Cotia a identidade dos clubes

Por Alif Oliveira e Matheus Marques

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É de conhecimento em maioria, que temos hoje uma escassez de clubes com suas identidades definidas, onde nossos dirigentes brasileiros fazem decisões precipitadas, até na Europa, onde se pouco pensa em um projeto a longo prazo por parte dos clubes. Vemos clubes como São Paulo contratando técnicos como Diego Aguirre que tem um proposta e modelo de jogo mais reativa, de ficar mais sem a bola, para logo dar uma ruptura no processo a longo prazo, definindo pela permanência de um cria da casa que é André Jardine, que preza por um futebol propositivo, jogo de posição, com ter a posse de bola.

O Corinthians, hoje, é uma das poucas únicas equipes no nosso futebol brasileiro quem tem uma essência no seu modelo de jogo e filosofia de trabalho por mais de uma década. Por isso não é apenas coincidência que mesmo com dívidas altas e sem um grande poder financeiro como seu rival Palmeiras, continua a ganhar títulos sem ter ao longo dos anos um grande time estrelado. Desde 2009 com Mano Menezes, o time foi construindo sua identidade notabilizando grandes sistemas defensivos, linhas compactas e marcações que são raramente altas. Constrói resultados baseada na suas defesas estabilizadas e efetividade de seu ataque, tanto que são raros muito gols durante a temporada. Períodos com técnicos como Adilson Batista, Cristóvão Borges e Oswaldo de Oliveira fizeram com que o time mudasse, mesmo que pouco, a sua filosofia e modelo de jogo. Coube a Carille, aluno dos professores Tite e Mano Menezes, que resgatasse a essência do Corinthians vencedor e que ganha títulos com a força coletiva de seu grupo e a força de seu estádio.

caxirola-bahia-brown-1-originalTite e Carille trabalharam juntos por 5 anos no Corinthians (Foto: Daniel Augusto)

Vindo do Empoli em 2015 para dirigir o Napoli,MaurizioSarri impactou diretamente a Serie A com sua ideia de jogo. Através do famoso estilo de “jogo de posição” ele conseguiu dominar os adversários com troca de posições, posse de bola produtiva e alta intensidade, chegando no seu auge na temporada 2017/18 onde consegui absurdos 91 pontos. Atrás de novos desafios para sua carreira, foi para o Chelsea, mudar todo a ideia e cultura de um clube que tinha como base treinadores que pregavam jogo reativo e um sistema defensivo muito rígido, com Mourinho e Conte sendo os “expoetes” dessa fase de pragmatismo dos blues.

Agora, em contexto de identidades e culturas que são feitas desde as categorias de base, vemos Ajax e Barcelona que são clubes vitoriosos e com a filosofia de seus jovens jogadores de base já se espelharem no modelo de jogo da equipe de profissionais, onde prezam pela cultura holandesa, de RinusMichels e Johan Cruyff, que preza pela posse de bola e do atacar o espaço. Hoje, o Ajax continua com a mesma filosofia que lhe foi ensinada, Erik Tem Hag encanta a todos com a nova geração do time holandês expondo o jogo de posição, com principalmente o jovem zagueiro Matthijs de Ligt, o volante Frenkie De Jong e o meia ofensivoZiyech, que desde suas infâncias já estão adaptados a filosofia do clube. O Barcelona tem a mesma filosofia e cultura da equipe holandesa, onde na La Masia (Centro de treinamento das categorias de base do clube) todos os jovens jogadores conhecem a identidade do clube, de prezar sempre pela posse de bola, ser ofensivo e não abdicar da bola. La Masia foi criada em 1979 formada pelos mandamentos de Johan Cruyff, o que explica a influência pelo 4-3-3 que norteia todos os técnicos das categorias.PepGuardiola, se tornou o símbolo de excelência da La Masia, hoje comandando o Manchester City, o técnico foi o grande expoente mundial a ser produzido nas categorias de base do clube, que contou com outros jogadores inúmeros talentosos como CarlesPuyol, Gerard Piqué, Iniesta, Xavi e Messi.

