquistou todos os dez títulos que poderia disputar, com destaque para o bicampeonato inglês em 92/93 e 93/94 e a Recopa da Uefa, em 1991. Em 1992, o chefe começou a ser convocado para a seleção inglesa, pela qual disputou as Euros de 1996 e 2000, além da Copa do Mundo de 1998.

Uma prova de como “The Guv’nor” era eficiente nas finalizações foi o fato de ter feito seis gols na temporada, o primeiro deles no Derby de Manchester contra o City em um belo chute de primeira da entrada da área. Ince ainda atuaria com as camisas da Internazionale e do Liverpool, sendo um dos mais importantes jogadores ingleses das últimas décadas.

caxirola-bahia-brown-1-originalPaul Ince era um meio-campista espetacular. Foto/Reprodução: Pinterest.

E o que falar de Brian McClair? Simplesmente o primeiro jogador a marcar vinte gols com a camisa do Manchester United desde George Best. Sim, McClair era atacante, mas viraria um importante meio-campista de boa chegada ofensiva, formando uma forte dupla com Ince. Além dele, Lee Sharpe era um jogador com forte chegada pela direita com mais de 100 partidas disputadas pela Premier League com a camisa do United, além de marcar 17 gols.

Mas é claro que os dois pontas chamavam a atenção pela juventude e por serem muito promissores. Sharpe tinha  21 anos e Giggs, o galês que está entre os grandes ídolos da história do clube, apenas 19. Nascido em Cardiff, estava cursando a Manchester City’s School of Excellence e com apenas 14 anos recebeu a visita de Alex Ferguson em sua casa, assinando seu primeiro contrato com o time de sua infância.

caxirola-bahia-brown-1-originalO jovem Ryan Giggs ao lado do craque Cantona com a taça da Premier League 92-93. Foto/Reprodução: Daily Mail.

Em Novembro de 1990, tornou-se profissional e, quatro meses depois, estreava com a camisa que defendeu durante toda a carreira contra o Everton.  Na temporada seguinte, já marcou o gol da vitória contra o Manchester City por 1-0, o primeiro da sua vitoriosa carreira. Ryan era um jogador de classe incontestável, com muita qualidade no passe e que era fatal nas finalizações, simbolizando o quão eficiente era o time de Ferguson em campo.

No ataque, Mark Hughes encerraria a temporada como artilheiro com 15 gols marcados, superando os nove gols que Giggs, McClair e Cantona marcaram cada um na temporada. Hughes era habilidoso, tinha faro de artilheiro e não era a toa que vestia a camisa 10. Até por ser um jogador de gênio forte, formava uma dupla intensa com Cantona, mas também destacava-se pelos seus voleios espetaculares, além de ser muito veloz.

caxirola-bahia-brown-1-originalMark Hughes era um camisa 10 de respeito no Manchester United. Foto/Reprodução: The Sun.

Sim, Hughes marcou época e era um protagonista na equipe de Ferguson, mas se a icônica camisa dez estava muito bem servida, a lendária camisa 7 estava também em ótimas mãos: Eric Cantona era um jogador fabuloso e extremamente polêmico, acumulando momentos contraditórios na França e com a camisa do seu ex-clube, Leeds, apesar de ser adorado pela torcida.

caxirola-bahia-brown-1-originalEric Cantona e a sua chegada a Old Trafford, apresentado ao lado do técnico Alex Ferguson. Foto/Reprodução: Trivela.

No United, demonstrava um profissionalismo contagiante. Chegava uma hora mais cedo aos treinamentos para aprimorar sua técnica e segundo uma declaração do então jovem talento Gary Neville, Eric mostrava-se ser um jogador polido e respeitável, que vivia em uma casa simples e andava em um carro simples, contrariando a reputação que assustava seus companheiros antes mesmo de sua chegada à Manchester.

Claro que, com a espetacular gestão de Alex Ferguson, tudo fluía mais facilmente e a equipe que ocupava a modesta 10ª posição em 21 de Novembro, arrancou de forma irresistível para a briga pelo título.

Após o elétrico “Boxing Day” contra o Sheffield Wednesday que terminaria empatado em 3-3 fora de casa, os Red Devils já aparecia na 3ª posição, firmando-se na briga com o Blackburn, do artilheiro Alan Shearer, o Aston Villa de Dean Saunders, Dalian Atkinson e Paul McGrath e o surpreendente Norwich de Mark Robins e Ruel Fox.

