Flamengo, Palmeiras, Borussia Dortmund, Manchester United, Liverpool,Manchester City, Tottenham e Chelsea – um pequeno resumo da potência como relação futebolística

Por Lucas Mateus

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O Futebol talvez seja o esporte que mais representa a coletividade, o fato de todos dependerem de todos, as ações de cada um interferem no jogo do restante, ou seja, tudo causa ação e reação no campo de jogo, tudo gera uma cadeia de acontecimentos. No meio de tamanha coletividade surge diversas relações, chamada de associações, tais associações são o foco do jogo, as interações, instintivas ou não, entre os jogadores, ofensiva ou defensivamente, subjetiva ou objetivamente, são o fundamento do jogo, desde o primórdio até o seu fim.

Entre tantas relações, existe uma de potencializador e potencializado, ou seja, quem potencializa e quem é potencializado. Cada jogador possui situações em que ele se sobressai, entramos aqui nos conceitos de vantagens numéricas, qualitativas, cinéticas e posicionais:

Vantagem numérica: A mais simples de todas, simplesmente superioridade numérica no setor da posse.

Vantagem qualitativa: Vantagem que diz respeito ao talento, superioridade de qualidade em uma situação.

Vantagem Cinética: Relacionada com a próxima, mas é a vantagem do movimento. Quem sai antes, chega antes, em teoria.

Vantagem posicional: Conhecimento do espaço ocupado, visando tirar vantagem dele, ocupando o melhor espaço em relação ao adversário.

Potencializar o jogador, tem muito da vantagem qualitativa, potencializar o talento do indivíduo, ou seja, entender o espaço e a função que este deve efetuar para que sempre se encontre em vantagem.

Flamengo de Dorival Júnior:

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Na sua, curta, passagem pelo rubro-negro, Dorival encontrou boas soluções, criando situações onde talentos eram potencializados, organizando a fase ofensiva da equipe, dando foco as associações com dois triângulos laterais (Arão – Pará/Rodinei – Everton Ribeiro/Renê – Vitinho – Paquetá), potencializou seus talentos, tornou Paquetá um jogador de terço ofensivo, diferente de Barbieri, onde o camisa 11 tinha que ir sempre a base e construir o jogo. Tivemos esse time:

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Vitinho sempre foi a profundidade da equipe, Uribe era um 9 móvel, sempre saindo da referência, aparecendo dos lados para associar-se e criar vantagem numérica, Vitinho era mantido sempre na última linha, em amplitude máxima, recebendo em situações de 1×1, com espaço e tempo para tirar sua principal qualidade, sua capacidade de ambidestro, onde criava facilidade para driblar seus adversários e conseguir efetuar a criação.

Isso só acontecia graças a Renê, o camisa 6 era base, centralizado no campo, associando-se na base e permitindo o tal posicionamento do camisa 14, por isso esse triangulo da esquerda era muito mais fixo, tendo sempre: Renê na base, Paquetá nas entrelinhas e Vitinho na amplitude e profundidade, tudo isso para que Renê potencializa-se Lucas e Vitor, tal potencialização foi fundamental para conquista de pontos do Flamengo.

No mesmo Flamengo, tínhamos outra relação dessa espécie, Everton Ribeiro se destaca como ponta de flutuação, ou seja, começa na extrema direita, mas caminha para o centro até se encontrar nas entrelinhas e participar da criação do jogo. Para que isso fosse possível, Pará, ou Rodinei, era deslocado para a profundidade na direita, enquanto Arão permanecia na base, esse triangulo em regra tinha: Arão na base, Everton Ribeiro nas entrelinhas e Pará/Rodinei em amplitude, mas era muito mais móvel. Ou seja, Dorival potencializou Paquetá, Ribeiro e Vitinho, além de Uribe, no seu Ataque Posicional.

Nesse sentido podemos interpretar Rodinei como potencializado, afinal sua melhor característica é recebendo aberto, usando do físico para chegar ao fundo e cruzar. Tendo como potencializador Arão, semelhante a Renê, na base.

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Na mesma movimentação, potencializa-se dois jogadores, a base sempre tem esse caráter potencializador, apesar de haver exceções, principalmente construtivamente, é uma troca constante de ralação e interação, podendo sempre um potencializar o outro, não havendo uma limitação de ser apenas um ou outro.

Nesse sentido, mostra como Renê, principalmente, foi fundamental nesse Flamengo, além de ser um dos melhores construtores do elenco, foi ele quem potencializou os dois craques do lado esquerdo, graças a ele Paquetá e Vitinho podiam ser efetivos no ultimo terço.