Inaugurado em 2005, pelo até então presidente do São Paulo Marcelo Portugal Gouvêa, o Centro de Formação de Atletas Laudo Natel, em Cotia, demonstra a cada temporada ainda mais estar em seu ápice de excelência. Para se ter uma noção, no ano de 2018 foram mais de 10 títulos conquistados pelos meninos da base de Cotia, nas mais diversas categorias. Isso é dado graças ao grande investimento que a diretoria do clube faz no centro de treinamento em Cotia, onde possui nove campos de futebol, hotel, alojamento e mais de 180 funcionários incluindo cozinheiros, fisioterapeutas e preparados físicos oferecendo todo alojamento para todas categorias do clube. Esse suporte fez com que saísse mais de diversos talentos para a equipe profissional, incluindo o meia Lucas, hoje no Tottenham e o volante Casemiro, hoje no Real Madrid e sendo convocado diariamente pela Seleção Brasileira. Além disso, o elenco principal do clube contém diariamente nos treinamentos os garotos da base, além de já contar com os garotos Luan, Rodrigo, Lucas Kal, Helinho e Antony.

Cotia demonstra uma identidade e modelo de trabalho que a equipe profissional ainda não tem, e que agora com o técnico André Jardine procura buscar ter essa essência. Para Pedro Smania, coordenador das categorias de base do clube desde 2017, em entrevista ao Lance, afirma que a base do clube já tem um modelo e que esse modelo é uma proposta de jogo. “O modelo de jogo da base do São Paulo é um modelo de proposta de jogo. É até um nome batizado aqui: propositivo. Esse foi colocado como nome do que gostaríamos de ter aqui: é ficar com a bola, controlar o adversário, pressionar após a perda da bola… É o que a gente considera o modelo do São Paulo”, comenta o coordenador.

Para aprofundarmos mais sobre o assunto de categorias de base e identidade e modelo de jogo, convidamos Gabriel Fuhrmann, jornalista e especialista em Futebol de base e também O Observador , perfil também especializado em categorias de base para uma entrevista.

MW: Vemos em equipes como Ajax e Barcelona, uma filosofia de trabalho e um modelo de jogo que vem desde categorias de base, porque isso é muito pouco feito no futebol brasileiro?

O Observador:No Brasil para se implementar um sistema de jogo leva tempo, e tempo é uma das coisas que os treinadores brasileiros não tem. Temos no Brasil duas coisas totalmente distintas, categorias de base e profissionais.

MW: Para os meninos de base que estão acostumados a uma ideia de jogo e filosofia de trabalho, chegar na equipe profissional com um outro estilo de jogo e de trabalho atrapalha sua evolução e maturidade como atleta profissional?

O Observador:Aqui no Brasil é feita a transição para o profissional muitas vezes de atletas que tem um talento puro com eles, e por isso conseguimos desenvolver, mas os jogadores comuns que sobem, acabam sofrendo muito com essa transição, algo que não vemos muito na Europa, jogadores que atingem o profissional, sobem muito melhores preparados, com um conceito muito mais definido. Então pode se dizer que atrapalha os jogadores que não estão totalmente formados.

MW: Hoje, a categoria de base do São Paulo demonstra uma grande excelência em seu estilo de trabalho, vemos nos inúmeros títulos que os garotos tens conquistado, tendo uma filosofia de sempre ser propositivo e nunca abdicar da bola. Porque que na equipe profissional do clube, não se demonstra a identidade que Cotia tem?

O Observador:Exatamente pelo fato de não termos tempo de trabalho aqui no Brasil, não é possível implementar um estilo de jogo, sendo que se o treinador perder três jogos ele está fora, muitas vezes ele planeja um estilo de jogo para não perder e não para fazer o que realmente gostaria. Já na base os treinadores não tem tanta pressão e conseguem desenvolver um trabalho a longo prazo.

MW: Vemos equipes com grande poderio financeiro fazendo inúmeras contratações diariamente, tendo categorias de base com grande talento e potencial, isso acaba atrapalhando a garotada a somar mais minutos e ter um desenvolvimento maior na equipe profissional?

O Observador: Atrapalha muito, equipes que tem como filosofia comprar faz com que os minutos dos jogadores oriundos das categorias de base seja muito prejudicado, porque o clube já compra o jogador pronto teoricamente. E para esse tipo de filosofia teria que ter alguma medida da CBF obrigando o time a investir na melhoria de suas categorias de base.

