Um texto sobre simplicidade – Análise do Porto 18/19 de Sérgio Conceição

Por João Victor Cardoso

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Na sociedade contemporânea já se tornou senso comum afirmar que há uma valorização muito maior na forma, na exterioridade e na aparência, do que no conteúdo apresentado. No futebol não é diferente. Às vezes nos deparamos com situações em que somente a estética, o “jogo bonito”, é valorizado, em detrimento da espontaneidade e da naturalidade que, a meu ver, também são fatores encantadores no prisma futebolístico. Por isso afirmo, esse é um texto sobre simplicidade. Sérgio Conceição atingiu um meio-termo entre a evolução tática e a sistematização das liberdades individuais dos jogadores, na busca de desequilíbrios criados por esse livre-arbítrio estruturado em conceitos simples, mas conceitos que, ao serem combinados, geram um modelo extremamente coeso e difícil de ser batido. Sem mais delongas, vamos às peças e ao modelo dos Dragões!

“Que ninguém se engane, só se consegue a simplicidade através de muito trabalho.”

Clarice Lispector

“Jogar futebol é muito simples, mas jogar um futebol simples é a parte mais difícil do jogo.”

Johan Cruyff

Antes de entender um modelo de jogo é preciso saber interpretar as funções do jogador no sistema. Para isso, farei um pequeno esquema explicitando as principais características de alguns atletas que fazem as ideias de Conceição funcionar:

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Vistas as principais aptidões dos atletas, mostrarei como que esses traços são potencializados no esquema proposto por Sérgio Conceição.

Modelo de jogo

caxirola-bahia-brown-1-originalTime-base e opções por posição (sujeito a mudanças)

Como já supracitado, Conceição simplifica seus mecanismos para que consiga extrair e potencializar as qualidades de seus comandados. Sua ideia central de jogo está pautada na verticalidade, domínio físico e orientação regulada pela posição da bola. Atinge esses conceitos por meio da operacionalização de certos movimentos e premissas, como amplitude, liberdade posicional interna, exploração de desmarques de ruptura, intensa pressão pós-perda, criação de lado “forte” e lado “fraco”, linha sustentada (jogos grandes) e mais alguns outros processos que estarão explicados mais adiante. Para isso, dividirei em 3 partes a explicação do modelo no texto. Organização defensiva, transições e organização ofensiva.

Começando pelas ações da equipe no ataque, em organização ofensiva:

Os azuis e brancos costumam alicerçar-se em algumas movimentações táticas para fortalecer as ideias de Sérgio Conceição. Amplitude, profundidade, liberdade posicional interna, aproveitamento de desmarques de ruptura e a criação de assimetrias para facilitar a criação do lado “forte” e “fraco” são algumas dessas movimentações. Com esses mecanismos, o treinador consegue favorecer o jogo vertical, as transições velozes, embates físicos e o jogo aéreo.

Vamos então a esses processos e como eles influenciam nas condutas dentro de campo:

1) Amplitude e profundidade

Conceitos que vem da escola posicional (Michels, Cruyff, Guardiola…), aqui fazem papel de favorecer as atitudes anti-posicionais. Alargando o campo (amplitude) com os laterais e prendendo os zagueiros adversários com os atacantes (profundidade), há a criação de bastante espaço na região interna de campo. Por ali circulam Óliver, Herrera, Brahimi e Corona, criando jogadas a partir de suas conexões. A amplitude e profundidade aumentam os espaços para que os meias possam aproveitar, criando superioridade numérica em muitas ocasiões.

2) Liberdade posicional interna

Como já foi dito, a partir do alargamento do espaço ocupado pela equipe, os meio-campistas podem explorar os espaços deixados nos corredores internos. Além disso, Conceição deixa a intuição dos jogadores atuar bastante na organização ofensiva. Brahimi, por exemplo, não se limita a nenhuma posição específica e pode aparecer em vários setores. Com essa liberdade, o técnico propicia a criação de sistemas que valorizam as decisões e a qualidade individual dos atletas, pois, naturalmente, eles irão se juntar ao redor da bola, trocando passes curtos e avançando a partir desta anarquia sistematizada.

caxirola-bahia-brown-1-original(Sport TV) – Amplitude para abrir a equipe adversária enquanto o meio é povoado pelos médios (Danilo e Herrera) e pelos falsos-pontas (Óliver e Brahimi)

3) Aproveitamento de assimetrias

Vejam bem, conceitos posicionais implicam simetrias para que a organização da equipe gire em torno do espaço e não da bola. Como supracitado, o Porto usa a amplitude e profundidade (ferramentas posicionais) no intuito de aproveitar a imprevisibilidade dos seus meias, que são muito inventivos. Nisso entramos neste conceito de assimetrias. Como a equipe se organiza pela bola e não pelo espaço, as assimetrias são naturais. Os jogadores costumam se juntar no entorno da bola, promovendo jogadas velozes e de toques curtos. Desse modo, se desenvolvem os lances de lado “fraco”. Como os atletas se juntam próximos da bola, há uma concentração de atenções e de marcadores maior do que no outro lado. Assim é facilitada a ultrapassagem do lateral do lado oposto, recebendo em vantagem posicional e, no caso de Alex Telles, por exemplo, proporcionando ótimos cruzamentos para Tiquinho e Aboubakar (que se machucou recentemente e deve desfalcar a equipe por um tempo, inclusive).