Desde então, destaco três jogos na corrida pelo título: Em Abril, venceu os Canários em Carrow Road por 3-1, com gols de Giggs, Mark Hughes e Eric Cantona, fazendo os três gols no 1T em contra-ataques rápidos:

O primeiro com dez toques desde a saída com Schmeichel, passando por Sharpe, com Cantona dando um passe açucarado em profundidade para Giggs infiltrar e finalizar;

O segundo começa com Gary Pallister tirando a bola de sua área, com Hughes e Ince dominando pelo meio e Giggs escorando para Paul Parker fazer um belo lançamento para Hughes disparar pela direita, driblar o goleiro e ampliar para os Red Devil’s: Nove toques do alívio defensivo de Pallister até a bola morrer no fundo da rede após a finalização do camisa 10;

Já o terceiro começou com o erro de passe do ataque do Norwich, onde Ince roubou a bola, deixou dois marcadores no chão e disparou para o ataque, quando na entrada da área serviu Cantona no lado direito, que só teve o trabalho de finalizar. Apenas seis toques até o gol, mostrando como a equipe de Ferguson era extremamente eficiente quando tinha espaço para acelerar em contra-ataque.

A vitória fora de casa contra um adversário perigoso e surpreendente deu uma liderança definitiva ao United, que não perdeu mais o direito de ficar no topo da tabela até o final do campeonato. Porém, no jogo seguinte contra o Sheffield Wednesday em Old Trafford, veríamos o nascimento de um dos momentos mais emblemáticos de toda a “Era Ferguson” no Manchester United: O “Fergie Time” nasceu bem antes da final contra o Bayern em Barcelona.

Isso porque as “Corujas” resolveram impor o caos aos 20’ do 2T, quando o irlandês John Sheridan abriu o placar para os visitantes, deixando os adeptos do Manchester United bem descrentes. Batalharam tanto para conseguir quebrar o jejum e tudo seria atrapalhado por um tropeço melancólico em casa? Que tipo de acontecimento místico poderia dar uma convicção inabalável de que o título ficaria em Old Trafford dessa vez depois de duas décadas?

Se o ataque havia encantado na última partida, coube ao defensor Steve Bruce ser um herói eterno no coração dos torcedores, impulsionado pelo místico “Fergie Time”, tal qual uma “Hail Mary” salvadora para uma vitória milagrosa.

caxirola-bahia-brown-1-originalSteve Bruce marcou os dois gols da virada contra o Sheffield Wednesday em Old Trafford. Foto/Divulgação: Premier League.

Primeiro, o empate viria aos 41’, com Bruce aproveitando a cobrança de escanteio e cabeceando firme. A virada viria de forma angustiante e dramática aos 52’, quando um desvio tirou a bola da direção dos atacantes e a colocou a mercê de um cabeceio fatal e histórico, com Bruce atacando a bola para a tirar de qualquer possibilidade de defesa para fazer Sir Alex quase invadir o gramado e a torcida definitivamente enlouquecer no Teatro dos Sonhos.

Já no dia 02 de Maio, quando o principal concorrente Aston Villa perdeu para o Oldham Athletic, a história estava sendo escrita com letras vermelhas depois de um longo tempo em que o United viu o rival Liverpool, o forte Leeds United e o sensacional Nottingham Forest tomarem a dianteira no protagonismo nacional. Mas tudo seria mudado, pois a Nova Era viria sob a batuta do lendário treinador escocês.

Para celebrar, a vitória por 3 x 1 sobre o Blackburn deixou um gostinho ainda mais especial por ter sido de virada, com Ryan Giggs, Paul Ince e Gary Pallister marcando os gols da partida que marcou a conquista do título da primeira edição da Premier League.

Se antes da temporada 1992/93, o United havia conquistado apenas sete títulos nacionais, tudo mudaria com a imponente marca de 13 títulos da Premier League, todos eles com Ferguson e a grande maioria conquistada com uma classe de jovens talentos que, apesar de integrarem ao elenco campeão, a “Classe de 92” pouco entrou em campo.

caxirola-bahia-brown-1-originalA “Class of 92” tornou-se lendária sob o comando de Alex Ferguson no Mancehster United. Foto/Reprodução: Squawka.

Entretanto, Gary Neville, Nicky Butt, Paul Scholes e David Beckham também foram vencedores com a lendária camisa vermelha do Manchester United, que literalmente mudou a sua história de coadjuvante para, incontestavelmente, tornar-se um dos mais vencedores times do futebol inglês. O “Ano Um” que início a uma sequência de glórias.

@Lipe_Henry

 

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