MW: É sabido que existem garotos que demonstram grande potencial nas categorias debase mas que na equipe profissional não acaba gerando a mesma expectativa para dirigentes e torcedores, porque isso ocorre e como trabalhar para que o mental do atleta não se abale?

O Observador: Muitas das vezes isso ocorre devido ao pouco tempo de adaptação que esse tipo de jogador tem, mesmo que ele faça partidas ruins no profissional, o treinador, torcida e os dirigentes tem que dar total confiança para que a mentalidade desse jogador não seja abalada, porque é com o tempo que ele vai se adaptando.

MW: Agora uma pergunta pouco fora do tema do texto para concluirmos, como nós, brasileiros, podemos evoluir o debate sobre o futebol, com uma profundidade e sem polêmicas vazias?

O Observador: Para evoluirmos no debate sobre o futebol é preciso ter conhecimento sobre o tema. O futebol vai muito além do placar final, analisar o resultado, pura e simplesmente, não requer muito conhecimento e, por sua vez, joga o debate lá pra baixo, não há profundidade nem análise tática, de contexto, nas variações de jogo, no repertório de jogadas, no estilo de jogo. Sem dissecar um jogo, é complicado analisa-lo de forma satisfatória. Sem o conhecimento do jogo, inevitavelmente, a discussão se empobrece.

Falando da mídia num geral, a guerra pela audiência e pelo click são enormes, e isso faz com que o conteúdo “quadrado” tome conta, mais entretenimento, polêmicas vazias, do que análise de fato. Mas claro que há exceções. Isso contribui para um debate pobre e sem profundidade. Perde-se um bom espaço de um nobre espaço na mídia com polêmicas e assuntos vazios quando se fala de futebol.

MW: Temos visto que só agora o São Paulo tem tentado criar uma identidade na equipe profissional e de como é feito em Cotia, você acha que isso é uma mudança de pensamento e que vá impactar o clube ao longo prazo?

Gabriel Fuhrmann: Não sei se só agora isso está sendo feito ou sequer se isso realmente está sendo feito. O que sabemos é que hoje o São Paulo tem um treinador com um estilo de jogo bastante definido, são conceitos bem claros sobre o posicionamento dos atletas, o estilo de marcação e agressividade da equipe. Se isso é de fato uma definição de identidade, só o tempo vai dizer. Você questiona se isso vai impactar o clube a longo prazo. Bem, uma identidade de jogo só tem efeito no mínimo a médio prazo, tendo uma sequência e quando falo disso, não falo necessariamente sobre a manutenção do André Jardine, mas também, em caso de reposição de treinador, quem viria pro lugar dele? Qual o conceito de jogo de um novo treinador caso acontecesse? Isso também é determinante. O São Paulo não criou identidade de jogo, porque nos últimos anos revezou treinadores que taticamente eram completos opostos.

MW: Com os investimentos e mudanças promovidas pelas diretorias passadas para a base tricolor e tendo um modelo de jogo vistoso, conseguimos ver os resultados que são os inúmeros títulos. Seria Cotia um modelo a ser copiado pelos outros clubes brasileiros?

Gabriel Fuhrmann: Cotia é um modelo bem interessante, que evoluiu dentro dos próprios conceitos e muito do que há no São Paulo pode ser e é copiado por outros clubes do Brasil, mas cada clube tem que ter a sua identidade. O São Paulo tem bem definido o tipo de jogador que forma e como forma esse jogador e isso é muito bom, mas não é uma fórmula exata e muito menos única. Cada clube tem uma característica de formação que é bem visível quando se levanta os jogadores que são revelados por cada time. O mais importante não é ganhar títulos na base, (que é bacana, mas está longe de ser o primordial) e sim formar jogadores que atendam a necessidade do seu time profissional. É maravilhoso que em Cotia o São Paulo tenha essa identidade que dá tão certo em todas as categorias, mas completamente inútil se o time principal não tem sua filosofia casada com o que faz seu centro de formação. Não adianta formar um jogador que não tem nada a ver com o que o seu time profissional precisa.