Liverpool de Jürgen Klopp, 17/18 e 18/19:

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O Liverpool de 17/18 era caracterizado pelo seu trio de ataque, suas rupturas diagonais, seus extremos em profundidade, sua velocidade para definir, seus contragolpes, tudo isso passava por um homem: Roberto “Bobby” Firmino.

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Firmino não “só” criava espaço para Mané e Salah romperem em diagonal, mas conectava os setores com passes e capacidade criativa, ele era o epicentro da equipe. Sua movimentação e sua participação ativa do jogo ligava os contragolpes e por isso, ao permitir que os extremos ficassem mais centralizados, usando os laterais em amplitude, Klopp potencializou Salah e Mané, tendo Firmino como principal potencializador.

No Liverpool atual o sistema é um pouco mais complexo:

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No Liverpool atual, o bloco interior são potencializadores, enquanto os laterais, Salah e Mané são os potencializados, Trent e Robbo avançam para gerar amplitude ofensiva, podendo infiltrarem nas costas da defesa, nisso Fab e Wijnaldum são quem irão cobri-los em caso de contragolpes, Firmino ganhou um companheiro nessa ligação de setores e potencialização dos extremos, Shaqiri.

O suíço liga muito bem Salah no ponto futuro, laçando no espaço, criando uma situação onde a velocidade de Mo seja a qualidade vitoriosa, potencializando-o.Fabinho é um organizador, ele dita o ritmo da equipe e faz o controle das movimentações, sempre buscando controlar a posse e criar situações para sua manutenção, na contrapressão, Gini é seu apoio, sempre ajudando Fabinho.

Liverpool cria muito jogo interior, pelo centro do campo, atraindo seu adversário e criando espaços para os laterais receberem e criarem, por isso o grande índice de participação deles nas partidas, grande participação de Fabinho aqui, ativando esses mecanismos da amplitude,  com os extremos a tentativa é usar Shaqiri para liga-los sempre com passes longos, no espaço e em movimento de ruptura para poderem finalizar.

Manchester City de Pep Guardiola:

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Pep Guardiola é o maior influenciador do futebol mundial, isso é fato, sabe explorar totalmente seu material humano, mesmo vindo de um Jogo de Posições, cria interações, se baseia nelas, e tudo mais.

Em relação a seu material humano, vemos uma disputa muito interessante na lateral esquerda, Mendy ou Delph, o primeiro é fatal no ultimo terço, produz assistências como uma máquina, mas há a necessidade de jogar em amplitude, enquanto Delph produz um apoio ao jogo interno, apoia a construção estruturada em 2-3 ou 3-2, é suporte de Fernandinho e permite que Sané se mantenha aberto.

Na temporada 17/18, Mendy passou a maior parte no Departamento Médico, com isso Delph veio a ganhar oportunidades e se provar um bom lateral, principalmente por atuar por dentro:

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Dessa forma, Pep tinha apoios a Fernandinho, fortificando a base da jogada, não deixando o brasileiro lidar sozinho com a pressão adversária, e ainda mantinha seus extremos em amplitude para receberem no 1×1, criando assim um sistema onde os laterais potencializavam os extremos e o volante.

Com a volta de Mendy, um jogador que precisa ser potencializado, Pep teve de repensar seu sistema, já que as assistências criadas por Benjamim seriam fundamentais na temporada:

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O extremo esquerdo era quem deveria atuar centralizado, nisso Sané perdeu um pouco de espaço, o alemão rende muito mais aberto e por isso teve de ter um tempo trabalhando para funcionar no corredor esquerda-centro, com essa saída do camisa 19, Sterling foi deslocado para a esquerda e Mahrez entrou na direita, o atleta inglês sempre abria o corredor para que Mendy o atacasse, isso acontecia com movimentações de saída da amplitude para o centro, buscando arrastar o adversário, enquanto o lateral francês abria o campo como um extremo.

Logicamente, Pep sabia quando era a melhor hora de usar essas alternativas, já que era um jogo de escolhas, ganhar assistências ou construção, era uma balança.

Pep consegue potencializar todos seus jogadores de criação, é incrível como faz, ele consegue sempre criar situações onde consiga explorar o máximo do talento de seu material humano, sendo um técnico muito adaptável, não preso a uma única ideia. Por isso, apesar de destacar alguns aqui, existem diversos mecanismos que usam dessa interação na equipe de Guardiola.

Inclusive, após o clássico Liverpool e Manchester United, o próprio Klopp explicou que fez utilização de um mecanismo parecido, com Naby vindo para o centro e abrindo o corredor para Robertson ganhar metros, sendo esse um dos pontos fundamentais da vitória. Nessa situação, Naby era o potencializador e Robertson o potencializado.