4) Aproveitamento das rupturas

Aqui uma movimentação muito característica dos atacantes, principalmente Marega, Aboubakar e Fernando. Com as inversões rápidas para pegar o lado oposto desprotegido, as linhas adversárias costumam se desorganizar e propiciar momentos para que o atacante corra

e quebre a linha em velocidade (no caso de Marega e Aboubakar é muito difícil pará-los por serem fortes e robustos para as disputas corporais) Esse movimento ocasiona muitos problemas para o adversário pela necessidade de se reagrupar com uma bola nas costas.

Vídeo análise com uma exemplificação da organização ofensiva dos Dragões. Notem que Marega e Tiquinho oferecem profundidade e o camisa 11 está sempre tentado a romper o espaço.

Outra medida que Conceição adotou para transitar em velocidade é a utilização do bom e velho jogo direto. Os atacantes tem força o suficiente para recepcionar o lançamento e escorar para a chegada dos velozes meio-campistas.

Como podem ver não há muito mistério. É um sistema simples, mas muito eficiente. Tanto que o Porto já fez mais de 40 gols em 20 jogos de campeonato português.

Agora vamos ao sistema defensivo e as transições:

É impossível falar da organização defensiva dos azuis e brancos sem também comentar da transição defensiva proposta por Sérgio Conceição. O time assim que perde a bola já parte para uma pressão pós-perda agressiva, na tentativa de retomar o controle da bola. Um movimento interessante a se prestar atenção é a tentativa de fechar os espaços por dentro para que a pressão seja orientada para as laterais do campo (as famosas armadilhas de pressão), aonde, com uma recuperação rápida, já se ativa os meias para transitar em velocidade.

caxirola-bahia-brown-1-original(Sport TV) – Ao orientar o adversário a sair pelo lado, a equipe já adianta a marcação para tentar recuperar em campo ofensivo.

Indo para a organização defensiva em si, é notável que há dois esquemas que Conceição utiliza para dois contextos distintos. Em jogos grandes (Liga dos Campeões ou jogos capitais, por exemplo) já formatou a equipa em um 4-1-4-1 para rechear ainda mais o meio e ter boa cobertura nas laterais do campo. Mas, nos jogos da Liga NOS, em geral, é o 4-4-2 com os extremas sem tanta função de grudar no lateral do oponente, sendo utilizados muito mais como válvulas de escape para os contragolpes. Primordialmente, há a utilização de alguns encaixes setoriais e perseguições, mas sem corridas longas na caça dos adversários.

Outro movimento importante de se lembrar é a formação da linha sustentada (também em jogos grandes!). Ideia que implica a manutenção da posições dos defensores, sem perseguições ou quebras na linha. Se obtém essa ação por intermédio da intervenção dos

extremas ou atacantes, que fecham os espaços ao lado do lateral. Como demonstrado no frame a seguir:

caxirola-bahia-brown-1-originalFrame produzido por Antônio Duarte (@ShanklyLegacy)

Finalizando este aspecto defensivo, ressalto a importância de Herrera e Óliver Torres. Ambos são imprescindíveis na construção, mas ainda mais em momentos de saltar a pressão. Com sua inteligência e leitura de jogo, sabem o momento exato para se subir a marcação a fazer a orientação, já dita, da saída de jogo adversária para as laterais. Além do mais, coordenam as coberturas defensivas e as marcações setoriais (antes havia Danilo Pereira, um verdadeiro cão de guarda da defesa, mas sem tanta qualidade para sair jogando).

caxirola-bahia-brown-1-original(Sport TV) – Herrera e Óliver aparecendo para receber.

Para finalizar, é preciso destacar a força em bolas paradas. Conceição parece ter treinado incansavelmente sua equipa para aproveitar o tamanho e força de seus centrais e atacantes. Inúmeras jogadas de perigo e gols saem de escanteios e faltas cobradas para a área. Sempre é um perigo ver as torres do Porto descer para tentar o cabeceio pois, uma vez que outra, sempre sai o gol.

No mais, era isso. Simples assim. Sérgio Conceição consegue fazer da simplicidade em suas filosofias o seu maior dom. Efetividade, naturalidade e simplicidade são algumas das palavras que permeiam o imaginário deste Porto, que já vem fazendo uma ótima temporada. Como diria Leonardo Da Vinci: “A simplicidade é o último grau de sofisticação”, e Conceição parece ter bebido da fonte de Da Vinci.

@jvcardoso05

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3 comentários sobre “Um texto sobre simplicidade – Análise do Porto 18/19 de Sérgio Conceição

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