MW: Você acha que por querermos sempre o resultado a curto prazo, fica mais difícil para os treinadores e o clube criar uma filosofia e modelo de jogo?

Gabriel Fuhrmann: Com certeza, esse é um dos maiores problemas do futebol brasileiro, prejudicial não só aos treinadores, mas também aos jogadores. A construção de uma filosofia de jogo nasce com erros, acertos e principalmente ajustes, que não acontecem da noite pro dia. Até que o elenco esteja equilibrado pra entregar o que é pedido, leva tempo. Até que os jogadores assimilem tudo, leva mais tempo ainda e infelizmente no Brasil esse tempo não existe.

MW: Ainda tem um conservadorismo na hora de dar chances para os atletas da base “prontos” quando eles estão na equipe profissionais, o que falta para mudar este cenário?

Gabriel Fuhrmann: É uma série de fatores que leva a esse conservadorismo e o primeiro deles é o medo de perder o emprego. Se o jogador da base não der conta logo de cara, a culpa cai sobre o treinador. E se ele não der conta e os resultados não surgirem, a situação piora ainda mais. A torcida também tem uma paciência reduzida com quem vem da base, ao menor sinal de que o jogador ainda precisa crescer, já surgem inúmeros torcedores dizendo que não serve pra jogar no time e o mesmo não acontece com quem vem de fora e tem o mínimo de currículo. Se esquece que é necessário tempo e por algum motivo, tanto para a torcida quanto para os treinadores, o menor dos currículos já dá um crédito a mais para os atletas, tendo em vista o quanto de jogador medíocre é contratado por um valor bem acima do que realmente vale e ainda joga mais de 100 jogos pelos clubes grandes.

Acho que falta hoje para os treinadores e também torcedores, entender que nem todo mundo que sai da base é jogador de Seleção e que tudo bem isso, ser um carregador de piano comum que se encaixa em um time, já está de ótimo tamanho e é extremamente útil. Hoje vivemos um ciclo em que se compra o jogador comum e se tenta formar o craque, quando deveria ser o contrário, formar vários jogadores comuns, capazes de suprir essa necessidade sempre existente do time e assim juntar dinheiro para contratar um, dois ou três jogadores de alto escalão, realmente capaz de resolver algo. E acredite, tentando formar o jogador comum e dando chances para eles, se seu time estiver bem encaixado, você não só vai encontrar um ou outro craque nas suas categorias de base, mas você vai alavancar demais o nível do futebol comum do seu time.

MW: O São Paulo tem toda uma metodologia na base, principalmente na questão de modelo de jogo que é praticada por todas as categorias. A ideia do “Jogo de Posição” é amplamente desenvolvido em Cotia fazendo os jogadores terem a noção da tática e do espaço na hora do jogo. Até que ponto isso ajuda na evolução do atleta?

Gabriel Fuhrmann: De modo geral isso ajuda muito o atleta a se adequar em diferentes ambientes, o que é ótimo pra carreira dele, mas nada ajudaria mais do que chegar no time principal e encontrar o mesmo cenário. Ter sua função já bem definida e assimilada para apenas reproduzir ela no profissional, torna a adaptação mais simples e o índice de aproveitamento muito maior.

MW: Agora uma pergunta pouco fora do tema do texto, como nós, brasileiros, podemos evoluir o debate sobre o futebol, com uma profundidade e sem polêmicas vazias?

Gabriel Fuhrmann: Acho que não só no Brasil e não só no futebol, como em qualquer lugar do mundo e qualquer área de estudo, há um delimitador do que atrai a massa e do que atrai apenas um nicho. O debate profundo (por assim dizer) do futebol existe, mas ele é bem limitado ao público que se interessa por isso. Vejo sim um crescimento gradativo de pessoas, sejam torcedores ou profissionais da área (de jornalistas a treinadores) com vontade de ir além do óbvio e do que chama a atenção da massa, mas dificilmente vejo esse debate saindo do nicho em que está localizado hoje. Mesmo que muitas pessoas clamem por esse debate, ele não vai gerar o buzz que a polêmica gera e logo será sempre preterido, já que a audiência vem antes do conteúdo, afinal, é ela quem paga as contas.

@Alif_OR14 e @MatheusM633

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