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O jovem escocês ganha muito quando ataca a amplitude em velocidade, imposição física e técnica de cruzamento, Klopp o potencializa nesse sentido, assim como faz com Arnold.

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Tottenham de Pochettino:

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Os Spurs nos proporcionam diversos mecanismos focados nessas interações, principalmente quando temos Sissoko em campo, sua imposição física, dedicação, leitura de jogo, entre outros aspectos o permitem potencializar até 3 jogadores de uma só vez:

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Trippier é potencializado quando Sissoko cobre suas costas, criando uma situação em que o lateral direito possa participar tranquilamente do momento ofensivo, WInks é potencializado com a proteção física de Sissoko, permitindo que o camisa 8 seja um jogador extremamente construtor, leve e centro dos passes da equipe, Eriksen pode abrir para receber na esquerda e se movimentar livremente para a zona da posse, pois o francês sempre estará ali para participar da transição negativa, essa apenas temporizadora. Sissoko talvez seja um dos melhores do mundo em potencializar seus companheiros.

Pochettino usa dessa interação para poder criar seu ataque móvel e rápido, juntar jogadores no setor da bola e definir por associações constantes e dinâmicas, ou seja, é extremamente necessário que haja potencialização de talentos em todas as instancias e para isso é necessário tal interação.

Há também a potencialização por situação, ou seja, a mobilidade e troca de posições do trio de ataque se adequando a cada situação, como Kane vindo para as entrelinhas no momento do jogo direto, Son e Alli em profundidade, para potencializar a capacidade de receptor de Harry,  Son buscando ser o escape em velocidade da equipe pela esquerda, potencializando suas conduções em velocidade, Alli sempre buscando estar em zona de finalização, entre tantas outras movimentações.

Chelsea de Maurizio Sarri:

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Logo no início de seu trabalho, Maurizio se destacou por ter potencializado seus talentos de forma primorosa, tornando Hazard, naquele momento, o melhor jogador da Premier League, ao dar liberdade para sua criatividade em flutuações, criando um mecanismo em que Kovacic abria como um mezzalla, cobrindo as costas de Alonso que subia para poder ocupar a amplitude ofensiva, Kanté foi potencializado como um interior, chegando a frente, aparecendo em zonas de criação, quase um box-to-box.

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Nesse sentido entra a importância de Kova e Jorginho como potencializadores nessa equipe. O maior acréscimo de Alonso ao time é sua participação no terço ofensivo, para isso Kova era um potencializador, abrindo para defender o espaço e permitir que Marcos avançasse o campo, com isso Hazard era livre para flutuar e criar, com Jorginho de construtor, Kanté pode ganhar metros em velocidade e aparecer na zona de finalização. Maurizio Sarri é gênio.

Há, também, sistemas que potencializam jogadores, vimos no ultimo Brasileirão que Felipão potencializou Deyverson, Dudu, Bruno Henrique, Willian entre outros com seu sistema de jogo direto. Dando foco nas suas características e criando situações que favoreciam seus talentos e características. Assim venceu o título nacional.

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Deve-se entender a forma como o jogador se destaca, como ele sente o jogo, como ele se movimenta em campo, assim você pode potencializar seu material humano, assim dando mais qualidade a ele, os exemplos nos mostram que grandes técnicos são aqueles que potencializam os protagonistas, ou seja, os jogadores. Destaco aqui Solskjaer no Manchester United, potencializando Rashford, Pogba e Lingard no seu sistema, sabendo como cada um deles gosta de se movimentar em campo, entendendo seu material humano e assim o potencializando.

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Potencializar o talento é o que diferencia técnicos, as metodologias, os métodos, a filosofia, cada um pensa em uma forma de potencializar esses talentos, pode acontecer de diversas formas e meios, observemos a forma como cada um dos exemplos lidou com o material humano que possui. Cada material humano é único, não há materiais humanos iguais, Favre potencializou Reus tirando suas responsabilidades defensivas, privilegiando sua parte física, trazendo-o para o centro, permitindo movimentações de criação livres e espontâneas, evitando as lesões, já que seu físico não é tão explorado nesse sistema.

Essa relação potencializador-potencializado é fundamental para o jogo, muito liquida, ou seja, se adaptando a cada situação, um potencializador pode ser potencializado em certo momento, vice-versa, deve ser balanceada, potencializando os jogadores certos nos momentos certos, para criarmos vantagem, e dessa forma os potencializados acabam potencializando os demais, isso engloba a coletividade do esporte, essas relações, essas interações, isso é o Futebol.

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“Para fazer uma obra de arte não basta ter talento, não basta ter força, é preciso também viver um grande amor.” Wolfgang Amadeus Mozart

@LucaM008

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